Os meus heróis esquecidos

Com o implausível chapéu que acima viram e ainda vos cega os olhos, um sentido de justiça que até a um cristão faz comichão, este foi um dos heróis da minha infância, o que por certo alguma coisa explicará: mais saloio do que isto não se arranja. Ser ele um  red neck de Red Rock, devia ter sido um pleonasmo que arrumasse com qualquer boa vontade, mas queria lá eu saber, naquela altura, naqueles longínquos anos em que a bd era só um “livro aos quadradinhos”.

Depois veio este, herói também,

filho de ingleses, criado de liana em liana pelos meus primos da selva (tive um desses primos, um macaquinho acinzentado e sempre um bocadinho furioso, em casa, no quintal a bem dizer, durante uma semana). Sempre em cruzeiro, o Tarzan, não o macaco (mas por vezes com a macaca), e a linda Jane, formaram o par mais ecológico de sempre.

Talvez este tenha sido o mais sofisticado.

Era dotado de poderes e técnicas hipnóticas nunca revelados ao triste Freud, técnicas que, como golpes de Rainha Santa, transformavam as terríveis armas dos bandidos em inúteis ramos de rosas. Elegante, cartola e luvas (não sei se meia branca quando usá-las era distinto e ainda eu, na simples Luanda da minha infância, não imaginava vir encontrar-me  com pesporrências bairroaltinas), morava em Xanadú  antes de Welles a ter invadido e noivou a princesa      Narda (nome de ressonâncias impróprias), se bem que  presença constante e semi-nua do príncipe Lothar     não augurasse um enlace tradicional óbvio.

Tenho lista de segundas figuras: Major Alvega, Fantasma, Roy Rogers, Zorro, Superman e Flash Gordon. Primeira ou segunda lista, tudo foi, confesso com um bocadinho de vergonha, paixão precoce, mas efémera. Aos 14, talvez 15, deixei de ler, para nunca mais. Insuportavelmente nostálgico como sou, devo ter levado pancada na cabeça na fina zona de armazenamento e deu no que deu: esquecimento afectivo total.

ps – voei, não estou cá. Mas como todo o viajante tem horror ao vazio, até Julho, fiz batota e recuperei textos velhinhos.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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8 respostas a Os meus heróis esquecidos

  1. Rita V diz:

    esquecidos?
    adoro o Mandrake, Major Alvega e o Fantasma…
    eh eh eh o super-homem e o Batman.

  2. Benvinda Neves diz:

    Felizmente que o Manuel faz “batota” e continua a alimentar-nos o prazer de partilharmos as suas divagações. “Velhinhos” ou não são sempre textos muito divertidos e novos para mim – pode até publicar com as teias de aranha que não faz mal.
    A ingratidão afeta a todos e por etapas fui substituindo os meus grandes heróis ao longo da vida.
    Na primária o meu pai seria o grande “guerreiro” de punhos de aço que correria em meu auxílio sempre que algum ser me afrontasse – nunca foi necessário, mas muitas foram as vezes que foi defendido verbalmente pela injúria de alguém poder pensar que tinha um pai mais forte que o meu.
    No ciclo os meus amigos de infância encarnavam o papel que outrora pertencera ao meu pai, somando a cumplicidade de poder vir a acontecer-nos qualquer daquelas aventuras que acontecia com “os cinco” ou “com os sete”. Tal o entusiasmo com que misturava a ficção com a realidade que cheguei a pensar que um dia seria “Gângster”, pois achava muito mais divertida a vida dos “maus” que a dos “bons”- adorava os livros do “homem mais rápido que a própria sombra” – Lucky luke.
    Vamos substituindo os heróis ao longo da vida e dando umas boas gargalhadas quando recordamos heróis do passado, mas eu continuo a fazer uma mistura terrível entre ficção e realidade, a diferença é que já não sonho ser Gângster, mas aprender a lidar com tantos (hahaha…)

  3. Ana Rita Seabra diz:

    Por falar em heróis, veio-me à cabeça esta música

    http://youtu.be/K2dqYhkXHWk

  4. Carlos diz:

    Continuando a falar de heróis, a Ana Rita Seabra, levou a que me lembrasse desta:

  5. ~CC~ diz:

    A voar, a voar…quem sabe para a Polónia em busca de novos heróis…e para mais relatos poéticos! Nunca tive heróis mas tenho pena.
    ~CC~

  6. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Sem Lucky Luke, e o “faroeste” americano, Blake and Mortimer e os ” gentlemen” a viajar por terras longínquas, Alix com as suas aventuras na antiguidade, e tantos outros já falados, teria sido uma infância bem mais triste…

  7. pedro marta santos diz:

    Ó pá, o Mandrake! Adorava as manhas do gajo, sempre janota, bigode errolflynico. E a Narda tinha uma certa categoria.

  8. manuel s. fonseca diz:

    Com atraso, respondo a todos: obrigado aos Mandrakes e às princesas

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