Cristiano Ronaldo

Por vezes, o avançado está de costas para a baliza. O avançado de costas para a baliza divide-se entre a angústia e uma alegria nervosa, quase feminina. Ora, ele estava de costas para a baliza.

Um passo atrás, os dois adversários, de frente para o esférico, eram duas torres inexpugnáveis, os dois de cabeça alta, corpos saudáveis a respirar a vantagem táctica de quem tem o católico e assíduo hábito de não falhar a bola que os olhos estão a ver.

À frente deles o avançado de costas para a baliza, prisioneiro, cada pobre movimento ao alcance da perna, do peito, da cabeça de quem está de frente para a redonda bola.

A bola, centrada, veio pelo ar, os inexpugnáveis olhos dos dois defesas a vê-la, sabendo que mesmo que o impotente avançado a segurasse lhe cairiam em cima, velozes, potentes, ferozes. E a bola continuou a sua geométrica linha curva. O avançado terá tido então um gesto, uma improvável, invisível inflexão. De costas, moveu-o um movimento animal, subtil, felino. Talvez tenha sido só um pequeno passo, mas quando rodou, não apoiando o peso do corpo sobre nenhuma perna, os dois defesas descobriram que o avançado já estava 15 impossíveis e inventados centímetros para além deles, a bola a sair, em fulva fosforescência, do seu pé direito de avançado, para embater no poste à esquerda do ultrapassado, vencido guarda-redes.

Aos 45 minutos da primeira parte, quando Ronaldo não marcou o que seria um golo luminoso, os deuses juraram que lhe dariam as asas de mel que queimaram a Ícaro. Cumpriram quase no fim do jogo, quando Nani simulou arrancar para o bico da área e tocou curto para a direita onde, como um violino, entrava Moutinho, que logo centrou sem mesmo se encostar à linha. Revejo agora a bola que sobrevoa o central checo e Hugo de Almeida a saltar como um figurante que sabe bem o seu papel. Ainda eles estão no ar e já a bola vai descendente, supõe-se que para ficar aos cuidados do lateral direito checo, não fora a velocidade a-gravitacional que faz surgir nas suas costas a figura de Ronaldo desenhando o voo que os pássaros, a nuvem, o devastador tufão lhe ficam a invejar. E a baliza parecia uma boca a abrir-se a um beijo, à mais fina iguaria, as redes num riso convulso, contente.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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36 respostas a Cristiano Ronaldo

  1. Natália diz:

    Não gosto de futebol.
    Não vi o jogo.
    Para a próxima, importas-te de fazer tu o relato?!
    É que com a baliza feita boca, a abrir-se a um beijo, até via (ouvia) um duelo de box…

    • Esperança Pinheiro diz:

      Não gosto do mundo do futebol, os relatos põem-me nervosa; mas com relatos destes…
      poesia no futebol, quem diria?

      • manuel s. fonseca diz:

        Aqui os Tristes da Escrever põem uma especial Tristeza em tudo, que é que se há fazer, cara Esperança.

    • manuel s. fonseca diz:

      Buongiorno Natália, ora, ora, está lá tudo, no futebol, naquelas aparentes correrias sem sentido. É um desporto bastante “teatral”, acho eu…

  2. G.Rocha diz:

    Subscrevo e acrescento…. passaria a escutar, a ver e a perceber de futebol …. se todos os homens soubessem poeticamente falar de futebol como o Manuel!!! 😀

    • manuel s. fonseca diz:

      Ó mas que grande gentileza a sua. Sabe que há uma tradição de gente fantástica a escrever sobre futebol. Eu deliciava-me com a velha “A Bola” do tempo de Vitor Santos, do Pinhão e outros mestres. No Brasil, o Nelson Rodrigues. E depois o Valdano, o jogador, que escrevia lindamente.

  3. Rita V diz:

    Se formos à final gostava de o ter a segredar ao meu ouvido o jogo … ah ah ah

  4. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Manuel, é todo um universo num segundo! E a Rita tem toda a razão, um relato , triste, a sair de uma bela aparelhagem de HI-FI, com o voz e as palavras do Manuel, isso é que era!

