O Fim da Europa é um Sonho

                                                                 Cena do filme Nostalguia, de A. Tarkovsky: a casa na catedral.

A estrada de areia amarela escura circundava pequenos morros de pedras esverdeadas, onde uma urze indistinta tinha crescido por entre ranhuras minúsculas. Vislumbrava-se ao longe um conjunto de montanhas azuladas, secas, batidas no sol do fim de tarde, sob pequenos grupos de nuvens translúcidas.

Algo familiar sobressaía na paisagem sem saber exactamente o que era. Lembrava o inicio dos tempos agora que tudo tinha acabado e recomeçara a construção da vida.

Grupos amorfos de gente, disforme e abatida, preenchiam a paisagem desolada, infinita aos olhos desfocados pela poeira, encardidos e secos. Nas mãos alongadas, marcadas pelo azul transparente das veias saídas, as unhas apareciam cheias de uma terra castanha, manchas negras de dores antigas, que não recordava de forma clara.  Olhou os pés, nus, esqueléticos, cobertos de húmus, cicatrizados em linhas contínuas que atravessavam a superfície da pele. Coberto de uma amálgama de panos, cerzidos ao acaso, protegia-se um pouco do sol duro e agora do frio que começava a cobrir o ar, numa nuvem invisível mas real, pela rapidez com que atacava os ossos, moles e gastos. A boca era uma massa disforme, em ferida, numa face marcada pelos buracos de dois olhos, escuros, e uma linha de nariz.

Entendeu que todos caminhavam na mesma direcção, sem que ninguém tivesse combinado, sem que tivesse havido qualquer tipo de conversa ou discussão. Agora o vale que se abre, e sim reconhece claramente a forma do rio, de uma cor encarniçada e coberto de detritos vários.

Quer falar com alguém, as palavras reféns de uma gaguez tirana, enquanto que um vento ralo atravessa a planície.  Nuvens de pó que se erguem em remoinhos de luz. Alguém que toca, alguém que nos toca e empurra, até percebermos que estamos já no meio de uma corrente humana que nos distorce e manipula.

Descobre agora ruínas de edificações que terão existido, e percebe: Aqui era a cidade, voltada para o rio.

O que mais o surpreendia era a total falta de memória! O que tinha acontecido, como era possível não se lembrar…? Sabia que a humanidade  não pode sobreviver ao esquecimento. Teria o Homem deixado de pensar? Teria o Homem esquecido as lições do passado? Iria  agora aprender com esta destruição maciça?  Fez a pergunta a si próprio, enquanto que sentava, extenuado, no chão poeirento.

Ainda são precisos exemplos, pensou, porque o homem esquece a sua dimensão histórica.

O som da televisão acorda-o, um programa qualquer numa língua que não entende…O entrevistado, face sorridente, sobre um fundo de céu azul, palmeiras, e uma água transparente. Volta a cara e esfrega os olhos cansados…

Que sonho estranho, pesadelo até, suspira!  Adormece outra vez.

 

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
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4 respostas a O Fim da Europa é um Sonho

  1. Ruy Vasconcelos diz:

    um espetáculo, bernardo, essa direção de arte simples e efetiva: pôr a casa dentro da catedral, só mesmo tarkovski.
    aliás, uma sensação estranhíssima se tem ao entrar na catedral de são miguel, em coventry. as bombas da luftwaffe demoliram o teto, mas as paredes e a espiral resistiram. e é como que um gótico a céu aberto. nos anos 1960, contíguo, ergueram uma catedral moderna. mas a antiga, em ruínas, logo ao lado, é o que impressiona.

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Caro Ruy acho que é um sinal de esperança, dentro da carcaça da destruição ainda existe a força do re-nascer…por isso a sensação estranha de entrarmos nas “ruinas” dos edifícios, principalmente as catedrais , que ambicionavam chegar ao divino céu…Para os Portugueses, e Lisboetas temos o Carmo, que se mantém (ainda bem) ruina imponente na colina!

  2. manuel s. fonseca diz:

    Temo, Bernardo, que a humanidade sobreviva a tudo. Mesmo ao desaparecimento da memória…

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Acredito que sim , que ainda não é desta que a Humanidade se esvai em poeira, mas esquecendo vai ficando mais pobre, insignificante…Agora o peso da memória também pode ser insustentável!

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