Peter – um bar no meio do mundo

Se vos convidassem a ir ao Faial fazer de principal animador numa conferência em que o tema candente seria a vossa própria pessoa, um vosso bisavô e a presumível relação intelectual entre os dois, vocês aceitavam?…
Bem, eu aceitei – mas hesitei.
Tive um certo receio da presunção subjacente à tal relação intelectual, que será sempre discutível. Na verdade, é bom não esquecer, trata-se duma relação de sentido único, e eu não tenho imaginação que chegue para imaginar o que o meu bisavô pensaria de mim se as cordas do Tempo permitissem que um dia nos encontrássemos os dois.
Sei que gostaria muito, independentemente do resultado.
Adiante.
Correu tudo bem – não houve feridos nem motins.
Fora isso foi uma maravilha, como aconteceu sempre que visitei os Açores – coisa de uma meia dúzia de vezes, quatro delas com S. Miguel por destino.
Curiosamente, a primeira ilha que conheci realmente foi mesmo o Faial. Seguiram-se o Pico, as Flores, o Corvo e a Terceira.
A primeira coisa que me aconteceu nestas incríveis ilhas da Macronésia, depois de abandonada a cintura urbana das suas cidades tão absolutamente portuguesas (onde só o basalto que substitui o granito acrescenta aos edifícios um contraste suplementar), foi  pensar que tinha voltado ao Princípio do Mundo. Nem a falta evidente de pterodáctilos, megalodontes e sáurios avantajados me fez alguma vez mudar de opinião: as caldeiras plácidas, os vulcões adormecidos (não se sabe por quanto tempo), as sulfurosas furnas, a infinitude do mar-oceano, o aspecto absolutamente jurássico das criptomérias e dos fetos-arbóreos, a explosão de cor das hidrângeas e das flores de cana-roca, tudo tem a ver com milhões de anos já passados mas ainda assim ali mesmo, à nossa disposição.
E depois há a vida das pessoas.
Neste aspecto concreto o que mais me espantou, quando há quase trinta anos conheci o Faial, foi o ambiente compulsivamente descomprimido que se vivia nos arredores da Marina da Horta. Ok, era uma rota atlântica por excelência, toda a gente do mar passava por ali – até o Jacques Yves Cousteau por lá andara várias vezes…
Mas porquê naquela ilha em especial? Só compreendi isso desta vez – porque alguém mo explicou, como é óbvio.
Como aperitivo começo por afirmar a pés juntos que se algum veleiro perder mastros, leme e motor auxiliar ao largo das Caraíbas, o mais certo é ao fim dumas quantas semanas vislumbrar ao longe o Pico, acabando talvez por entrar no Canal e bater numa das ilhas do triângulo central.
Corrente do Golfo oblige
O porto da Horta é em si um vector de comunicações no meio do Atlântico desde há muito: foi porto intercontinental por séculos de descobertas e rotas comerciais, foi ponto de abastecimento de carvão dos navios de guerra ingleses, base intermédia dos hidroviões  ‘Dixie Clipper’ da Pan American nos anos 40, que ligavam a Europa do Norte e do Sul a Nova Iorque e ao Rio de Janeiro, bem como principal nó de cruzamento do sistema de cabos telefónicos submarinos que ligaram com cobre as margens do Atlântico até há bem pouco tempo.

Vulcão dos Capelinhos

É claro que o facto do porto da Horta ser um abrigo natural – agora muito mais protegido pelos altos paredões que aconchegam a marina – ajuda muito.
Outra coisa que ajuda muito é o Peter Café Sport.
Nesta nova visita ao Faial cheguei à conclusão que o Peter é provavelmente o café mais cosmopolita do planeta. Não o é no plano dum Flore, que se visitou uma vez na vida num ataquinho de snobismo intelectual, talvez em busca da possível chispa ectoplásmica do olho vesgo de Sartre, ou dos ténues miasmas do certamente modesto perfume da Beauvoir. Nada disso, embora o Peter também tenha os seus mitos autografados, e dos bons – talvez dos melhores. Imagine-se uma noitada de copos com o Brel a improvisar à viola, ou dar de caras com o velho Cousteau, ou com o mestre das regatas oceânicas Éric Tabarly, ou com a tripulação completa de Thor Heyerdahl (expedição Kon-Tiki, por exemplo)? Ou com o príncipe-herdeiro da Bélgica, que discretamente por ali passou há meses?…

O Gunilla...

