Homem-Ratazana

 

"Cosmopolis", de David Cronenberg

“Cosmopolis” é a suprema droga hipnótica contra o capitalismo. Desde Setembro de 2001, quando se reiniciou a crise da civilização ocidental, e do Verão de 2008, quando a bomba-relógio da crise financeira global foi activada, que nenhum filme conseguira captar o maelstrom contemporâneo, esse remoinho que afoga a classe média planetária. “A Última Hora” (2002) de Spike Lee insinuara o mal-estar, e a imensa melancolia. “Margin Call – O Dia Antes do Fim” (2011) permitiu espreitar para dentro da barriga da besta – o mundo da alta-finança – e o que se via estava infestado de larvas. Agora, através de “Cosmopolis”, um dos maiores artistas contemporâneos constrói uma metódica alegoria, de uma simplicidade assassina, sobre a falência moral e económica do modelo baseado na livre circulação de capitais. Essa falência é a nossa falência. Esse mundo é o nosso mundo.

Eric Packer (Robert Pattinson), sólido filho da mãe, é um bilionário de 28 anos que fez fortuna com a especulação financeira. Para ele, exceptuando as projecções matemáticas do capital, puras como torres de cocaína, tudo são bens transacionáveis: o sexo, os aviões de guerra, as intangíveis telas de Mark Rothko, os elevadores ( tem dois, um para quando se sente letárgico e um para quando se sente energético) e o amor – está casado com uma Lolita literária, de fortuna colossal, que trata como pura abstracção. Cronenberg ensaia aqui o seu “Ulisses” – o filme é a adaptação da novela homónima de 2003 de Don DeLillo – através da odisseia de Packer, que atravessa Manhattan de limusina para ir cortar o cabelo enquanto ratazanas gigantes, funerais e manifestações antiglobalização desfilam lá fora. Os diálogos são afiados como navalhas e, se não gosta de olhar para as palavras, de as engolir como frutos acabados de colher, é melhor procurar outra sala de cinema – quando um médico faz um toque rectal a Packer, uma assessora aperta uma garrafa contra a púbis, dizendo-lhe “Devíamos passar mais tempo assim juntos”. Há uma quarentona (Juliette Binoche) que se enrosca no sexo do bilionário, e que parece a última réstia de normalidade deste bicho-homem tecnológico. Como em todos os filmes de Cronenberg, existe a consciência permanente de que a morte é o elemento central da condição humana.

O que impressiona em Packer (e foi preciso um grande realizador para perceber que Pattinson, afinal, não é parvo nenhum) é o distanciamento quase niilista. Não existe nele desprezo pelas “classes desfavorecidas”, nem compaixão. Packer observa a realidade da janela como se olha para uma savana vagamente exótica num safari. Ele está para além da sociopatia – não há aqui olhares morais. Chama-se lucidez, uma lucidez implacável, brilhante como lâminas mortíferas. É a lucidez de Cronenberg. Felizmente, está de volta.

Publicado na revista “Sábado”

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
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4 respostas a Homem-Ratazana

  1. Rita V diz:

    ‘Felizmente, está de volta…’ consigo!

  2. Pedro Norton diz:

    Conheço bem alguma dessa falência moral e melhor ainda duas ou três ratazanas gigantes. Mas fiquei curioso com o teu texto – que tem pouco de distanciamento niilista, e ainda bem – e como d’habitude vou me por à estrada.

  3. manuel s. fonseca diz:

    Um belo texto – gramei de o ler nas vontades e veemência que lhe pressinto – sobre um bom pequeno filme de Cronenberg, baseado num livro que não li de Don DeLillo, autor de que talvez ainda consiga ser leitor. Não consigo (problema meu) reconhecer no filme a ferina lucidez sobre a penumbra desta nossa civilização. Mas gosto, no filme, da inverosimilhança, das pretensas explicações, sobretudo da limusina que pára em todos os apeadeiros.

  4. pedro marta santos diz:

    Certo, amigos, é o gosto de o filme existir para podermos discordar dele.

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