Tempestades de Verão

 

Talvez seja deste tempo, coberto e denso, abafado, a lembrar trovões. Ou foi partida da memória, fresca ainda, ao fim de tanto tempo.

Leva-me então para um pedaço de terra algo deserta, no interior do Estados Unidos. Terra seca a lembrar outras aventuras mais cinematográficas, vegetação rala a acabar numa linha de montanhas azuladas.

Leva-me a uma obra do artista Walter de Maria, criada nos anos setenta, e intitulada “The Lightning Field”. A obra entre escultura e instalação, ou “land art”, na tradição de Robert Smithson, ocupa um quadrado de cerca de um quilómetro de lado, num terreno vazio, longe de qualquer rasto civilizacional.

Surpreende a simplicidade da concepção: uma malha rectilínea de postes de alumínio, ao todo quatrocentos, separados entre si cerca de sessenta metros.

Pouco interessa como é que a peça/obra foi imaginada, desenhada e por fim construída. Ou dito por outras palavras a inteligência da obra revela-se na absoluta necessidade de a viver, de a percepcionar “in loco”.

Daí que este pequeno texto seja em si uma armadilha, pois não é possível transmitir em palavras esta experiência, até porque seria negar a essência e a genialidade da obra .

Tudo foi pensado para que o observador tenha tempo e se sinta verdadeiramente desligado do quotidiano e de todas as suas  interligações constantes e ininterruptas.

A visita tem de ser marcada com antecedência e apenas durante alguns meses do ano. Feita a marcação será necessário viajar para uma pequena localidade no estado de New Mexico, chamada “Quemado”. Aí seremos obrigados a apanhar boleia de um funcionário da “Dia Art Foundation”, detentora da obra, que se encarregará de nos levar, numa viajem que durará mais de uma hora, até ao local.

A propriedade onde se localiza a obra é vasta, perdida no descampado solo do “Mid West” Americano. Teremos ainda de percorrer um trajecto no seu interior, até finalmente avistarmos o pequeno “bungalow” onde passaremos a noite, tal como nos é recomendado pelos organizadores e por quem já lá esteve. Estamos no meio de nenhures!

Porque o objectivo é mesmo esse: degustar com tempo a experiência, olhar e entender a obra sem qualquer tipo de pressa. Num primeiro momento fazêmo-lo a partir da pequena varanda do “bungalow”, qual câmara fixa sobre o campo de postes. De seguida podemos então atravessá-la, percorrê-la.

Adianto apenas o seguinte: os quatrocentos postes são de alumínio polido, ou seja reflectores dos raios solares. São também circulares, o que permite que o reflexo seja de certa forma contínuo, e as pontas afiadas, como num lápis.   São colocados num terreno  de topografia variável, mas  alinhados no seu topo, inseridos na tal métrica de cerca de sessenta metros por sessenta metros.

Planos e perspectivas transformam-se à medida que olhamos ora de um ponto fixo, ora percorrendo a obra por entre os postes. Estes são, em si,  receptores das mudanças da luz do sol, pequenos palcos onde a luz se materializa em linhas verticais. Com o sol mais baixo todo o poste se ilumina  num varão de luz, branca pálida, arroxeada e laranja à medida que o dia passa, vagaroso. Com o sol mais a pique são as pontas que se incendeiam em chama, como velas acesas.  Daí a importância de passarmos pelo menos um dia inteiro no local.

Ah, é verdade!  E o que é que tudo isto tem a ver com relâmpagos? Os meses de verão, os únicos em que é possível visitar o local, foram escolhidos pelo artista por existir uma maior possibilidade de assistirmos a tempestades de verão e relâmpagos, atraídos também pela superfície polida dos postes.  E aí, com sorte,  saborearemos a experiência total da obra, com os raios a acertar em cheio no milagroso campo de finas linhas de luz.

Roguem por isso por uma bela tempestade de verão, e garanto-vos  que não verão as vossas expectativas sair defraudadas.

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
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5 respostas a Tempestades de Verão

  1. António Eça de Queiroz diz:

    Ena pá, Bernardo, deve ser uma experiência e pêras!
    Mas isso dos raios não será perigoso, ou o artefacto funciona como uma gaiola de Faraday?

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      A gaiola são mesmo os postes António, por isso estamos a salvo, recolhidos na varanda! É realmente uma experiência interessante e surpreendente.

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Pois é Rita mas neste caso não podemos ir ao “YouTube “, tem de ser mesmo lá….

  2. pedro marta santos diz:

    Raio e coriscos! Tenho de visitar isso.

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