“They all laughed” e “They all cried”

Aquele, do lado esquerdo, sou eu. Os outros são o Peter Bogdanovich, o John Ritter e a Dorothy Stratten. Nunca nos chegámos a encontrar, fisicamente, mas eu o Peter e o John tínhamos em comum os óculos com lente a mais que se usavam nos oitenta, umas caras mais ou menos apatetadas, que também eram típicas da época, e a Dorothy Stratten.

O Peter Bogdanovich, que realizou o filme “They All Laughed”, durante a rodagem passou de apaixonado a namorado da Dorothy.

O John Ritter interpretava no filme um detective privado cuja missão era seguir Dolores – a personagem interpretada pela Dorothy Stratten – e que acaba apaixonado por ela; na verdade o personagem de John Ritter era o Peter Bogdanovich e a história que se rodava, e a história da rodagem propriamente dita, eram a mesma história.

Já eu tinha numa gaveta que se abria debaixo da cama o número da Playboy onde a Dorothy Stratten sorria em todo o seu nu esplendor. Muito li eu aquela Playboy. Antes e depois de ter visto o filme e sabendo que aquele era um amor impossível. Na altura já a Dorothy tinha morrido assassinada.

Quando vi o filme pela primeira vez o meu coração balançava entre a Dorothy, a Patty (que veio a ser namorada e a casar com o Keith Richards) e a Audrey Hepburn. Mas a morte fez-me decidir pela Dorothy. Não há amores como os inatingíveis e não há nada de mais inatingível que o amor de uma morta.

Entretanto o filme saiu de cartaz, a Playboy desconjuntou-se de tanto desfolhamento e a Dorothy Stratten passou à qualidade de memória. Mas fiquei com a estranha sensação que aquele filme (uma comédia romântica imagine-se) era um dos filmes da minha vida. Por quê não sei, ou melhor, não sabia.

Há uns meses encomendei o filme na Amazon (que por insondáveis desígnios editoriais só existe em zona 1) e quando chegou, com a excitação de quem vai voltar a ver uma paixão liceal, sentei-me frente ao ecrã e vi-o de fio a pavio; sem intervalo para ir à casa de banho ou à cozinha. E a verdade é que o filme envelheceu muitíssimo bem. Mais como um bom vinho do que como uma pessoa que é coisa que tende a azedar com o tempo. “They all laughed” não azedou antes pelo contrário.

O filme é uma comédia onde os personagens se tentam comer uns aos outros com a alegria com que a malta se comia uns aos outros no princípio dos anos oitenta (antes da SIDA). A história passa-se numa Nova Iorque amena e primaveril e é filmada com a intimidade de quem é de lá. Os diálogos são bons – talvez demais para os hábitos iletrados das audiências modernas –, os personagens muitos e bem construídos e a narrativa equilibrada: trata apenas de gente que, para conseguir o que quer, diz a piadas que têm que ser ditas e faz os disparates que têm que ser feitos. O filme é realizado com eloquência e cheira a cinema do antigo; com um toque de Hitchcock, aromas de nouvelle vague e um final que lembra as comédias românticas do Cukor e Wilder.

Mas nada disto explica a impressão que o filme me causou na altura e por isso o quis voltar a ver. Para perceber. E percebi.

O filme é apenas a primeira parte de uma narrativa que se desenrolava para lá do ecrã. Era isso que o tornava especial e, ainda hoje, moderníssimo.

O destino proporcionou ao filme uma trágica sequela. Uma sequela que deixou a ficção e se escreveu na realidade; que não continuou comédia mas que se realizou em drama e que podia ter-se chamado “They all cried”. A continuação aconteceu quando o ex-namorado de Dorothy, que entretanto já tinha ido viver com o Peter Bogdanovich em L.A., absolutamente transtornado de ciúmes, a atraiu a casa, a matou e a sodomizou, depois de morta, num banco especial desenhado por ele como sex toy. Assim rezam os relatos da época que podem hoje ser lidos, com sórdido prazer, na Internet. A comédia pura e divertida passou de repente, e tragicamente, a um drama bem real. E foi isso que tornou o filme tão especial.

Há algo de muito moderno neste obra. Um formato que nasce cinema e evolui para a vida onde os personagens são os mesmos e a notícia televisiva substitui o script ficcionado. Ficção e realidade continuam-se e a obra vira coisa transgénica, que não é só cinema mas que passa, de repente, a reality show (avant la letre).

They All Laughed, e a sua sórdida sequela, lembram uma diabólica iteracção do pensamento impossuível de Günther Mole. Com o assassinato de Dorothy, a tentativa de Peter Bogdanovich para possuir a história do seu filme tornou-se impossível e o script, assim, impossuível. A própria morte e sodomização post mortem de Dorothy são, em si mesmas, um simbólico e diabólico sinal. Só agora, depois de ver de novo o filme e de relembrar a sua sequela à luz do pensamento Moleano, percebi o apelo da obra e a pude apreciar na sua completa e sórdida plenitude.

p.s.: Diga-se que a Dorothy já não me impressionou tanto agora. Desta vez fiquei apanhado pela Audrey Hepburn. É o tempo que passa…

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu): “Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”
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9 respostas a “They all laughed” e “They all cried”

  1. Rita V diz:

    my goodness … belo texto … já não posso dizer o mesmo da história.
    😀

    • Pedro Bidarra diz:

      A história é feita de personagens trágicas apanhadas numa comédia e de personagens cómicas apanhadas numa tragédia

  2. manuel s. fonseca diz:

    Pedro, até tremo de olhar para o dvd que me emprestaste e está aqui ao lado. Será que há extras, cenas adicionais que não devo ver?
    Não é que o teu texto esteja bem esgalhado: está é muito bem esgalhado!

    • Pedro Bidarra diz:

      Não tive tempode ver as cenas extras mas a internet está cheia delas. Vê o filme quie vais gostar. OU gostar de novo

  3. pedro marta santos diz:

    Deu-me um grande prazer, um prazer triste, ler o teu texto. Acho que a tragédia continua na cabeça do Bogdanovich, que já escreveu um livro sobre o assunto e, para amenizar o desenlace, casou com uma sósia da Dorothy, nada menos do que a irmã mais nova desta, duplicação actualizada do amor original. O que talvez torne o a história ainda mais triste. Há homens apanhados no mundo-fantasma das suas projecções (os maiores filmes, de facto, fazem-se na vida).

    • Pedro Bidarra diz:

      pois também descobri que o PB tinha casado com a irmã da morta. Que loucura. Então a obra ainda continua: primeiro comédia, depois tragédia, agora melodrama.

  4. Carlos diz:

    Hoje o mundo blogsférico permite projectar os amores; quando se passa à realidade há, também, muitos “assassinatos”!

    • Pedro Bidarra diz:

      É exactamente na net e em muitos blogs que hoje se pode conhecer todos, ou quase todos, os aspectos desta sórdida história.

  5. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Oh Pedro olha que podem ser mesmo os óculos….é que em “The Last Picture Show” já o Peter ( e muitos dos espectadores…) se tinha apaixonado pela Cybill…Bela lembrança cinéfila.

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