O Retorno do Caçador

                                                            O caçador de veados transformado em caçador de homens
 
 
Revejo o filme “O Caçador”, que Michael Cimino realizou em 1978,e  fico a pensar que voltar a casa nem sempre é a saída que se imaginava.
O regresso pode ser  como o dia a seguir à turbulência da noite, onde o amor ainda quente se desvanece na lúgubre luz da manhã que nasce.
E o pior das retornos é a retorno da vida, esgotada num périplo incessante de aventuras vividas, num acordar de temor para com um mundo novo que se abre à nossa frente.
Assusta-me pensar na possibilidade da guerra, eu que nunca a vivi, no horror do homem desumanizado, “the horror,  the horror “, nas palavras roubadas a Conrad, que Brando  sussurra em Apocalipse Now.
Assusta-me pensar no retorno da guerra, da droga da guerra. O voltar atrás ao local de onde saímos outros, outrora, ingénuos,  o voltar a casa transformados, o descobrir o amor esquecido, agora irreconhecível.
 
O filme, como filme de guerra sobre o Vietname,  distancia-se de outros realizados sobre o mesmo tema, pela construção da narrativa, e por esta estar maioritariamente centrada nos efeitos da guerra e não nela própria.
Dividido  em três  partes,  antes da guerra, durante o conflito (o período mais curto do filme), e o período do retorno, o filme é um retrato acutilante dos efeitos da guerra como doença que corrói e destrói  pouco a pouco toda uma vida, imaginada longa. E a destruição inclui a memória da vida vivida antes da guerra.
É  essa a doença que passa a inundar a vida de  Mike, personagem interpretada por Robert de Niro: volta como herói para uma vida que se desmoronou no momento em que deixou de fazer sentido, porque todo o sentido da vida sucumbiu ao nevoeiro negro da guerra que tudo reduz a cinzas.
O passado esfuma-se no ar, o futuro reduz-se ao momento do presente, este vive-se como por obrigação, como necessidade absoluta de não poder parar para pensar. Pensar em quê, se o sentido da vida que se esgueirou pelo vazio do mundo destruído, física e espiritualmente. Até a memória do amor se desvaneceu.  Lembramos Adorno e a terrível frase “não será possível escrever Poesia depois de auschwitz”.
 
O “Caçador de Veados” ( numa tradução literal do título original ” The Deer Hunter” ) transforma-se em caçador de homens e caçador de fantasmas, como o de Nick, interpretado no filme por Christopher Walken, que De Niro ainda tenta, em vão, ressuscitar do mundo dos moribundos. No fim Mike volta para o vazio deixado pela guerra, caçador do sem presa.
Por isso as cenas mais duras e desoladas do filme não são as imagens apocalípticas da guerra e de Saigão, não são as imagens, curtas, duras,  do aprisionamento dos protagonistas na selva Vietnamita, e a controversa cena da “rouleta russa”, que despoletou tanta discórdia.
São as cenas de uma idílica Pensilvânia e do seu banal quotidiano, marcado pelo fumo cinzento das fabricas, e pelos encontros ao fim do dia no bar, onde subrepticiamente a  alma morreu numa guerra a milhares de quilómetros de distância.
Difícil é ver o amor reduzido a uma noite de motel e ao cansaço de toda uma guerra, o herói que adormece sob o ruído dos comboios que passam na janela a olhar a paisagem entristecida.
Triste e difícil é ver a cena da refeição final, uma “última ceia” de fantasmas, marcados por uma existência que sem saberem porquê, os reduziu a uma condição de contínua dor e desenraizamento.
Cimmino nunca mais realizou assim, e afinal a guerra combatia-se na nossa rua.
 
 

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
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10 respostas a O Retorno do Caçador

  1. Panurgo diz:

    O horror tem sempre a melhor música, não é?

    • Rita V diz:

      ………………………………………………………………………………………………………………………….. e a música …

      (thank you)

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Caro Panurgo, a música é muito importante, e mais ainda quando se fala de “horror”…uma espécie de antídoto para a dor…Já em Apocalipse Now era o “The End ” dos Doors…o mesmo horror a música diferente…

  2. manuel s. fonseca diz:

    Se os retratos dos homens são bons, o retrato da mulher sem homem, que é e quer deixar de ser, Meryl Streep, é fantástico. Parecendo muito masculino…

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      E é masculino, ela parece ser o “homem” dos que ficam, enquanto De Niro é o “homem” dos que foram….

  3. Pedro Marta Santos diz:

    Muito bem (d)escrito, Bernardo. Regressei por momentos a esse quarto de motel onde Meryl enterra viva a derradeira ânsia de normalidade.

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Pedro é um dos meus “shots” favoritos, um 360º com espelho à mistura, só depois de ver várias vezes é que entendi o movimento da câmara filmava…

  4. Fausto lopo carvalho diz:

    Caro Bernardo,

    Tenho andado longe dos antigos mortos , infelizmente. Sempre que volto ao blog por cá fico algum tempo sem conseguir sair. Não é a primeira vez que leio sobre O Caçador neste blog (lembro me de um post do Manuel S. Fonseca). Para mim é o melhor filme de sempre, levei algum tempo a elege-lo, vi-o muitas vezes e finalmente decidi-me. Assunto encerrado. Logo a seguir os Padrinhos e depois o Out of Africa e acabou-se a brincadeira.

    Não consigo descrever a cena do choro na cozinha.

    Um abraço (com delay) para si e para todos os novos tristes, antigos mortos.

    Fausto

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Caro Fausto nunca é tarde para aparecer por estes lados!A mim aconteceu-me que vi o filem pela primira vez nos Estados Unidos, ainda com muitas saudades de “casa”, e fiquei totalmente arrebatado pela subtileza da filmagem, que parece não estar lá , mas que tudo transforma…para além das espantosas “performances” de Niro, Walken, Streep, Savaje e Cazale entre outros…
      Um (triste mas não morto ) abraço também para si…

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