Triste é a noite

(entro a meio da noite e de mansinho no escrever é triste – pode ser que assim não reparem – embora aqui esteja desde o dia primeiro. Com esta pequena diferença: antes, estava escondida a ler os textos, imagens e comentários às escuras e agora, acenderam-me a luz do candeeiro de mesa).

É quase dia. Nesta imagem perto do fim de A Noite, Lídia e Giovanni estão de costas para nós, como tantas vezes sucede com os personagens de Antonioni. Talvez neste momento não queiram mostrar-nos os seus rostos, cansados da noite e decepcionados com a vida conjugal. Apesar de ser um escritor de sucesso, Giovanni Pontano (Marcello Mastroianni) vive entre o tédio e a inquietação. Lídia (Jeanne Moreau), rica e inteligente, leva uma vida vazia e à sombra do marido. O casal encontra-se ligado pelo desconforto de um silêncio cansado. “Casados” deu lugar a “cansados”, como se um insidioso n (de negação?) se tivesse instalado entre os dois. Devido ao enquadramento no espaço e quando comparados com o enorme jardim dos Gherardini, parecem pequenos seres humanos. A indefinida luz da madrugada ilumina os seus passos de mãos dadas. Em fundo, ainda se ouve e música com que a banda de jazz embalou a euforia dos convidados e a melancolia da noite de festa e por esta altura, Lidia deve estar a perguntar a Giovanni “eles ainda não perceberam que a música não lhes vai melhorar o dia?”. Neste momento, já deixaram para trás o hospital onde visitaram Tommaso, o amigo moribundo com quem Giovanni bebeu champanhe. Já se afastaram das ruas da cidade a preto e branco e dos espaços que parecem sempre vazios, tal como as personagens que os habitam. Já abandonaram a festa feita de excessos dada pelo rico industrial Gherardini em honra do cavalo de corridas da sua filha Valentina (Monica Vitti). Giovanni já se revelou um escritor em crise, preso no seu mundo fictício – “sei o que escrever, mas não como o escrever” e Lidia já confessou que se sente a morrer por dentro. Já se despediram de Valentina, a jovem (de “22 anos e muitos, muitos meses”), bela e inteligente filha do industrial, que manteve um jogo de sedução com Giovanni e para quem, depois deste jogo, “a tristeza voltou como um cão melancólico”. Dentro de alguns metros, Lídia vai ler-lhe a carta que traz consigo na mala, ainda em busca da confirmação para o fim do amor, fingindo que todos os sinais que foi recolhendo ao longo do filme e da noite não lhe bastam. Giovanni, ao perguntar quem a escreveu, não se reconhecendo como o autor da carta e protagonista da outrora história de amor, dará a mais eloquente resposta.

E o que nos vai dizendo Antonioni baixinho ao ouvido, enquanto a noite se desenrola? Os mais belos, os mais ricos e os mais talentosos também sofrem de tédio e de angústia existencial. Os seus planos lentos, as paisagens hostis e os silêncios sufocantes revelam-nos o problema da incomunicabilidade. O coração dos personagens não consegue bater nas suas palavras nem sintonizar-se com o outro. Ninguém o diz melhor do que Valentina: “Sempre que tento comunicar com alguém, o amor desaparece”. E poderão os sentimentos tratar-se como quem cuida de um orgão doente ( e nesse caso, seria o coração ou a cabeça)? Se a cidade (Milão) está em obras, os seres humanos estão em crise e as personagens comportam-se como sonâmbulos (durante a festa, Valentina lê Os Sonâmbulos de Hermann Broch). Estão de olhos abertos e executam acções, sem terem verdadeira consciência delas, entre um passado presente como um fantasma e um futuro pouco radioso. Mas voltemos ao princípio: o que acontecerá a Lidia e a Giovanni, dentro em breve, quando a palavra Fine aparecer? Nem as personagens nem o realizador nos dão a resposta, deixando-nos um inconsolável frio na alma.

