Diálogos sobre a exactidão

 

 

 

 

 

 

– Ao contrário do que os astrónomos  pensam, Andrómeda já foi tocada pelos negros dedos de Perseus, que já lhe procuram o seio amaldiçoado … Argos os unirá em breve.
– Isso não é linguagem própria de um matemático da tua estatura, Leonid…
– Por acaso em parte até é: os dedos de Perseus pintei-os com a matéria negra de Sagitarius, que atrai Andrómeda… Mas isso já não interessa muito: o facto é que a matemática é um mecanismo que não responde a tudo, sabes disso tão bem como eu mas recusa-lo, acho eu, por medo da mudança…
– Medo? Eu?!… Que disparate… E mudança de quê, afinal?…
– Do conceito de perspectiva, caro Petrus, da mudança dos patamares da percepção daquilo que, sem dúvida por hábito, damos por bom ser a realidade. Para ti a realidade é apenas um algoritmo, quando muito um pântano de algoritmos. E tu, pacientemente, todos os dias, todas as semanas, talvez para sempre, vives de desfazer esse interminável nó de cordas imaginárias. Vejo-te mais cristalizado que a múmia de Lenine…
– Sempre fui teu amigo…, não percebo porque me atacas agora de forma tão desagradável. Acho que endoideces, se queres que te diga…
– Ah! Isso mesmo, endoidecer!… Mas é disso mesmo que te estou a prevenir, Petrus amigo! Não te ataquei nem um pouco, apenas te mostro o que te acontece… Especializaste-te tanto no que fazes que mais nada para ti existe! O que achas tu que é um poema, por exemplo?…
– Um… o quê?…, um poema? Depende do poema…
– Não depende nada! Não depende de nada, a não ser de ter sido um dia escrito por alguém que o quis assim! Ou seja: dependeu enquanto não estava escrito, porque depois ficou livre para sempre.
– Livre?!… Isso não quer dizer nada!
– Exacto! Para ti ser livre não quer dizer nada, é um conceito que metrificas e encaixas na posição que entendes útil, da mesma forma que vês numas rimas tontas a glória que imaginas possível a uma formiga no seu formigueiro! Ouve o que te digo: formigas! É o que temos sido desde o início!…
E no entanto a matemática tem um fim infinitesimal, uma finitude que absorve a subdivisão ad infinitum da mesma forma que nós deitamos fora a parte dos números infinitos que não nos interessa…
A exactidão é uma farsa, Petrus, há um ponto onde ela acaba. Até para a matemática.
– Deliras, certamente.
– E quanta?
– Quanta? Quanta para já é uma observação não inscrita…
– Dizes bem – para já. E quando se tornar inscrita o que farás tu, meu pobre Petrus?
– Se tal acontecer um dia, o partido irá ter uma palavra…
– O partido! Mas o partido nada saberá, um dia que seja, sobre matemática! O próprio partido é a finitude da matemática, da mesma forma que a matemática num momento se torna na finitude do partido!…
Como não vês isso, Petrus?!…

(extracto do documento que descreve, em palavras tão exactas tanto quanto foi possível transcrever, a conversa que levou à detenção do matemático Leonid Kaspevich, a 13 de Junho de 1931, e à sua posterior integração, em 1932, no recém-formado campo de reabilitação siberiano de Vorkuta )

Sobre António Eça de Queiroz

Estou em crer que comecei a pensar tarde, lá para os 14 anos, quando levei um tiro exactamente entre os olhos. Sei que iniciei a minha emancipação total já aos 16, depois de ter sido expulso de um colégio Beneditino sob a acusação – correcta – de ser o instigador dum concurso de traques ocorrido no salão de estudo. E assim cheguei à idade adulta, com uma guerra civil no lombo e a certeza de que para um homem se perder não é absolutamente necessário andar encontrado. Tenho um horror visceral às pessoas ditas importantes e uma pena infinita das que se dizem muito sérias. Reajo mal a conselhos – embora ceda a alguns –, tenho o vício dos profetas e sou grande apreciador de lampreia à bordalesa e de boa ficção científica.
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9 respostas a Diálogos sobre a exactidão

  1. manuel s. fonseca diz:

    Gostei muito de ver a omissa multidão metida na matemática finitude do partido. Mes salutations Monsieur Antoine.

  2. JS diz:

    A haver finitude, o que duvido, no limite tudo (nós incluídos, como é lógico) é um átomo; o que hoje é o limite de uma coisa amanhã é o limite de outra tornando-se esta sequência, tal como num fractal, ilimitada. Querer espartilhar o pensamento e os sentimentos para quem assim pensa e sente, só pode dar em prisão. A submissão será sempre aparente porque os átomos são aprisionáveis ou como diria o Pedro Bidarra, sobre Günther Mole, impossuíveis.

    • António Eça de Queiroz diz:

      A finitude é aqui aplicada apenas a duas mecânicas: a da matemática, que não explica por exemplo o Tempo, e a do partido quando fim em si.
      (quanto aos fractais, lembro que o texto pretende-se datado)
      A submissão num quadro destes só pode ser aparente.
      JS, muito obrigado pelo seu comentário

  3. fernando canhao diz:

    The big come up; Thickfreakness; Rubber factory; Magic Potion; Attack & Release; Brothers; El Camino.

    • António Eça de Queiroz diz:

      Um pouco de tudo, reconheço.
      Obrigado pelo seu comentário

      • fernando canhao diz:

        Não tem de quê. Foram prenda de anos da minha filha. Rubber Factory no rádio do carro e um qualquer Golf, Astra, etc. etc. becomes Hunter Thompson’s Big Red Shark.

  4. Bernardo Vaz Pinto diz:

    ” A exactidão é uma farsa…”, claro que sim porque só é exacto aquilo que pode ser quantificado. E que mundo o nosso António, feito de gráficos e estatísticas, exactas porque pré-delineadas. Que venha a poesia!

    • António Eça de Queiroz diz:

      A exactidão é uma farsa porque pré-delineada, sem dúvida Bernardo:
      A graça é que a poesia também é mentirosa, mas nunca pré-delineada…
      Que venha, pois!

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