Agarra, geme e treme


Andam para aí a falar muito do amor.
Foi num dos anos 90 coisa e tal. Já não sei quem me levou, mas levaram-me, no Rio de Janeiro, a um teatro lindo onde cantava Jards Macalé. Era ele, tenho a certeza. Porque me esqueci do nome, mas me lembro muito bem de um lirismo amarrotado, de espreme, geme e mata, de um lirismo a envergonhar-se num cinismo de entre os dentes.
Andam por aí a falar muito do amor, mas só o amor de Jards Macalé é que é um tigre de papel que range, ruge e rosna.

 

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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9 respostas a Agarra, geme e treme

  1. Carla L. diz:

    Jards Macalé me é inesquecível e não por conta da sua música.Eu tinha em torno de uns 20 anos e trabalhava como estagiária numa emissora de rádio quando o conheci.No finalzinho da tarde, naquele lusco fusco, estavam todos agitados porque o produtor da rádio não havia aparecido para levar o músico de volta ao hotel.Meu diretor passou os olhos pela sala, os parou em mim e disse:
    -Pode ficar sossegado, Macalé, que nossa estagiária vai levá-lo ao hotel.
    No meio daquela confusão, todos apressados, afinal era sexta feira e Jards ainda tinha uma apresentação na cidade, eu tentava dizer para o diretor que eu não sabia chegar no tal hotel.A resposta dele foi:
    – Não tem problema, você acha fácil, tem placas indicando. É só ir em direção à rodovia Anhanguera que é fácil, fácil.Em meia hora vocês estão lá.
    E assim foram nos empurrando para fora em direção ao carro.Fiquei firme e tentava não demonstrar que não fazia a mínima idéia de como chegar lá.Levei quase uma hora para avistar o hotel e ele ainda estava do outro lado da pista e eu não encontrava um retorno, não tinha uma única placa indicativa.Macalé , ao perceber que eu estava um pouco perdida, só faltou espumar de raiva.Ao chegarmos, ele bateu a porta violentamente e não me disse nem até logo.
    Assim ele tornou-se inesquecível para mim e acredito que a recíproca seja verdadeira.

    • manuel s. fonseca diz:

      Carla, mas que grande episódio.Se eu soubesse tinha gritado seu nome lá na plateia do Teatro.

  2. ~CC~ diz:

    Há alucinações piores 🙂 Um tigre (ou tigresa) assim até não está mal visto…
    Quanto à explicação do amor só conheço uma coisa mais difícil de perceber e de explicar: a existência do próprio universo. E há lá coisa melhor do que os mistérios, quanto mais nos aproximamos, mais eles fogem.
    ~CC~

  3. Rita V diz:

    O Manel no Rio de Janeiro ( com o tal de Jards Macalé) e eu a ouvir a Teresa Silva Carvalho mesmo ali ao lado.
    😀

  4. manuel s. fonseca diz:

    Há Amar, Armar e Mar. Uma tropa fandanga, Rita.

  5. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Mais uma descoberta ! Que voz extraordinária, um timbre peculiar, uma melodia de balada…Obrigado Manuel!

  6. manuel s. fonseca diz:

    Ber­nardo, a minha sorte é ter ami­gos que me con­vi­dam a ver estas coi­sas. Por acaso foi um grande dia no Rio.

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