Ian Curtis

Como alguns já perceberam, estou em plena regressão ao tempo de Ian Curtis e dos Joy Division. Talvez até nunca tenha de lá saído. Ou talvez não se trate de regressão nenhuma, pois há quem diga – e eu sou um deles – que Ian Curtis continua por aí, bem presente nalguns dos caminhos que a música vem trilhando desde a sua morte. Mas, se me permitem, e já que estamos em maré de regressões, que venha mais uma, esta bem a propósito, a um texto que escrevi numa outra encarnação blogueira, sobre – quem havia de ser – o próprio do Ian, quando se aproximava o trigésimo aniversário da sua morte. 

 

Conheci-o quando ele já era eterno. Foram descobertas a mais de uma só vez para quem nada conhecia do mundo ainda. A começar pelos primeiros três minutos da minha vida em que, vá-se lá saber porquê, o puro prazer esteve associado à melancolia e sofrimento de uma voz. Como uma faca espetada violentamente no coração que provocasse uma dor reconfortante e libertadora. E logo a seguir, António Sérgio a anunciar que eu nunca iria ouvir aquela voz num palco. Depois foi o culto feito à custa de muita imaginação, porque imagens não me chegaram durante muito tempo e eu nunca poderia acreditar que o mito tinha ganho forma sob uma aparência tão frágil e indefesa. Mais tarde vim a saber – ou pelo menos gosto de imaginar assim o mito – que foi isso que fez o corpo sucumbir. Ian Curtis, o símbolo de toda uma geração, o guia inspirador de uma revolução musical cuja influência perdurou até aos nossos dias, foi um fardo pesado demais para aquele rapazinho dos subúrbios de Manchester, educado para ter uma vida remediada igual a tantas outras, e sem estofo para outras ambições para além de uma carreira no funcionalismo público lá da terra. Ele, que tanto se esforçou para não se desviar de uma banal existência, que antes dos vinte anos de idade já era marido de uma simplória como ele, e pouco depois pai de uma criança, não aguentou os mais altos desígnios messiânicos que, sem o seu aval, lhe reservaram. E como foram violentas as partidas que lhe pregou esse destino não desejado. Violentas ao ponto de o arrastarem para um palco onde o seu corpo emprestado era sacrificado a uma alma conturbada, ao ritmo de uma voz dilacerada pela angústia, num ritual de celebração que, sucessivamente, o fazia evoluir do lamento contido para o grito de raiva pela sua condição, e deste para a explosão final da dança mais bizarra que alguma vez se viu. Aquela dança epiléptica que já prenunciava a terrível doença que aí vinha, e que – só pode ser obra da transcendência – se tornou na expressão perfeita para um corpo que acabara de ser libertado das suas amarras terrenas para encontrar, finalmente, a sua essência universal e intemporal.

