Karma

“Karma é o que vem do futuro a toda a velocidade contra os nossos sonhos.” disse-me Miha Pogacnik, o violinista sérvio, durante um encontro em Istambul, cidade onde o tempo se mede em milénios e não décadas ou séculos; o que relativiza tudo.

Entretanto, em Portugal, desenrolava-se a crise da dívida, as reuniões com o troika e as eleições. “A Europa dirige-se a toda a velocidade contra os nossos sonhos, ou melhor, a Europa dirige-se a toda a velocidade contra o sonho da União Europeia.” pensei.

Quando o Mal, sobre a forma de Alemanha, tentou unir a Europa no século passado, esbarrou na determinação anglo-saxónica. Depois foi a vez do Bem tentar fazer o que o Mal não conseguiu, unir a Europa em democracia para podermos viver em paz, circular e prosperar. Mas a Europa recusa-se. A diversidade é o karma da União e dos seus valores: não há unidade, unanimidade nem tão pouco moeda única. Curiosamente o primeiro sinal foi também anglo-saxónico, quando recusaram o Euro.

Já no passado, quando a reverência ao papa nos unia, a Europa recusou-a e produziu a reforma como desculpa. Ainda hoje a União esbarra neste cisma. Os do velho cristianismo, nunca incorporaram as virtudes calvinistas e luteranas da responsabilidade e do trabalho do mesmo modo que a Europa protestante nunca incorporou as virtudes católicas do pecado e absolvição. Nunca nos entenderemos. Somos gente diferente, que num momento pareceu reconciliar-se e complementar-se na ideia da União, mas que na primeira oportunidade logo diverge afirmando as suas fortes identidades com preconceitos e irreconciliáveis imagens uns dos outros.

É a realidade a triunfar, como sempre, sobre a ideia. Mas o pior de tudo é que, quando a União se desagregar, com ela irá outra boa ideia europeia. O sonho da democracia esbarrará, como tantas vezes esbarrou, com o seu karma: a natureza humana.

Visto de Istambul tudo me parece claro. De volta a Lisboa fico, mesmo assim, contente de ter vivido parte da minha vida numa ideia.

(Escrito há um ano, depois de uma visita a Istambul e publicado no Expresso. E nada há acrescentar, infelizmente)

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu): “Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”
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10 respostas a Karma

  1. Benvinda Neves diz:

    Quando se trata de “Karma”, sempre o atribui ao passado, agora vejo que também pode vir do futuro, como poderemos então fugir-lhe ou enganá-lo?
    Istambul que distribui questionários aos estrangeiros convidando-os a elogiar o país que tanto queria pertencer a esta Europa “unida”, deve sentir-se agora grata pela sua maioria muçulmana.
    Quanto tempo demora um sonho a desvanecer?
    É talvez tempo de novo sonho, dos bons, porque a gente gosta de viver a sonhar.

    • Pedro Bidarra diz:

      Karma vem mesmo do futuro. Se calhar foi criado lá atrás, no passado, mas deu a volta ao contrário e aparece de frente vindo do que aí vem,
      ps: um sonho desvanece-se com o acordar, basta abrir os olhos

  2. Ana Rita Seabra diz:

    De boas intenções está o mundo cheio, não é?
    Não conheço Istambul, mas fiquei com uma curiosidade ainda maior principalmente quando li Istambul – Memórias de uma cidade, do Pamuk. Há descrições no livro que lembra Lisboa.

  3. manuel s. fonseca diz:

    Todinha a razão, Pedro: com o futuro não se brinca, vem a uma descomandada velocidade…

  4. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Pois, é difícil preparar para o embate…resta sonhar que o embate seja longe, ou em sonhos….

  5. Panurgo diz:

    A história está mal contada. Nunca houve aqui Bem nenhum. Nem o Calvinismo tem virtude alguma, fosga-se. De qualquer das maneiras, não percebo o medo de que a União se dissolva. Isso não vai acontecer tão depressa. É uma ideia completamente absurda, que nem Napoleão se lembrou dum disparate assim, mas, olhando para as coisas, está tudo bem.

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