ART ME UP – iv

(MALABAR EMOTIONAL DESIGN: dizer objectos nos seus constituintes tradicionais e acrescidos de concreta portugalidade, é pouco para dizer MALABAR. Com mais ou menos irreverência, com originalidade, inteligência e sofisticação, Malabar é aquilo e mais isto, e mais o design de autor. 

TUDO ISTO É… é um projecto MALABAR. Para o concretizar, convidou artistas nacionais a reinterpretarem a guitarra: que a tratassem como tela, como escultura, como quissem. Aos 21 que aceitaram tal desafio, foi enviada uma mala, de madeira, que continha, de facto, uma guitarra: em peças, porém. Uma das artistas que aceitou o convite foi Ana Vidigal. À guitarra espelhada que concebeu, deu-lhe por título: Severa, existe alguém mais bela do que eu?)

ART ME UP – IV
ANA VIDIGAL – iii – SEVERA, EXISTE ALGUÉM MAIS BELA DO QUE EU?
SILÊNCIO QUE SE VAI CONTAR UMA GUITARRA!
3a

A marquesa Catherine de Rambouillet foi, para alguns, a mais preciosa entre as preciosas – nome dado pelos próprios a si mesmos: Les Précieux. La Préciosité foi um movimento estético e cultural fortemente promovido pela aristocracia francesa dominante, através des chambres blues, salões literários de referência que interessavam frequentar pela promoção, pelo avanço oferecidos a um escritor, um poeta, a um artista, a um homem da sociedade – logo que a nobreza lhe corresse nas veias onde, então, se acolhia a também nobreza da alma.

Mais: eram salões de musical leveza dançante na arte da conversação, quando não meditativa. A recriação dos modos de tratamento entre eles, mais ou menos protocolares, levantavam uma diferença protectora de qualquer contaminação popular, grosseira, ou até por quem quer que estivesse fora do círculo de convívio. No entanto, os modos faziam moda, transbordam para fora das rarefeitas alcovas.

Mesmo pelo culto de um amor platonizante, os preciosos se distinguiam: um amor vagamente cortês, contra-natura e pró-espírito, tendencialmente descarnalizado – nem por isso casto, antes reprimido até que uma cortina descomposta. E havia, claro, o apertado espartilho de uma linguagem tal que se reinventava para dizer o dizível.

Expressões que pegavam fogo e, descendentes na hierarquia, saltavam para a ponta da língua varina que, não só carecia de protecções contaminatórias, como não se coibia das mais elevadas aspirações: de baixo, olha-se sempre para cima, pois então. Mesmo hoje. Uma desnatização, chamemos-lhe assim: de la crème de la crème, para o leite ainda morno de acabado de mugir.

Preciosos a quem Molière mimoseou de ridículos em pena mais feroz que bico aquilino, e levada à cena – mas devemo-lhes, a estes preciosos, não apenas o preciosismo, também cultura, ditos, mesmo ideais e uma estética, creio, de um barroco cartesiano. Acima de tudo, devemo-lhes, no tempo desvalorizado da mulher, a colocação desta em lugar central como agente de cultura. E devemo-lhes, por exemplo: os olhos são  o espelho da alma.

Ana Vidigal, Severa, existe alguém mais bela do que eu

Aqui estamos. Diante da guitarra espelhada de Ana Vidigal: Severa, existe alguém mais bela do que eu?

Pasme-se: é o espelho de Severa, guitarra que a acompanhava, quem pergunta. Só para, apaixonada e fielmente, lhe afirmar, no reflexo devolvido, nota a nota: a mais bela és tu, Severa.

Quem está reflectido na guitarra espelhada de Ana Vidigal? Se a olharmos, os nossos olhos. Estará neles também a alma feita voz e canto mundialmente patrimoniados? Aquele canto saído das docas, vindo, saberão Deus e Néry de onde e que, subindo da viela, se ouvia pela rua, tomou lugar no mais baixo dos bordéis de Alfama onde nenhuma chambre blue, vermelho sexo, sangue, chambre rouge de vida. Aquele canto que foi pelas tabernas do Castelo e da Mouraria, foi, ficou lá, onde, vadio, fez a amorosa revolução das classes, fidalga e lavadeira que Marx não sonhou. Música e letra transitavam com lua e sol, da noite para o dia, as notas da guitarra chula para a pauta do piano da menina trazidas par son papa. De cima, olha-se sempre para baixo, pois então. Mesmo hoje. De coupé o senhor fado: do bordel para o salão.

Talvez a Severa tenha sido a mais preciosa entre as preciosas – para o conde de Vimioso, amado amante, foi com certeza. E à Severa nem Moliére se atreveria a levantar-lhe um risco de tinta.

Olho esta guitarra espelhada. Só vejo o que ela me deixa no reflexo devolve. O fado, nascido no mais azul dos salões: seu pai é o céu do horizonte sem terra à vista, e sua a mãe o mar sem fim.

FADO DA DOCE LUZ
– fado ao espelho –

Se um dia hei-de morrer
e morrerei
seja o céu do claro azul
que tanto amei
nesta terra do sul
porta do mar
onde o coração não cansa
de navegar
Que o voo leve da andorinha
leve o sonho que tinha
de um grande amor
e em mim fique a saudade
que amanhece em doce luz
e o desejo bem guardado
amadurecido em cruz

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
Esta entrada foi publicada em Post livre com as tags . ligação permanente.