Duma banda Espanha morta, doutra Portugal sombrio*

Não, Manuel, não é mais uma distopiazinha à moda do Porto: é só e apenas fado, a voz de parte do nosso mito comum.
Referi-me a uma parte do nosso mito comum como se o fado não o representasse por inteiro, e era mesmo isso que queria dizer. Talvez apenas porque há poetas que escreveram para o fado melhor, mas mesmo muitíssimo melhor, que outros – e com estes sim, o fado transcende-se, é arte.
Quando Amália o canta ninguém mais o fará como ela.
Eis o que dá juntar José Carlos Ary dos Santos e a melhor fada portuguesa do século XX.
Sabe, usando palavras do poeta, «a tristeza com pão».

Alfama

Onde está o mito inscrito?…
Ora bolas, basta procurar um pouco entre as novas fadistas  e ver o que se vai fazendo com o que já uma ou mais vezes foi feito.
Se uma vez ficou bom, muito bom, inimitável como Amália o faria, então exige-se o maior cuidado nas interpretações.
Onde está aqui o mito?
No brio, evidentemente.
Pedro Homem de Mello, que conheci pessoalmente numa festa com folclore a que assisti na sua casa de Cabanas, diz neste poema maravilhoso que aceita «das mãos da noite a memória por castigo». Refere-se naturalmente ao amor.
«Vim morrer a Gondarem, pátria de contrabandistas, a farda dos bandoleiros, não consinto que ma vistas», eis como este poeta absolutamente sincero, que agradeceu publicamente a Amália o facto dela o cantar porque assim o Povo o conheceu, começa e acaba este poema de título geograficamente tão nortenho. E aqui ele fala de outra coisa, de um outro mito.
Mas intérprete não é Amália.
Chama-se Vânia Conde e tem várias qualidades.
Neste interpretação de Gondarem, que inclui a obra Cancionário, do guitarrista Ricardo Parreira, a cantora prova que há gente que faz as coisas que tem de fazer com muito cuidado.
Ainda bem.

Gondarem

(Quase que me esquecia: ambas as músicas são do Alain Oulman)
*[título roubado ao poema de Pedro Homem de Mello]

Sobre António Eça de Queiroz

Estou em crer que comecei a pensar tarde, lá para os 14 anos, quando levei um tiro exactamente entre os olhos. Sei que iniciei a minha emancipação total já aos 16, depois de ter sido expulso de um colégio Beneditino sob a acusação – correcta – de ser o instigador dum concurso de traques ocorrido no salão de estudo. E assim cheguei à idade adulta, com uma guerra civil no lombo e a certeza de que para um homem se perder não é absolutamente necessário andar encontrado. Tenho um horror visceral às pessoas ditas importantes e uma pena infinita das que se dizem muito sérias. Reajo mal a conselhos – embora ceda a alguns –, tenho o vício dos profetas e sou grande apreciador de lampreia à bordalesa e de boa ficção científica.
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6 respostas a Duma banda Espanha morta, doutra Portugal sombrio*

  1. Abençoados dias, que dia sim, dia sim, nos abençoa com um novo fadista, o orgulho povo tem que se orgulhar, mesmo sendo cantora banal, dessa Amália, sempre é melhor que nada ter a Valentim de Carvalho para vender.

  2. António Eça de Queiroz diz:

    Ó taxi, a sua bandeirada é muito cara, não é?

  3. manuel s. fonseca diz:

    Na boca da Amália, viram-se as asas que os versos do PHM já tinham. E acho muito bem, distopia ou não, que no Porto se cante fado. E já se sabe que o fado dá para a piada fácil, salazarenta que labora, todavia, num erro objectivo. É que o velho regime, e Salazar em particular, não iam lá muito à bola com fado, numa comunhão que até acho fácil de compreender com o que vai na cabeça dos críticos progressivos e iluminados. A discussão, a meu ver, é burra: era o mesmo que agora ideologizássemos os blues ou os boleros. Ora vão-se catar.

  4. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Quase toda a grande música é obrigada a rever-se na música popular, muitas vezes apelidada de simples e banal. Popular no sentido que assume a cultura especifica e característica de um grupo de pessoas, de um povo. Não existe música popular Portuguesa sem Fado, e o de qualidade irá sempre renovar-se e inventar-se. Mais, a reinterpretaçao é em si sinal da força do “género”, que permite variações com resultados muito distintos.

    • António Eça de Queiroz diz:

      Sem dúvida que com resultados distintos, Bernardo.
      Porque há também uma nuvem de novos fadistas, e nessa nuvem há de tudo.
      (curiosamente estou agora a ouvir na TSF uma fadista, esta bastante recente, que não me diz nada…)

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