Aos meus sobrinhos

A não ser os meus sobrinhos que espero que contem, não tenho filhos. Tristes sobrinhos são, pois, os meus Tristes filhos. Já lhes pedi que me dissessem poemas. Disseram, graves e liricamente adultos. Imagino, hoje, nesta voz francesinha, as vozes inocentes que eles terão tido e o que, convictos, terão, quase de bibe, dito um dia, de pé, à frente do quadro negro, na aula de português.

Il est midi. Je vois l’église ouverte. Il faut entrer.
Mère de Jésus-Christ, je ne viens pas prier.
Je n’ai rien à offrir et rien à demander.
Je viens seulement, Mère, pour vous regarder.
Vous regarder, pleurer de bonheur, savoir cela
Que je suis votre fils et que vous êtes là.
Rien que pour un moment pendant que tout s’arrête.
Midi!
Etre avec vous, Marie, en ce lieu où vous êtes.
Ne rien dire, mais seulement chanter
Parce qu’on a le coeur trop plein,
Comme le merle qui suit son idée
En ces espèces de couplets soudains.
Parce que vous êtes belle, parce que vous êtes immaculée,
La femme dans la Grâce enfin restituée,
La créature dans son honneur premier
Et dans son épanouissement final,
Telle qu’elle est sortie de Dieu au matin
De sa splendeur originale.
Intacte ineffablement parce que vous êtes
La Mère de Jésus-Christ,
Qui est la vérité entre vos bras, et la seule espérance
Et le seul fruit.
Parce que vous êtes la femme,
L’Eden de l’ancienne tendresse oubliée,
Dont le regard trouve le coeur tout à coup et fait jaillir
Les larmes accumulées,
Parce qu’il est midi,
Parce que nous sommes en ce jour d’aujourd’hui,
Parce que vous êtes là pour toujours,
Simplement parce que vous êtes Marie,
Simplement parce que vous existez,
Mère de Jésus-Christ, soyez remerciée !
“La Vierge à Midi” é um poema de Paul Claudel. O lirismo arrebatado de Paul Claudel é sincero e vibrante de fé, uma fé física que se comunica sem pudor, mas também sem proselitismo. Há nele uma comunhão com o feminino a que, como mulher, não me autorizo a resistir.

Sobre Escrever é Triste

O nome, tiraram-mo de Drummond. Acompanho com um improvável bando de Tristes. Conheço-os bem e a eles me confio. Se me disserem, “feche os olhos”, fecharei os olhos. Se me disserem, “despe-te”, dispo-me.
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7 respostas a Aos meus sobrinhos

  1. manuel s. fonseca diz:

    A voz da criança acrescenta inocência a tudo. Até a Claudel, o poeta diplomata que cantou De Gaulle. Obrigado

    • Escrever é Triste diz:

      Veja lá, perigoso sobrinho, se ainda me mete a Assembleia da República no poema. Só me faltava essa.

  2. G.Rocha diz:

    Magnifique!!! 😉
    (pena não ser sobrinha também 😉 :))) , mas descaramento para comentar, tenho eu :)! )

  3. Tia … do Fernando Pessoa

    HAVIA UM MENINO
    Havia um menino,
    que tinha um chapéu
    para pôr na cabeça
    por causa do sol.
    Em vez de um gatinho
    tinha um caracol.
    Tinha o caracol
    dentro de um chapéu;
    fazia-lhe cócegas
    no alto da cabeça.
    Por isso ele andava
    depressa, depressa
    p’ra ver se chegava
    a casa e tirava
    o tal caracol
    do chapéu, saindo
    de lá e caindo
    o tal caracol.
    Mas era, afinal,
    impossível tal,
    nem fazia mal
    nem vê-lo, nem tê-lo:
    porque o caracol
    era do cabelo.

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