Como predestinado que era, Curtis teve ao seu serviço todos os ingredientes necessários à obtenção da imortalidade. Desde logo, uma banda feita à sua medida, com músicos cuja excelência nunca foi obstáculo ao seu protagonismo, o qual se ia revelando cada vez mais nas letras torturadas e no som negro e claustrofóbico que lhes impunha. Foi tanto o peso da sua angústia nos Joy Division que, uma vez enterrado, os seus companheiros de estúdio e de palco, esclarecedoramente rebaptizados como New Order, partiram para aventuras dançantes mais festivas. Depois, teve a graça divina de contar com Tony Wilson e Martin Hannett. Wilson, o criador da Factory e grande responsável pelo fenómeno Madchester dos anos 80, que o descobriu e logo percebeu que Curtis iria ficar na História e o iria arrastar a ele também para a fama eterna. Hannett, o produtor genial que transformou uma banda de garagem com reminiscências punk num manifesto musical que foi lema e padrão para muito do que de mais interessante se produziu na década, dentro e fora da Factory. E, finalmente, a morte prematura, aos 23 anos, quando o culto começava a alastrar, nas vésperas daquela que teria sido a primeira digressão em terras americanas. Até a morte, com uma corda à volta do pescoço na cozinha de sua casa, foi planeada de modo a escancarar as portas da eternidade: uma nota em que dizia “I just can´t cope anymore” (“não aguento mais”) e os igualmente torturados Iggy Pop (no gira-discos) e Stroszek de Werner Herzog (no vídeo) a fazerem-lhe companhia. Para trás ficavam dois álbuns apenas, Unknown Pleasures e Closer, mas pelo menos duas dezenas de grandes hinos pop como Transmission, She´s Lost Control, Love Will Tear Us Apart, Isolation, Heart and Soul, Passover, Twenty Four Hours e Atmosphere (alguns constantes apenas de compilações póstumas). Com a sua morte, estava resolvido o dilema que o dividiu até ao desespero, entre uma vidinha dedicada à família e confinada à vilória de Macclesfield, por um lado, e a transcendência de uma existência superior, sem fronteiras de espaço e tempo, ao serviço da música e da poesia e sobretudo de milhões de almas que o continuaram ou passaram a ouvir para sempre, por outro lado. Eu, que orgulhosamente me conto entre esses milhões de almas, nem me importo que, um tanto ou quanto romanceadamente, vejam na relação adúltera com a jornalista/groupie belga Annick Honoré a expressão do dilema de Curtis, tal como a mulher Deborah e o fotógrafo/cineasta Anton Corbijn o apregoaram (este, em Control, um filme admirável malgré tout). Mas prefiro ver no triângulo amoroso apenas um dos sintomas (ou símbolos) da angústia existencial de Curtis.

Decorridos trinta anos sobre a sua morte, agradeço, tal como esses milhões, o sacrifício que através dela se consumou. Sem ela, talvez a história tivesse sido outra. Talvez não sentisse a premência de continuar a ouvi-lo em grande parte das minhas selecções musicais desde então, de continuar a preferir a claustrofobia de um som denso e abafado ao fogo-de-artifício de um refrão fácil e escorreito. Talvez não gostasse tanto do trip-hop de Bristol da década de 90 ou dos Radiohead de Thom York do século XXI. E, claro, a declaração “love will tear us apart” não me soaria tão dramática, ambígua e atraente.

 

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
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10 respostas a Ian Curtis

  1. Nina diz:

    Já sentia saudades dos olhos fulgurantes do Ian

    • Diogo Leote diz:

      Nina: eu também tenho desses ataques de saudades da música do Ian Curtis. Os olhos dele dizem o essencial: que a música lhe vinha das profundezas da alma. O corpo foi-se mas a alma continua a vaguear por aí.

  2. manuel s. fonseca diz:

    Uma regressão que merece aplausos. Belça apresentação.

    • Diogo Leote diz:

      Ainda bem que regrediste com prazer, Manuel. Vê se voltas ao presente a tempo do jogo de quinta-feira!

  3. Maracujá diz:

    Foi um prazer Diogo, rever este trecho da biografia de Ian através das suas, sempre, tão nobres e sublimes palavras. Obrigado por as partilhar connosco.
    Deixo-lhe aqui, a título de curiosidade, mais uma banda, que segundo pude saber, se inspirou em Curtis.

    http://youtu.be/_wFbKUCoN1w

    • Diogo Leote diz:

      Obrigado pelas suas simpáticas palavras, Maracujá. Nunca tinha ouvido falar destes Human Tetris. Fui pesquisar e descobri que vêm de Moscovo. Provavelmente, não terão idade para terem ouvido os Joy Division nos anos 80. E, mesmo que a tivessem, o som dos Division não chegaria certamente a Moscovo nesses tempos. O som tem algumas semelhanças com os Echo and the Bunnymen, que são herdeiros directos dos Joy Division. Parecem-me mais interessantes do que certas bandas da actualidade que se reclamam discípulos dos Joy Division, como os chatíssimos Editors.

  4. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Uma homenagem merecida, claro que o fenómeno não precisa de mãos a empurrar, tendo ganho dimensão com a prematura despedida da vida. Terá o seu lugar na história…

    • Diogo Leote diz:

      Já tem o seu lugar na história, Bernardo. Mas é uma história que continua bem viva, porque a música do presente continua a dever-lhe muito,

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