Selvagem mas de categoria

Em 1916, no norte de Moçambique

Ouvi-lhe várias vezes a história, que achava talvez um pouco alindada de memórias de uma época de que, tornou-se óbvio para mim, sentia alguma nostalgia. Tinham sido tempos épicos que se podem resumir em dois cenários físicos: os cafés e esplanadas de Lisboa repletos de gente estranha, de várias nacionalidades, que trocava papelinhos e pequenos embrulhos – com presumíveis mensagens de peso ou bens valiosos de fácil transacção –, e  o fading dos rádios de onda curta onde se apanhavam as vozes fugidias de quem procurava porto de abrigo ou familiares e amigos perdidos na voragem da guerra. Um breve footage neste ambiente não destoaria num qualquer momento de Casablanca.
O pormenor mais afiado que lhe apanhei foi sem dúvida o comentário, feito num meio sorriso conhecedor, que o embaixador do Reich em Lisboa fizera a respeito do seu pai e das suas actividades nos Açores como oficial de ligação da Censura Militar do Estado Português na negociação da Base das Lajes com os Aliados.
Pelo que li do assunto, terá sido algures em 1943, numa altura em que vários admiradores confessos de Hitler começavam já a desertar de tal mania, muito por via dos testemunhos de judeus (e não só) sobre o que de facto se ia passando por trás das linhas alemãs e nos territórios ocupados – sobretudo na Polónia e na Hungria. Entre estes ‘desertores’ do ideal nazi encontravam-se muitas personalidades que, a esta distância, acharíamos porventura fora de contexto – como o seria, por exemplo, um Henrique Galvão.
Outros, porém, ainda não acreditavam – não achavam possível…
Fosse como fosse, o barão Oswald von Hoyningen-Huene achava por bem manter o estilo vencedor que a legação do Reich sempre exibira na capital portuguesa, até porque em 1943  a guerra ainda não estava realmente decidida. A sua embaixada prosseguiria na costumeira série de saraus e jantares elegantes, como sempre o fizera e com algum alarde.
Ela, que ali se encontrava apenas por ser casada com quem era, descreveu-me o encontro com pormenores de certo frisson:
Então soube que o pai de vossa excelência esteve nos Açores recentemente…, terá dito Hoyningen-Huene, ciente de que ela sabia que ele conhecia bem o papel do seu progenitor – um coronel de Cavalaria que lutara contra os alemães na primeira Grande Guerra no norte de Moçambique e no Tanganyka, e que Salazar mandaria prender poucos anos depois (1947-49) na sequência de uma intentona falhada de que foi atrapalhado mentor o general Mendes Cabeçadas.
Entre o Tanganyka e a Base das Lajes houve um longo percurso de governador de Inhambane (Moçambique, onde em 1920 ela nascera) e do Sul de Angola (Moçâmedes).
Curiosamente – porque nunca apreciara o regime –, o ditador português convidou-o em tempo de crise mundial para censor militar do Estado, cargo que aceitou por ser um trabalho de grande exigência que a Nação lhe entregava em mãos.
A Nação – e não Salazar, como fazia sempre questão de frisar.
Vale a pena aumentar a imagem da carta que aqui apresento para se ver o teor dos assuntos que manipulava e de que o embaixador alemão em Portugal tinha evidente conhecimento.
Nunca gostara de Hitler, nem pouco mais ou menos. Mas como militar de carreira não escondia a sua admiração pelos dotes germânicos no que respeitava à sua capacidade de organização e empenho – até porque os conhecia do campo de batalha.
Achava Spínola (de quem fora comandante em Castelo Branco) um excelente militar, mas homem de pouca inteligência. E sobre Humberto Delgado, com quem lidou de perto por ser este o negociador principal das Lajes, considerava-o um ávido de poder sinalizado por vários tiques ditatoriais.
Não tinha papas na língua e escrevia teatro, fundamentalmente teatro – mas não só –, onde obteve alguns sucessos. Sempre com o apoio de Amélia Rey-Colaço e de Robles Monteiro.
Grande amigo de Henrique Galvão, enfureceu-se tanto com a Operação Dulcineia (título de uma das suas peças preferidas) que devolveu à família deste tudo aquilo que a ele estivesse ligado, afirmando que não queria traços do «traidor» na sua casa.
E, no entanto, foi o seu principal defensor militar após o episódio ‘Santa Maria’…
Era o meu Avô Selvagem – o homem melhor e mais direito que conheci na vida.

Deixou saudades em várias paragens.