 

Eu, por exemplo, apanhei gente dum navio-escola sueco, o Gunilla, cuja tripulação era principalmente composta por jovens suecas loiríssimas, branquíssimas, de roupinha leve… E muita outra gente do mar, ruidosa ou pacata, mas sempre com um ar de inquestionável liberdade.
Senti alguma inveja daquela malta toda.
Não gosto só de barcos: adoro o mar!
Claro que à sorrelfa googlei um pouco a ver o que aparecia de interessante que eu não soubesse sobre o local.
Havia muita coisa, como seria de esperar, mas o que me saltou aos olhos foi a Newsweek confirmar a minha suposição: em 1986 considerava o Peter Café Sport  como um dos melhores bares do mundo. Uma noite mais animada apenas comprova a justeza do veredicto (o filme é mauzote mas eloquente).
Tudo isto tem a sua génese num negócio familiar de longa data, o Bazar do Fayal, nos anos 80 do século XIX. Prosseguiu como Café Sport por alturas da Primeira Guerra (mudando-se para a zona do porto), e crismou-se com o nome actual porque um dos oficiais superiores do HMS Lusitania entendeu que o jovem José Azevedo (o grande impulsionador da casa) apresentava muitas semelhanças com o seu filho Peter. A partir de então José Azevedo nunca mais seria conhecido por outro nome, transferindo-o mesmo para o estabelecimento em 1960.
O apoio incondicional a tudo o que era marinhagem oceânica valeu-lhe ser feito sócio-honorário do Ocean Cruising Club. Entre muitas outras coisas, o Peter Café sempre foi local de correio e mensagens trocadas entre gente que sulcava os mares do mundo, o que valeu ao seu mentor o galardão de Correio de Ouro atribuído pelos CTT devido ao importante desempenho como correio internacional. Sampaio atribuiu-lhe a Ordem de Mérito e João Paulo II a Benção Apostólica.
Com a sua morte em 2005 (poucos meses antes recebeu os reis de Espanha no seu bar), o filho José Henrique Azevedo tomaria o negócio em mãos expandindo-o para a figura de uma marca, que inclui roupa, artesanato, catamarãs de observação de cetáceos, e sucursais do bar no Porto, Lisboa e Oeiras.
É muito conhecido pelos seus gin&tonic especialíssimos. Eu, que não bebo bebidas brancas há muitos anos, garanto que o boca-negra grelhado e o folhado de natas são obra desenganada.
Mas o José Henrique Azevedo, que teve a amabilidade de me servir de guia exclusivo no seu maravilhoso Museu do Scrimshaw (o scrimshaw é a arte da gravação em marfim de cachalote e osso de baleia, de que José Azevedo ‘Peter’ foi grande coleccionador e promotor), surpreendeu-me com uma malandrice gastronómica que além de gratificar o portuense convicto que me coabita comprova o hábil homem de negócios que ele é.
Porque descortinei no seu menu uma improvável «açorianinha» – ou seja, visualmente uma francesinha toda boa, só que feita com os melhores produtos locais.
É tarde, que bem marchava uma agora.
Gostava de ver o nascer do dia lá do alto do Pico…

Sobre António Eça de Queiroz

Estou em crer que comecei a pensar tarde, lá para os 14 anos, quando levei um tiro exactamente entre os olhos. Sei que iniciei a minha emancipação total já aos 16, depois de ter sido expulso de um colégio Beneditino sob a acusação – correcta – de ser o instigador dum concurso de traques ocorrido no salão de estudo. E assim cheguei à idade adulta, com uma guerra civil no lombo e a certeza de que para um homem se perder não é absolutamente necessário andar encontrado. Tenho um horror visceral às pessoas ditas importantes e uma pena infinita das que se dizem muito sérias. Reajo mal a conselhos – embora ceda a alguns –, tenho o vício dos profetas e sou grande apreciador de lampreia à bordalesa e de boa ficção científica.
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25 respostas a Peter – um bar no meio do mundo

  1. manuel s. fonseca diz:

    Cheira a mar, António. E a um bar sentado ao pé do mar.

  2. JP diz:

    Gostei. tomo a liberdade de partilhar.

  3. MJC diz:

    Entre a ilha do Pico e a do Faial, “venha o diabo e escolha”. Uma semana inteirinha e sozinhinha no Pico e sai a pensar que gostava de lá permanecer novamente antes de morrer. Do Peter ficou a sensação de concentração dos cheiros de todos os mares do mundo. Das Flores a recordação de uma zanga com a dona da única pensão existente (na altura, não sei como está agora) e acabar o grupo a dormir nos bombeiros. Da Terceira o Rui Reininho (a única vez que nos cruzamos na vida) a pregar-me um susto daqueles de dar um berro em plena praça central, ficarem todos a olhar e ele a rir-se que nem um perdido. Conheço-as todas mas assim “num repente” das outras não lembro nada.

