Estranhos padrões

Era eu adolescente quando descobri, em Lisboa, uma máquina de transladação espácio-temporal. Uma máquina que fazia desaparecer pessoas num sítio para, num instante, as fazer aparecer noutro a quilómetros de distância.
Entrava-se, lembro-me, por um buraco aberto no chão. Um buraco que engolia os degraus que nos convidavam a descer ao escuro, em direcção à máquina. Mas não era escuro que encontrávamos quando finalmente chegávamos às catacumbas, era luz; luz que se reflectia em paredes vítreas enfeitadas por estranhos padrões regularmente irregulares. Padrões que me intrigavam e perante os quais me detinha, tentando entender-lhes a ordem; padrões que tinham o poder de me hipnotizar e esvaziar a mente e que, entendi mais tarde, tinham por objectivo preparar-nos para a máquina.

A máquina era uma espécie de minhoca gigante que se anunciava silvando metálica e ameaçadoramente vinda dos escuros wormholes (túneis de minhoca!?) que ligavam os vários lugares do universo lisboeta. Quando chegava, a máquina, calava-se e, por magia, abria as portas sem que ninguém lhes tocasse convidando-nos a entrar. Tudo feito num silêncio sepulcral onde ecoavam só os estranhos padrões.
Dentro da máquina o balançar adormecia-nos e o tempo parava. A viagem fazia-se pelo negro dentro, perdidos em pensamentos interrompidos apenas pelos silvos metálicos da máquina. Nada mais se passava, nada mais havia para ver, nada mais havia a fazer até a máquina parar de novo. Então as portas abriam-se, outra vez sozinhas, e a máquina vomitava os corpos que havia transladado de outros lugares, engolindo de seguida outros tantos que se preparavam para viajar no espaço e no tempo.

A chegada processava-se no sentido inverso da partida. Percorriam-se de novo  catacumbas imensas, decoradas com ainda outros e mais estranhos padrões, e, finalmente, emergia-se dum outro buraco. No meu caso a transladação efectuava-se normalmente de um buraco que havia em Alvalade a um outro que se situava ora nos Restauradores, ora no Rossio.
Era uma máquina mágica, um dispositivo de liberdade e mobilidade com a ajuda do qual conheci a cidade.
Mas o mais intrigante eram os padrões estranhos. Os estranhos grafismos pontuados de irregularidades que eu tentava decifrar sem sucesso e cujo significado nunca entendi, mas que tinham o estranho poder de esvaziar-me a mente e preparar-me para a máquina.
Obra de outros seres. De seres seguramente mais avançados que nós, tristes mortais.

Dedicado à memória da Maria Keil (1914-2012) que fez do metropolitano de Lisboa, sítio de muitas viagens, um dos mais bonitos do mundo.

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu):
“Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”

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5 respostas a Estranhos padrões

  1. manuel s. fonseca diz:

    Sabia lá eu que andar de metro podia ser uma aventura. Se soubesses tinha vindo mais cedo. Os meus azulejos eram os do Liceu, lindos, lá em Luanda.

    • Pedro Bidarra diz:

      Pois eu, enquanto crescia e me habituava a vê-los, fui-os achando banais. A familiaridade faz isso, torna o excepcional banal. A partir daí, e quando se convive todos os dias com coisas bonitas, o nosso critério estético eleva-se, . É esse o papel da arte pública e foi esse o contributo da Maria Keil que morreu no passado 10 de Junho.

  2. Rita V diz:

    gostei muito da homenagem

    • Pedro Bidarra diz:

      Conheci-a há umas semanas, numa cerimónia em que foi homenageada. E onde vibrantemente aplaudiu uma obra nova, também azulejo, de duas arquitectas novas: o interface da estação sul e sueste.
      Devemos tanto a quem torna a nossa paisagem melhor.

  3. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Bela homenagem, muito da marca civilizacional é espelhada nas suas paredes…

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