O coelho de Brigitte Bardot

O pé descalço emociona sempre. Nada é mais pobre do que o sumário pé descalço. Minto. O pé descalço, na sua prístina nudez, também nos atira aos olhos com a sumptuária excentricidade do milionário, o exotismo de uma Cleópatra.

Na praia deserta, fascina-nos o mistério das marcas que outros pés deixaram na mesma areia que envergonhadamente pisamos. Esses vestigia pedis abrem-se à nossa inquieta imaginação: evitamos apagar os traços que tanto podem insinuar a mais extrema liberdade como a caminhada de um suicida.

O pé descalço emociona. Os pés descalços de Brigitte Bardot exigem uma emoção ajoelhada. Ajoelho-me eu e ajoelha-se Wim Wenders. Numa entrevista que lhe fiz no século passado, disse-me ter vivido a adolescência convencido de que a Bardot, de só a ter visto em filmes dobrados, falava alemão. Bardot caminhava, dançava de pés descalços, e falava com a mesma língua abstracta, duramente metafísica que Hegel entregou a Merkel.

Deixem-me dizer o que quero: falasse francês, alemão ou espanhol, o pluralíssimo europeu tinha então a mesma devoção: os pés descalços de Brigitte Bardot. Arrisco: os pés da Bardot eram mais europeus do que a cabeça de Jean Monnet. Os pés nus da BB corriam por Saint Tropez e inventavam a Europa, davam-lhe asas irreverentes, pedalavam uma veloz bicicleta. Com um erotismo europeu (havia, garanto, um erotismo europeu!) dançavam um mambo em cima da mesa de um caveau. Os pés nus de Bardot eram bem-vindos mesmo na livraria onde trabalha. E noiva, Bardot foi a noiva descalça.

Lembram bem, ainda não disse que filme era. Era “Et Dieu Créa la Femme”, história da órfã de 18 anos que a ingrata associação de menoridade e mau comportamento, ameaça fazer voltar à clausura correcional. No começo do filme, apresentava-a o preguiçoso movimento de uns pés descalços. Adivinhamos que o corpo daqueles pés está atrás do lençol estendido a secar ao sol. Roger Vadim, o realizador, revela, depois, num contracampo brutal, tal e qual Deus a criara, a suave linha senoidal do corpo de Bardot que o espectador tem logo vontade de transformar numa linha dentada.

Bardot comporta-se mal porque recusa o futuro. Ouço em francês o que Wenders a ouviu dizer em alemão: “Oh, l’ avenir c’est ce qu’on a inventé de mieux pour cacher le présent.” A hedónica Bardot vive com um gato, um periquito e um coelho. O coelho tem nome: chama-se Sócrates. Não invento: é coelho e é Sócrates. Quando, com promessa de casamento, troca o presente pelo futuro, BB liberta os animais no campo. Descobre depressa ter ido ao engano. Ainda tenta recuperar os bichos. Grita pelo coelho chamado Sócrates. Em vão. Já corre, dois em um, do presente de Bardot para um país sem futuro.


publicado ontem dia 2 de Junho no “Expresso”. Sábado que vem, é a murro…

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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22 respostas a O coelho de Brigitte Bardot

  1. Carla L. diz:

    Tenho cá prá mim que o pé também não é muito sem o tornozelo e a curva da panturrilha.
    Definitivamente é o conjunto.Não tenho esse olhar masculino sobre os pés, mas gosto de ver como as pernas se encaixam nos pés, ou vice versa.E as mulheres tem mesmo os ‘modelos”mais graciosos e curvilíneos.

    • manuel s. fonseca diz:

      E quem desdenharia a barriga da perna, essa panturrilha, de BB? Bem lembrado, Carla.

  2. Rita V diz:

    quer-me parecer que está a faltar aqui algum equilíbrio entre pés descalços e camisas de alças. deixo-lhe um coelho fora da cartola, em tronco nu pintado … mas caladinho!
    http://janelaurbana.com/2012-01-04-david-beckham-lanca-bodywear-for-hm-os-novos-classicos-em-roupa-interior-para-homem.html

  3. Panurgo diz:

    É uma pena ela ainda viver.

  4. Pedro Norton diz:

    Ó Manuel. Isto é um blog frequentado por senhoras. Foot Fetish? Qualquer dia aparece aí de chicote.

  5. Pedro Bidarra diz:

    Que bela lembrança, os pés da BB. Agora que começou a época balnear.

  6. Diogo Leote diz:

    Eu até comprava o filme para ver o vestidinho a cair-lhe até aos pés. Mas o que exemplarmente sugeres através da palavra, das imagens e do video chega-me por enquanto. E há pés que valem pelo corpo todo.

  7. Bernardo Vaz Pinto diz:

    É sempre bom saber que há um corpo agarrado aos pés…especialmente se esse é o da BB…

    • manuel s. fonseca diz:

      Bernardo, perigoso camarada, não te pode a senhora dar a mão que não queiras logo agarrar-lhe o braço…

  8. Poderá ser tudo uma ilusão ótica, no fundo isto é cinema:

  9. pedro marta santos diz:

    Bardot é o rabo de todos os rabos. Até Godard, pressionado pelo produtor, se decidiu a filmá-lo. Já não há rabos assim. Os ginásios tornaram-nos demasiado atléticos.

    • manuel s. fonseca diz:

      Sopesando-o filosoficamente, o rabo de todos rabos é uma Ideia platónica. Pode ser chato para a mão que sopesa, mas é a triste conclusão filosófica.

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