Um Filme Quase

 

"Rampart - o Renegado", de Oren Moverman

 

“Rampart – o Renegado” é quase um grande filme. Tem uma interpretação firme e carismática de Woody Harrelson. O realizador, Oren Moverman, ofereceu-nos um dos melhores trabalhos de 2010, “O Mensageiro”, onde a guerra do Iraque surgia na mais problemática das fronteiras – a psique das viúvas dos desaparecidos em combate, acácias que morrem em pé nos quintais da América. O guião é escrito a meias pelo director e James Ellroy, simplesmente um dos grandes escritores da actualidade, especialista obsessivo no relato decadente das forças policiais de Los Angeles. Mas o cinema é uma arte colectiva, e o resultado pode ser muito distante da soma das partes. “Rampart – o Renegado” conta a história de Dave Brown (Harrelson), um polícia da “velha guarda” (é veterano da Guerra do Vietname), com todos os defeitos do catálogo WASP: racismo, machismo, corrupção, violência gratuita. Os diálogos de Ellroy exalam a podridão das ruas, e traçam um retrato impressionista que, sejamos justos, impressiona. Entramos com pormenor na psicologia de Dave: ele mata os que considera a escória da escória, vive com a ex-mulher e a actual esposa (elas são irmãs, interpretadas por Cynthia Nixon e Anne Heche), tenta manter o equilíbrio de um lar com duas filhas e um desejo sexual por duas mulheres, e vê-se obrigado a lidar com a gravação do seu ataque quase mortal a um delinquente em fuga (numa reprodução algo exagerada, e solitária, do caso Rodney King). A acção decorre em 1999, quando os casos de prepotência da LAPD estavam ao rubro. O problema é que, ao fim de cinco minutos, percebemos a exacta natureza de Dave. Ele é o produto de uma geração marcada pela inutilidade da guerra, pela misoginia, pelo desprezo das regras. Não há surpresas: Moverman e Ellroy querem mostrar-nos o pai de todos os polícias maus, esquecendo-se de que Abel Ferrara já o tinha feito, e melhor (Herzog, duas décadas depois, colocou uma pedra sobre o assunto). Seguem-se cem minutos da demonstração inexorável de que Dave não tem cura, num estilo visual que não olha a meios para atingir os fins: há planos picados, de “olhar divino”, sobre acontecimentos que não o justificam, travellings circulares em cenas simples de diálogo que apenas confundem o espectador e uma sequência num clube de “sexo livre” que o Gaspar Noé de “Seul Contre Tous” não desdenharia. Vem tudo embrulhado num pretensiosismo que inclui visões crísticas do protagonista, numa moral impingida em zoom, do género “até as criaturas mais detestáveis merecem perdão”. Ellroy é que não merecia isto. Nem nós.

Publicado na revista “Sábado”

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
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6 respostas a Um Filme Quase

  1. manuel s. fonseca diz:

    Saber que fizeram uma maldade à cabeça negra, a esse avatar do pessimismo que é o Ellroy, deixa-me devastado. A sério, apetecia-me ir ver… olha, paciência.

  2. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Pedro, é muito bem observado que ” o resultado pode ser muito distante da soma das partes”. Parece-me um facto que juntar um bom realizador, com um bom argumentista, uns bons actores, pode dar em pouco. Não vi este , nem vi o Herzog , que pelos vistos valerá a pena. Vi o Ferrara que achei um grande filme, com a fortíssima participação do Keitel: esse retrato dos infernos escombrosos da corrupção e do vil uso da força do poder…

  3. pedro marta santos diz:

    Sei que és um fã do Ellroy, Manel, e de facto é melhor evitares a falha de compreensão do realizador face ao material – óptimo – de que dispunha. Se puderes ver o Herzog, Bernardo, experimenta. É quase uma comédia negra.

  4. Pedro Bidarra diz:

    Comecei a querer ver o filme e acabei de ler cheio de raiva de não o querer mais ver. Que maçada 🙁

  5. Diogo Leote diz:

    Pedro, estou como o Bidarra: ia eu todo embalado para ver o filme pela promessa das primeiras linhas do teu texto e tu acabas a cortar-nos as vazas. Agora, estou sem saber se deixo o Woody Harrelson pendurado.

  6. pedro marta santos diz:

    Mesmo assim, o filme é melhor do que a vasta colecção de imagens intragáveis penduradas nos multiplexes da nação. Mas acho que virás desiludido. Se fosse a ti, (re)via o “The Killer Insider Me” do Michael Winterbottom (2010) que, sendo uma adaptação de outro craque, o Jim Thompson, é o que tem mais pontos em comum com o Ellroy neste último par de anos.

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