Em Memória da Memória de Fuentes

É um pequeno livro de infinitas belezas escondidas entre as palavras, escritas pela mão deum sedutor nato, escritor maior. Pequenos diamantes de escrita e memória, histórias contadas de forma precisa e curta.

São pequenos textos de memórias que antes de terem sido escritas foram vividas. Memórias de pequenas coisas que se agigantam com o tempo, pequenos encontros, pequenos detalhes. Ou não fossem o autor e os protagonistas figuras ímpares na paisagem literária do século XX.

“Gabo Memórias da Memória “ que Carlos Fuentes escreve em homenagem ao livro “Viver para Contá-la”, (também ele de memórias, mas estas do seu amigo Gabo, Gabriel Garcia Marques);  está repleto de ricos apontamentos, contados com a simplicidade e a mestria de quem escreve como respira: por absoluta necessidade biológica.

É um pequeno livro onde tudo se concentra à volta da palavra, da escrita, de quem escreve, de quem lê. Um pequeno livro de uma enorme homenagem ao universo da escrita e dos seus criadores.

São memórias na primeira mão, histórias simples da vida da escrita, ou da vida escrita, pujantes por aquilo que transmitem, pela eternidade do seu significado e pela forma que retratam os protagonistas desta história que é afinal a saga do sentido das palavras.

Ficamos a saber que Pompidou discutia com Pablo Neruda a poesia de Baudelaire,  a pretexto de ambos estarem a tratar de assuntos de estado. Que Clinton declama, de cor, passagens completas de Faulker, lê D.Quixote e explica porque é que Março Aurélio é o seu escritor favorito.

Tudo transpira a escrita, como na cena, cómica, em que Kundera empurra Fuentes e Garcia Marques para o gelado rio Ultava, em Praga.  E a frase de Marques, roxo de frio ao sair da gélida água: ” Por um instante Carlos, julguei que íamos morrer juntos na terra de Kafka!”.

 É que até a morte seria um poema…

Sentimos falta de Carlos Fuentes, vulto enorme no horizonte da escrita, que morreu no mês passado.  Estes pequenos testemunhos surpreendem, na humildade dos grandes, pela consistência de uma vida onde a escrita tudo representa e tudo transforma.

E ganhamos esperança nas palavras do próprio “É verdade: Não há mortalidade na literatura.”

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
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18 respostas a Em Memória da Memória de Fuentes

  1. Diogo Leote diz:

    Bernardo, agora é que vou deixar de adiar o que passou a ser inadiável: ler Carlos Fuentes. Mérito do teu post.

  2. rita vaz pinto diz:

    É muito muito bom este livro. O teu pequeno texto deixa-me com vontade de o reler.
    É verdade “Não há mortalidade na literatura”.
    Bjs

  3. Maria João Freitas diz:

    Olá, Bernardo. Gostei muito de reencontrar aqui o Carlos Fuentes, muito mais jovem do que quando o conheci, mas provavelmente já imortal por essa altura. Um dos livros que mais vezes visito é o seu “Aquilo em que acredito”, um maravilhoso dicionário da vida – conheces? – sobre o qual conto brevemente escrever um texto triste.

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Maria João nunca li!!!! Por isso vou ficar duplamente ansioso pelo texto!! Estou também à procura dos ensaios sobre o Romance Latino Americano….

  4. manuel s. fonseca diz:

    Péssimo leitor de Fuentes (quando sou preconceituoso sou muito preconceituoso) ,esta apresentação entusiasmada deixou-me desarmado. Vou à procura, já…

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Manuel, tenha a certeza que pelo menos nos livros e ensaios vai de certeza gostar. E quanto a preconceitos o nosso Saramago confessou em texto que ao principio nunca quis conhecer o Fuentes porque este se vestia à aristocrata, com gravata, “blaser” e calças vincadas, o que Saramago achava inconsistente com a “arte”. Mas depois lá ficou convencido …Eu começava por ” A morte de Artemio Cruz”, e “Constância e outras histórias para virgens” (não não estou a gozar é mesmo assim que se chama…)

  5. Maracujá diz:

    Lentamente deixo o meu corpo molhado fraquejar e sinto-me tombar sobre as areias esquentadas da arena que servem de palco a estes espectáculos entusiásticos, deslumbrando cada alma que por aqui passa.
    Trespassa agora meu forte ventrículo esquerdo com seu aguçado gládio…
    Permito que o vermelho quente do sangue me escorra pelo peito e liberto qualquer resistência literárias, absolutamente absurda que persistia acerca desse homem nascido em terras de Nueva España.
    E a culpa é agora toda sua, caro Bernardo. A culpa é inteiramente sua.

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Toda toda não gostaria que fosse! Alguma caberá, de forma justa ao próprio Fuentes! Obrigado pelo seu belíssimo “poema”. Até breve…

  6. Rita V diz:

    Bernardo, que belo falar …

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      É realmente um belo falar, o do Fuentes, uma escrita rica e complexa que passa por simples…até às vezes parece fácil!!!!

  7. Margarida diz:

    Como pode o Manuel não gostar de Carlos Fuentes? Pois se o homem é tudo! Outra coisa, alguém me informa se o 2º volume de “vivir para contarla” já saiu? Se sim, onde encontrar, preferentemente, no original.

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Margarida estou totalmente de acordo consigo: estou a ver o Manuel a deliciar-se com o Fuentes a falar de D. Quixote, de Borges, do grande amigo Cortazar e Gabo…e depois a ficção…
      Respondendo à pergunta acho que não chegou a sair, parece que Gabo já o teria pronto, mas que eu saiba ainda não foi publicado…

      • manuel s. fonseca diz:

        Prontos, prontos, eu acho que há cá por casa qualquer coisita… Vou fazer um esforço latino-democrático . Depois conto…

  8. pedro marta santos diz:

    Lá vou ter que gastar o subsídio social de inserção.

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