Sobre Maria João Freitas

Graças às palavras, às vezes sou Alice e faço perguntas sem parar. Outras, sou a namorada (platónica, esclareça-se) de Wittgenstein. Quase sempre, penso que tenho a sorte de viver da (e na) escrita. Porque escrever pode ser triste, mas é melhor que ser feliz.
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17 respostas a Triste é a noite

  1. Benvinda Neves diz:

    Parabéns Maria João Freitas, “entrou de mansinho a meio da noite”, tentando que não reparem, mas o “brilho” com que entrou é tão forte, que não acredito que haja alguem que não repare.
    Belissimo texto, que nos faz reflectir na “magia” dos relacionamentos. Gostei muito.

  2. manuel s. fonseca diz:

    Afinal, Maria João, a incomunicabilidade é “comunicável”. Seja bem vinda!

  3. Rita V diz:

    Não sei o que acontece quando a palavra Fine aparece … mas tenho a certeza que vou dizer «une lapalissade»:
    There is no end without a new beginning.
    Bem vinda!

  4. Maria João Freitas diz:

    Benvinda, Rita e Manuel, muito obrigada pelas vossas palavras de boas vindas. Vou começar já a escrever alegremente o segundo post triste.

  5. Diogo Leote diz:

    Bela estreia, Maria João. Como é chique o tédio em Antonioni. O melhor remédio para quem é infeliz por não ser rico é mesmo levar com uma boa dose de Antonioni.

  6. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Maria João o seu belo texto fez-me pensar que a famosa “trilogia” do Antonioni está bem mais actual do que possa parecer. Tantos “casados” que estão “cansados” e tantas palavras que não são ditas, que não são compreendidas. Antonioni foi mestre em filmar o imaterial, aquilo que não se vê…para que sejamos nós a imaginar o resto.

  7. ~CC~ diz:

    Mais uma mulher…era demasiada tristeza masculina…assim está melhor! 🙂
    ~CC~

  8. Maria João Freitas diz:

    Diogo, enquanto escrevia o texto, lembrei-me precisamente de uma frase perdida que me chegou aos ouvidos, há muito tempo, vinda de um rádio ligado pela noite dentro, e que era mais ou menos assim: Os pobres são infelizes porque não são ricos. Os ricos são infelizes, apesar de serem ricos.

  9. Maria João Freitas diz:

    Bernardo, desconfio que o problema da incomunicabilidade é intrínseco à condição humana e que sempre existiu. Mesmo antes de inventarmos as palavras, e sobretudo, depois de termos inventado o silêncio. E sim, é verdade, o Antonioni está espantosamente actual. Se esquecermos o modelo dos automóveis, a forma dos penteados, a estética dos vestidos e o feitio dos electrodomésticos (como o inacreditavelmente pré-histórico gravador ao qual Valentina dita os seus mais obscuros pensamentos), estamos no século XXI, em termos de relações humanas. E pensar que o filme tem mais de 50 anos…

  10. Maria João Freitas diz:

    ~CC~(com conhecimento?),
    Apesar da tristeza ser feminina no género e da Tia Escrever valer por várias mulheres,
    imagino que (também) fui escolhida por ser uma (e não um) triste.

    • ~CC~ diz:

      Maria João:
      Nada de com conhecimento 🙂
      ~CC~ é só mesmo um desenho, um boneco animado, um ventinho leve 🙂
      (mas ventinho mulher)

  11. Maracujá diz:

    Cara Maria João, o seu texto encanta pela beleza da escrita e pela forma como encaixa, em um qualquer momento da triste vida de todos nós.
    Fico aqui, deitada na minha fruteira, ansiosa por assistir a mais tristes episódios destes seus…

  12. pedro marta santos diz:

    Maria João, que excelente início (só agora li). E tem toda a razão: os filmes maiores de Antonioni, se lhes retirarmos a ganga de circunstância (penteados, design de interiores, alguns temas nas bandas sonoras, a utilização do zoom) são mais actuais do que nunca. E andamos saturados de Antonionis miméticos, sem um grama do talento de Michelangelo. Seja muitíssimo bem-vinda.

  13. Ana Rita Seabra diz:

    Belo começo com este texto sobre La notte!
    Deu-me vontade de rever o filme.
    obrigado

  14. jeremias alves diz:

    olha ,minha querida amiga estou dentro desse contexto hoje,me vi como esse personagens ,estou escrevendo um livro tambem.stou cansado de tudo .a minha relaçao virou um inferno ,estou quase louco ,me ajude.

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