Sobre António Eça de Queiroz

Estou em crer que comecei a pensar tarde, lá para os 14 anos, quando levei um tiro exactamente entre os olhos. Sei que iniciei a minha emancipação total já aos 16, depois de ter sido expulso de um colégio Beneditino sob a acusação – correcta – de ser o instigador dum concurso de traques ocorrido no salão de estudo.
E assim cheguei à idade adulta, com uma guerra civil no lombo e a certeza de que para um homem se perder não é absolutamente necessário andar encontrado.
Tenho um horror visceral às pessoas ditas importantes e uma pena infinita das que se dizem muito sérias. Reajo mal a conselhos – embora ceda a alguns –, tenho o vício dos profetas e sou grande apreciador de lampreia à bordalesa e de boa ficção científica.

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17 respostas a Selvagem mas de categoria

  1. O “estilo vencedor” é uma marca portuguesa, quer dentro de portas ou no estrangeiro (então na estranja, o luso botão resplandece numa magnífica flor apreciada pelo brilho e perfume que nos orgulhece e perpetua o nosso nome; citando o velho Camilo: “um grande patife, lá fora nunca deixa de ser um grande patriota”.

  2. António Eça de Queiroz diz:

    O «estilo vencedor», caso não tenha reparado, é utilizado aqui para definir a atitude do embaixador alemão em Lisboa, não a de nenhum português – lá fora ou cá dentro, na Lua ou em Vladivostok.

    • Claro que reparei, por isso é que sublinhei – numa sublinhação (devia existir a palavra) violenta, em jus com as abstenções violentas de Seguro – o roubo desse alemão de algo muito nosso. Se roubassem o nosso pastel de nata, a palha de Abrantes ou até a Lili Caneças, por ser algo material, cairia o Carmo, a Trindade e a rua da Betesga, de indignados e justos protestos. Mas como é algo imaterial, como a nossa Saudade ou o advérbio de afirmação Obviamente, já se condescende no roubo. O “estilo vencedor” é algo muito nosso, percorre toda a nossa História, sem ele nem História existiria. O “estilo vencedor” nota-se, por exemplo, nos nossos dias por o país ter um mister. Mister que levará a nossa fama, o nosso estilo vencedor, muito para lá de Vladivostok, para Malaca e além.

  3. Panurgo diz:

    Um belo texto e um homem raro.

    • António Eça de Queiroz diz:

      Panurgo, obrigado pelo seu comentário – ele foi realmente um homem raro.

  4. Zé Vicente diz:

    É daqueles personagens, já passados , que nos apetece dizer – gostaria de o ter conhecido !
    Abraço, irmão

  5. Dobra diz:

    Pessoas assim há muito poucas. Na época era a regra, agora é a excepção. Excelente documento, este.
    A lampreia à bordalesa é que não lhe perdoo :)) deixe a lampreias no rio, amigo!

    • António Eça de Queiroz diz:

      Lampreia à bordalesa, Dobra? Essa fugiu-me…
      Ainda bem que gostou, obrigado pelo comentário.

  6. Pensar que os ‘role model’s’ de hoje são jogadores de futebol e ‘social-aites’ que pagam para aparecer nas revistas pink.
    Conhecer um pouco do seu avô, através de si, foi um encontro maravilhoso. Leio o seu amor e estima.

  7. Pedro Bidarra diz:

    Que bela história. E da época de onde esta veio não há mais, António?

  8. António Eça de Queiroz diz:

    Há mais coisas, claro, mas algumas delas difíceis de contar.
    Infelizmente a minha principal fonte, a minha mãe, já morreu.
    Mas ainda bem que falou nisso, Pedro! Lembrei-me de uma absolutamente incrível, com uma passagem real que é quase um mito da literatura sul-americana. Mas dessa não tenho documentos, é pena.
    Vou ver se consigo romancear

  9. Gostei da carta e do teu avô selvagem!! Entendo bem as saudades!!!!!!!!

  10. Também gostei muito, António. Penso que memórias assim nos ensinam a História, o país e os tempos que mudam, tal como a não cometer a idiotice, tão comum, de julgar pelos, não digo valores, que os valores demoram tempo a mudar, mas as modas.
    Tive um bisavô, Governador-Militar dos Açores mais ou menos de castigo-era costume mandar as pessoas que não se portavam completamente bem para os Açores, que respondeu ao futuro genro, meu avô, que quis entrar na conversa alheia e começou por:- ‘Bem, eu não sei…- e levou a devida resposta:-‘Se o civil não sabe, cale-se’. Lembrei-me deste episódio, que era contado na família a ler o seu texto. (o avô vingou-se do desaforo, levou a avó, por isso aqui estou eu).
    Esta história é minha, mas gostei muito do seu avô Selvagem. Saudades.

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