    • manuel s. fonseca diz:

      Aos 45 minutos, Bernardo, foi uma grande jogada e, depois, um belo golo. O textinho é o meu divertissement.

  5. Benvinda Neves diz:

    Excelente “relato” – o Manuel “deu a volta” a todos oa que não gostam de futebol.
    Pode ignorar-se o futebol mas ninguem fica indiferente à poesia (adoro poesia).
    Também gostaria muito que fossemos à final, mas o Manuel que me perdoe, não acredito que seja dos que sonsegue segredar um relato, mas dos que vibra de tal forma, que este lhe sai em “gritada poesia”.

    • manuel s. fonseca diz:

      Não podia ter mais razão Benvinda. Confesso que me entusiasmo um bocado, mas já gritei mais.

  6. Margarida diz:

    Se eu não soubesse, diria que o seu texto fora escrito por uma mulher para outras mulheres! Ah como as palavras nos enganam!

    • manuel s. fonseca diz:

      Maragarida, e eu a pensar que isto era uma reflexão meio Beckett, meio Harold Pinter…

  7. Ontem estive a ver o jogo mas, como apenas quando os locutores elevam a voz é que a minha atenção desperta, vou lendo um livro para, na maior parte do tempo, não ficar a olhar para nada.

    No entanto, depois deste relato tão poético e tão extraordinário, acho que não vou precisar do apoio de um livro, acho que vou ficar a ver os jogadores a voarem como pássaros ou nuvens, vou reparar se os movimentos dos guerreiros são subtis, ferozes, felinos, vou tentar antever quantas vezes as redes se agitam em frémito nervoso ou quantas vezes a baliza feita boca se abre para a bola feita iguaria.

    Este seu relato, acho eu, ficará para a história. Eu, pelo menos, nunca tinha lido nada assim. Fantástico. Quem escreve assim faz com as palavras o mesmo que, em momentos inspirados, Cristiano Ronaldo faz com a bola. Parabéns por este golo cheio de virtuosismo.

    • manuel s. fonseca diz:

      Obrigado pela leitura atenta. Mas como já disse noutro lado, sobre futebol muito e muito bem se tem escrito. O Valdano quando escrevia parecia o Borges: uma categoria.

  8. MJC diz:

    Vitor Santos, Carlos Pinhão, gostava de os ler. E ouvir os relatos do Jorge Perestrelo. Entre muitas outras aquela que o imortalizou, pelo menos para mim: “se tivesse uma namorada oferecia-lhe este golo”

    “E a baliza parecia uma boca a abrir-se a um beijo, à mais fina iguaria, as redes num riso convulso, contente.”
    Descrever a vida assim não é para qualquer um. Até esquecemos todos os jogos obscuros que estão por trás

    Esta é uma daquelas que não vou mais esquecer.

    Obrigada.

  9. manuel s. fonseca diz:

    Conheci e estimei o Jorge. Era de um entusiasmo genuíno e muito inventivo na linguagem. Obrigado pela gentileza.

  10. Maracujá diz:

    Oh caro Manuel, é o Cristiano Ronaldo com as pernas e você com as palavras!
    Que bailinho!
    Gosto de futebol e tenho gostado dos jogos da nossa equipa. Nota-se união e não se pode tirar o mérito ao Paulo Bento, que tem sabido coordenar. Lamento apenas a escassez de remates certeiros. Devem estar a guardar tudo para a final! É que eu também acredito na final!
    E essa, o Manuel vai ter que a relatar a cantar!

    • manuel s. fonseca diz:

      Já somos dois – fora os milhões – a acreditar na final. Vai ser contra a Alemanha. Isso sim, uma espécie de acerto poético. Nessa altura cantamos todos.

  11. JotaSá diz:

    Tinha previsto rever ao serão o golo do Ronaldo, mas depois abri o “escreveretroste” e desisti.
    Va-se lá saber porquê…

    • manuel s. fonseca diz:

      Komé, meu kamba,
      só te digo, se ainda tivesses idade para levantar a perna à altura do joelho, bem podias ser o Bruno Alves. Sempre achei que davas um ganda central. Kandando.