    • António Eça de Queiroz diz:

      Tenho uma opinião um bocado fechada sobre os Açores: as Flores é a mais bonita das ilhas, mas as do triângulo central são espectaculares. Estar na Horta e ver o Pico a subir mesmo em frente é uma coisa única.

      • MJC diz:

        António, despertou-me a vontade e fui ver as minhas fotos, Obrigada. Estava esquecida dos golfinhos que nos acompanharam na viagem de barco entre o Faial e o Pico. A sorte que tive. Concordo em absoluto: estar na Horta e ver o pico a subir é magnífico e, se for em dia de nevoeiro, o que é vulgar, perder a noção do seu fim é estranho … levava-me sempre para aquelas histórias com castelos e fadas, bruxas, princesas e príncipes que vivem em lugares encantados em sítios no fim do fim do mundo 🙂

  4. Rita V diz:

    … desertinha por conhecer os Açores …

  5. Carla L. diz:

    Bom demais
    ler sobre um lugar que só conheço pelas páginas do livro do Nemésio e graças a Joana.É bem possível que o autor tenha visto Margarida Dulmo e João Garcia circulando lá pelas bandas do Peter.

  6. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Que belo texto , molhado do mar e do sal desse oceano de um azul único profundo, que , como bem lembrou, nos transporta ao princípio do mundo…

    • António Eça de Queiroz diz:

      Ainda bem que gostou, Bernardo. Já lá esteve?…
      Há outra coisa que espanta nos Açores: a limpeza genérica de tudo, é difícil ver lixo.

      • Bernardo Vaz Pinto diz:

        Infelizmente só em S. Miguel, que sendo também um espanto não chega para quem gostaria de conhecer todas as ilhas…

        • António Eça de Queiroz diz:

          S. Miguel é magnífica, mas a arte vulcânica consegue fazer coisas bem diferentes com a mesma matéria.
          Essa diversidade é que encanta, porque deixa sempre a sensação que há ainda muito por descobrir – o que nos Açores é uma verdade perene.

  7. Pedro Norton diz:

    Caro António,
    Os Açores (a bem dizer o Pico) são o meu refúgio de verão vai para 15 nos. O seu texto deixou-me azul de saudades. Do gin, do mar onde fiz os melhores mergulhos da vida e sobretudo das travessias do canal, à noite, em noites de lua cheia. Obrigado. Este texto soube-me a férias antecipadas.

    • António Eça de Queiroz diz:

      Pedro, estou convencido que quem conhece os Açores nunca mais desfanatiza…
      Já agora: quando estive no Pico, há muitos anos, havia um restaurante incrível à saída das Lajes do Pico, já na estrada para o monte, do lado direito, com vinhos do melhor que havia na época…
      Sabe se ainda existe?

  8. Pedro Bidarra diz:

    Que bela crónica de viajante; e que vontade dá de emalar a trouxa e zarpar. Grande António

    • António Eça de Queiroz diz:

      Ainda bem que gostou, Pedro.
      Já soube do sucesso imenso do repasto confraternizante da Triste Irmandade.
      Na próxima tenho de arranjar maneira de não faltar…

  9. JP diz:

    Dos Açores é praticamente tudo bonito. Conheço as ilhas todas. De facto, estar no Faial com o Pico em frente e a extremidade de S. Jorge a aparecer ao lado é de cortar a respiração.
    A caldeira do Faial impressiona pelo silêncio e sensação de se estar fora do mundo. Já a caldeira subterrânea da Graciosa faz-nos lembrar o princípio do mundo com os fumos e cheiros de enxofre a sair do interior da Terra por todo o lado: Black e Mortimer andam certamente por ali com os Atlantes.
    As caldeiras de S. Miguel (sete cidades, fogo, congro e as outras todas ) são realmente um paraíso na terra. Impressionam as casas alcantiladas das Flores, que aguentam aqueles ventos terríveis. Por aí fora. O egoísmo até leva a dizer que ainda bem que não há turismo de massas nos Açores, que parecem ser só de cada um de nós.

    • António Eça de Queiroz diz:

      JP, penso o mesmo em relação ao turismo de massas: que nunca chegue!

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