Porque é que os homens andam atrás das mulheres?

A pergunta aqui em cima, se lida à letra, é de resposta elementar. Mas não é assim que quero que a leiam. “Porque é que todos os homens andam atrás de todas as mulheres?”, é esta a única reflexão que importa fazer no que toca à inevitável atracção que o universo feminino exerce sobre o macho. A pergunta, nesta sua mais abrangente versão, nada tem de controversa, mentirosa ou exagerada. É sabido que qualquer homem, em determinado momento da sua vida, teve essa ambição: a de perseguir, conquistar ou possuir todas as mulheres que o universo feminino pode comportar. Ou pelo menos – e não excluo sequer homossexuais ou assexuados – teve vontade de o fazer. Em benefício da harmonia das relações sentimentais e da sã convivência entre humanos, só uma minoria se dedica a essa épica missão uma vida inteira. Em alguns casos, o estado de alma não passa dos primórdios da vida adulta, ou de impulso momentâneo instantaneamente reprimido, noutros vai alimentando um vício que, com ou maior menor esforço, disciplina ou cansaço, lá se vai suavizando com a idade. Mas também há quem cultive a ambição sem nunca dela desistir, como se só assim cumprisse o seu destino.

Bom, mas se assim é, porque é que isso representa uma inevitabilidade da condição masculina? Já lá vão perto de vinte e cinco anos que o li, mas continuo sem encontrar melhor resposta para a magna questão do que aquela que Milan Kundera deu no seu incontornável A Insustentável Leveza do Ser. Segundo Kundera, os homens dividem-se em duas categorias na sua obsessão pelas mulheres. De um lado, estão os chamados “femeeiros líricos”, que buscam em todas as mulheres a ideia que eles próprios “têm da mulher tal como ela lhes aparece em sonhos”. Se cada novo encontro faz nascer uma ilusão na exacta medida da procura do ideal perseguido, é, justamente, a rápida desilusão que os faz andar constantemente a saltar de mulher “perfeita” em mulher “perfeita”. Mas não é aqui que se encontra o verdadeiro predador. O verdadeiro predador, digo eu, está naquele que Kundera chama de “femeeiro épico”. Para todos os que se incluem nesta categoria, não há desilusão possível, porque aquilo que se procura é a infinita diversidade do mundo feminino, a “milionésima parte de diferente” que distingue cada uma das mulheres de todas as demais. O homem, aqui, quer-se apoderar desse traço único, distintivo e exclusivo, em cada mulher, e, enquanto o não fizer – ou seja, enquanto não se apoderar do mundo inteiro – não há travão possível para a sua inquietude. Claro está que só na sexualidade se pode descobrir a “milionésima parte de diferente” de cada mulher. Não porque a “milionésima parte de diferente” não esteja presente em todos os demais aspectos da condição feminina. Está, sim senhor, mas só na sexualidade está por descobrir, se mantém íntima, secreta, clandestina. Tudo o mais que não seja do domínio do sexo, é publicamente acessível, não carece de descoberta, não tem de ser possuído pelo homem. Pelo contrário, não há maior prazer para o homem do que a sensação de se estar a apoderar de uma parcela, ainda que ínfima, do mundo, quando conhece a mulher na sua mais nua intimidade. Como se entregará ela ao desejo, como reagirá ao toque, que caras fará, como é a sua pele, o seu cheiro, a entoação da voz, o que dirá? Como explodirá no pico do prazer? E será ela animalesca, insaciável? Dominadora? Melosa, meiga?

Não parece haver grandes dúvidas de que o texto de Kundera se mantém actual. E que define como poucos a razão da atracção pelo sexo oposto. Por mais pruridos ou voltas que dêem à consciência, raros serão os cavalheiros que nunca experimentaram o desejo de conquista que Kundera exemplarmente descreve, o de, através da tal “milionésima parte de diferente”, irem tomando conta, uns a seguir aos outros, de pequeníssimos fragmentos do mundo. 

Post-scriptum – Depois de relido o texto acima, chego a uma conclusão que, provavelmente, todos os leitores, homens ou mulheres, deram por adquirida antes de mim: a de que os conceitos desenvolvidos por Kundera em 1983 (ano em que escreveu a Insustentável Leveza do Ser) a propósito dos “femeeiros líricos”, “femeeiros épicos” e da “milionésima parte de diferente” são, nos tempos que correm (e talvez já o fossem nesses outros tempos), plenamente aplicáveis, também, ao sexo oposto. Experimentem substituir a pergunta lá de cima por “Porque é que as mulheres andam atrás dos homens?” e verão como tudo, igualmente, faz sentido.

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.

Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

22 respostas a Porque é que os homens andam atrás das mulheres?

  1. Nina diz:

    Convenhamos que, olhando a conclusão final sob qualquer ângulo, não podemos deixar de considerar a situação constatada um fantástico avanço na paridade do género!

    • Diogo Leote diz:

      Cara Nina, o que me parece altamente positivo é que, nos dias que correm, as mulheres possam falar abertamente do assunto, sem pudor algum. Quer-me até parecer que as mulheres, regra geral, são mais transparentes e verdeiras do que os homens a debaterem estas matérias…

  2. T. diz:

    No filme “Do outro Lado da Lua” ( confesso que não sei se é este o nome do filme mas é aproximado) com a Cher e o Nicolas Cage , há uma senhora que faz esta pergunta a um homem e ele respondeu “É dos nervos!”
    Teresa

    • Diogo Leote diz:

      Cara Teresa, o filme é o “Feitiço da Lua” e é delicioso. Confesso-lhe que não me lembro desse diálogo mas, só por isso, será uma bom pretexto para ir rever o filme.

  3. Rita V diz:

    Acho que não está fora do contexto se eu responder:
    – Porque são uns macaquinhos de imitação…

    • Diogo Leote diz:

      Não está nada fora de contexto, Rita, a julgar pelo que vemos lá em cima. Mas, macaquinhos ou não, talvez seja uma forma mais saudável do que outras para tomar conta do mundo…

  4. Pedro Bidarra diz:

    A pergunta que me surge é antes “Porque é que os homens que não andam atrás das mulheres, não andam atrás das mulheres?”

    • Diogo Leote diz:

      Pedro, eu não me atrevo a tentar uma resposta, ainda me acusam outra vez de homofóbico…

  5. luma rosa diz:

    Homens e mulheres são iguais. As convenções sociais colocaram diferenças, pois assim é melhor para explicar a falta de conhecimento/entendimento de si, ou entre seus iguais.

    • Diogo Leote diz:

      Cara luma rosa, se não se importa, deixo-a discutir o assunto com a Nina ali em baixo. Eu já desisti de tentar perceber as mulheres…

  6. Carlos diz:

    A questão do Bidarra suscitou-me outra: qual o motivo porque alguns o afirmam fazendo-o depois, de um modo subrepticio?

    • Diogo Leote diz:

      Caro Carlos, devem ter alguma razão para não querem ser descobertos. Qual será?

  7. Nina diz:

    ,,,são iguais uma ova! Abençoadas diferenças…sem elas tudo seria uma sensaboria. Homens e mulheres não têm de andar em filinha indiana atrás uns dos outros, basta andarem lado a lado e assim o confronto do olhar será mais simples.
    Há que descomplicar.

    • Diogo Leote diz:

      Nina, ainda bem que as mulheres são tão diferentes dos homens. E ainda bem que são diferentes entre si também. Mas deixo-a a discutir com a luma rosa, eu não percebo nada de mulhres…

  8. manuel s. fonseca diz:

    Diogo, posso acrescentar ao teu levantamento de Lineu outra categoria? Aos teus predadores quando jovens, aos teus predadores para toda a vida, juntar-se-iam os late bloomers: aqules que só bois velhos é que lhes dá para pastar capim novo.
    Um famoso cinéfilo cujo impronunciável nome não direi, sendo muito avesso à manhosice metafísica do Kundera, juntou os femeeiros líricos e épicos numa só catgeoria que os nega aos dois e cruamente os afirma: os “fuckers”. Ou um tipo é um “fucker” ou não é um “fucker”, ponto final em finlandês.

  9. Diogo Leote diz:

    Muito bem dito, senhor Manuel Kaurismaki Fonseca. Eu não queria ser tão directo mas tiraste-me a palavra da boca.

  10. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Porquê ? Por imensas razões completamente irracionais…

    • Diogo Leote diz:

      Bernardo, as razões são fáceis de perceber. Nós, homens, pelos vistos somos uns gajos previsíveis. Elas, sim, são indecifráveis. Pelo menos para nós.

  11. pedro marta santos diz:

    Os comportamentos de homens e mulheres são os mesmos, mas os motivos iniciais e os objectivos finais são completamente diferentes. Não me atrevo a explicar, eu que sou um ignorante no assunto.

  12. Diogo Leote diz:

    Pedro, e é ou não uma vantagem isso de tudo ignorarmos sobre as mulheres (somos dois), para nunca perdermos o privilégio de por elas sermos surpreendidos (com boas surpresas) ou para nunca termos a tentação de baixarmos a guarda (para evitar as más surpresas)?

Os comentários estão fechados.