  12. ana silva diz:

    Manuel
    Assim realmente é muito mais fácil gostar de futebol… que belas palavras
    mas sim aquele momento foi mágico, foi de uma beleza indiscrítivel… e que palavras melhores que as do Manuel para o descrever…
    Que interessante é ver um país em desgraça, em luto, triste e a sangrar revitalizar-se com um momento tão singelo…
    Desde os descobrimentos que temos grandes heróis, deles falam a nossa história. Nos últimos tempos temos andado um pouco apagados…. Está nahora de surgirem novos heróis… e se tiver que ser no futebol, então que seja…
    È TEMPO DE MOSTRAR QUE APESAR DE PEQUENOS TEMOS MUITA “GENTE GRANDE”…

    • manuel s. fonseca diz:

      Olá Ana, é bom vê-la por aqui, nesta sala puramente lúdica. A nossa vida colectiva não se vai resolver no futebol, mas há um prazer, sobretudo estético, no jogo que se joga no relvado a que não consigo fugir. Gosto daquilo e ainda gostava mais quando ia ao estádio…

  13. Ana Rita Seabra diz:

    Grande relato Mestre Manel S. Fonseca.
    Sempre que posso vejo os jogos todos, este último de Portugal foi um verdadeiro espectáculo.
    Ver no estádio deve ser a loucura!

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Ana Rita, um pormenor que na verdade é tudo: só há um autêntico estádio, a Catedral…
      Ah, e fica proibidissima dessa coisa do mestre que eu se fosse mestre era só mestre-escola. Isso são lá coisas para o Manoel, o Senhor Oliveira (rsrsrs..)

  14. Maria João Freitas diz:

    Manuel,
    Dizer-lhe que escreve muito, muito bem (quantas vezes não terá já ouvido isto, desde que aprendeu a juntar palavras?) é tão evidente como dizer ao Cristiano Ronaldo que ele joga muito, muito bem futebol.
    Mas por vezes, sobretudo depois de lermos (e relermos) um texto destes, dá gosto repetir a evidência e arriscar o óbvio.

    p.s. – conhece os textos sobre futebol do escritor uruguaio Eduardo Galeano, reunidos no livro “Futebol ao sol e à sombra”?

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Olá Maria João, isso do escrever bem é uma coisa muito relativa. Eu acho é que há textos que se deixam ler bem. Pelo dia em que foram escritos ou lidos, pela oportunidade de um tema.
      Nunca li o Galeano, autor de que ouvi falar mas de que qualquer coisa me afastou, Vou ser se o futebol nos aproxima. Obrigado.

  15. Panurgo diz:

    Não desfazendo no texto, o momento cantou-o melhor e logo ali o próprio Cristiano, para as câmeras da televisão: “Eu sou fodido”.

    (não vos esqueceis, ó cultivadores das letras da bola, do grande, grandíssimo Camilo José Cela)

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Olá Panurgo, olhe que não foi nada disso que ele disse. Leio bem lábios e foi: “Doeu, não doeu?! Fau-l-kner!”
      Ah, o Cela é uma brutalidade de escritor. Imaginei logo que o Panurgo gostasse. Acho que li um texto dele da bola, esse desporto por excelência da democracia televisiva.

  16. Jorge diz:

    Mão amiga comum, fez-me chegar este seu texto.
    Agora, quando alguém me perguntar porque gosto de futebol já tenho resposta… Obg. 

  17. Manuel S. Fonseca diz:

    Jorge, passe cá pelo Escrever de vez em quando. Nem sempre há futebol, mas o pessoal diverte-se na mesma. Obrigado pela simpatia.

  18. Pois é, pois é, é o circo que ainda dão ao povo, que dentro em breve (depois do 2º programa de resgate), nem panis nem circenses.

  19. António Eça de Queiroz diz:

    As redes a rir e nós nem se fala…
    Muito bom, Mestre Manel

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