O padre, o filho e o espírito revoltado

— Sr. Juiz eu nasci comunista, o meu pai era comunista e eu fui educado comunista. Cresci a acreditar que lutando se consegue mudar o nosso destino colectivo e que se deve lutar pelo que é nosso.
Não que eu ache que uma mulher seja posse de quem quer que seja. Não é disso que se trata, da posse de uma mulher, mas já lá chego.
Eu fui educado na igualdade, na partilha, na frugalidade e no neorrealismo… Sim, nada de fantasias literárias, ficções mirabolantes nem arte colorida e divertida. Isso é a arte do capital, cujo objectivo é, portanto, adormecer-nos, anestesiar-nos e alienar-nos das duras realidades do quotidiano. A arte, a literatura e a música são para que pensemos. Têm missão, programa, são contra o sistema, contra Eles, os que mandam, os que têm por objectivo a eternização da desigualdade…
Como os anúncios que dão na rádio e na televisão. Uma barbaridade! Os senhores a quererem que o povo se endivide e deseje o que não precisa. Eu só oiço a Antena 1, Sr. Juiz, e o meu filho (salvo seja) também. Que ele também foi educado comunista – hoje é poeta e jornalista mas comunista, no fundo, apesar de simpatizar com o bloco. É um bom rapaz, também frugal, dado a causas e ONG’s…

— Sr. Silva isso está tudo muito bem mas quer responder à pergunta do Sr. Procurador? É ou não verdade que em 2008 pegou fogo a vários carros em frente a casa do padre Farias? E confirma ou não o que está lavrado nos autos da Guarda, e assinado por si, que no domingo dia 23 de Abril de 2010, agrediu o padre Farias em frente à igreja de Argoncilhe? Sr. Silva não temos o dia todo e, embora este tribunal esteja disposto a ouvi-lo, peço-lhe que a sua resposta seja relacionada com os autos e com as acusações que lhe são dirigidas.

— Já lá chego Sr. Juiz, mas há coisas que têm que ser ditas, de modo a perceber as minhas motivações e a contextualizar as minhas acções. As acções de um homem não podem ser dissociadas das suas circunstâncias, Sr. Juiz.
Eu, por exemplo, respeito toda a gente. Sempre respeitei, sobretudo as mulheres e hoje, claro, também os homossexuais, os bissexuais, os transsexuais, os transgénicos, perdão os transgéneros, e os travestis. Posso dizer-lhe, Sr. Juiz, só para ter uma ideia, que ainda adolescente li o “Combate Sexual da Juventude” do William Reich onde aprendi, não só a desinibir-me sexualmente, como o respeito pelos afectos e pelo corpo alheio. Nem um nem outro são propriedade de ninguém…
Compreenda por isso, Sr. Juiz, como é para mim doloroso, e particularmente incompreensível,  o enxerto de porrada que dei na minha mulher. Não parece coisa minha, Sr. Juiz, eu que sou um bom homem de esquerda e um bom comunista.
Já lhe disse Sr. Juiz que só oiço música portuguesa de intervenção e não faço downloads piratas da internet?

— Sr. Silva, vamos manter a concentração, está bem?

— Eu lutei muito Sr. Juiz, e a minha mulher também, ao meu lado e muitas vezes com o meu filho (salvo seja) ao colo. Os dois sem medo, pelo bem colectivo e convictos da razão que nos assistia. E sofremos por isso: represálias, despedimentos, fome, miséria até…
E enquanto isso, enquanto nós lutávamos por uma vida melhor, pelos nossos direitos e pela igualdade, o que é que fazia o padre Farias?
Filhos Sr. Juiz, aparentemente fazia filhos, Sr. Juiz.
E assim, perante mais esta indignidade e embuído do espírito da revolta, e possuído – diga-se à laia de autocrítica – pelo ciúme, que eu, homem de esquerda e comunista, fui aos cornos ao padre Farias, Sr. Juiz. E à mãe do meu filho… (salvo seja).

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu): “Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”
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14 respostas a O padre, o filho e o espírito revoltado

  1. Pedro Bidarra diz:

    Estava a dever uma ao museu

  2. Carlos diz:

    Quando vejo esta imagem não consigo deixar de pensar no 1900 de Bertolucci

    • Pedro Bidarra diz:

      Eu também e ainda os filmes do Dom Camilo e a grande tradição artística italiana das madonnas com os bambini. E o Correio da Manhã. Não sei por quê. lembra-me histórias da turba a fazer justiça popular…
      Enfim uma imagem muito rica

  3. Rita V diz:

    eh eh eh … e se eu não me apresso, o Museu foge e tenho o Padre à perna
    🙂

  4. Spiritu sancti diz:

    estamos é à espera do teu livro, fili!

  5. Benvinda Neves diz:

    Eça apresentou um, que chocou toda a igreja católica da época, mas quantos “Amaros” terão cometido os seus “crimezinhos” por este mundo fora? Continua a ser um tema bastante atual.
    Comunista ou não… “carro e mulher, não se empresta a ninguém” – é uma frase ainda muito presente na nossa sociedade.

    • Pedro Bidarra diz:

      Na verdade a história é inspirada numa pequena notícia de um septuagenário que, levado de ciúme, chegou a roupa ao pelo do padre, um octogenário, de Argoncilhe. É mais sobre ciúme do que sobre crime ou igreja ou comunismo. Esses são apenas personagens, inspirados pelo quadro.

      • Hotel Timeo diz:

        Choque entre um comboio regional e um Sud-Express em 11 de Setembro de 1985 provocou mais de centena e meia de mortos. Segundo dirigente comunista não identificado, “ estamos perante mais um resultado da politica ruinosa do governo AD”.

        “Este é o nosso 11 de Setembro”, desabafou Carlos Ramos, de 52 anos, sobrevivente do choque entre um comboio regional e um Sud-Express em 11 de Setembro de1985 ocorrido há 26 anos em Alcafache, Mangualde. O maior acidente ferroviário que aconteceu no País provocou um número indeterminado de mortos – presume-se que de 150 a 170.

        Na cerimónia de homenagem às vítimas, sobreviventes, familiares e bombeiros, realizada ontem no memorial, junto à linha férrea, Carlos Ramos, que sofreu queimaduras em 70 por cento do corpo, pediu ao País “para não se esquecer da tragédia”. José Cesário, Secretário de Estado das Comunidades, salientou que “a melhor forma de se homenagear as vítimas é desenvolver mais o País para se travar a vaga de emigração”.

  6. Nuno Pimenta diz:

    Que maravilha. Deste julgamento leria eu todos os autos e transcrições.

  7. Panurgo diz:

    Li por baixo, mas há aí qualquer coisa que falha: quando muito, “fui com os cornos ao padre”. Segundo percebi, o toureiro era o homem de Deus.

    • Pedro Bidarra diz:

      Eu também escrevi por baixo, ó Panurgo. Mas não há volta dar-lhe, foi o que o homem disse, está dito e lavrado nas actas, ou nos autos ou lá onde essas coisas são lavradas.
      Mas pode sempre pensar-se que foi um entrelaçar de cornos num choque de cabrões.

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