Um lugar que são muitos

Ryszard Kapuściński, photo: Marek Billewicz/East News

Há um lugar que fica a meio caminho entra a literatura, o jornalismo e aquilo a que os polacos chamam a gaweda szlachecka, um género de narrativa épica que por ali floresceu sobretudo no século XIX. Em boa verdade, esse lugar são muitos lugares. Muitos lugares e tempos infinitos. Eu visitei alguns. A África dos anos 50, 60 e 70. Gana, Ruanda, Zanzibar, Angola. A monarquia abissínia que caiu com Haile Selassie em 1974. A crueldade absurda do Imperium soviético. O mundo de Heródoto. E estou agora de partida para o estertor iraniano do regime de Reza Pahlavi. Hei de mandar um postal. Mas não se percam por minha causa. Fiquem com o cartão. Ryszard Kapuscinski, jornalista, viajante, poeta, fotógrafo, 27 vezes revolucionário, 6 vezes morto por fuzilamento, amigo de Allende, Guevara e Lumumba, e meu guia de viagens particular.

 

Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.
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3 respostas a Um lugar que são muitos

  1. manuel s. fonseca diz:

    Não é Kapuś­ciński quem quer e também não é quem quer, mas quem pode, que louva o Kapuś­ciński assim. Bem dito Pedro Rys­zard Norton.

  2. teresa conceição diz:

    Pedro, que bem lembrado. Que bonito retrato (e não me refiro à fotografia)
    O link para os livros é que era escusado. Vai uma pessoa e entusiasma-se e depois é como as cerejas e não há cartão que aguente.

  3. Anjo Negro diz:

    Noted. Sabes que me rendi ao Kindle (um óptimo livro de bolso) e então tem sido fartar vilanagem na Amazon. Retribuo-te com o Crimea (Orlando Figes). Só mesmo a um careca é que lembra ir ler sobre este tema, não achas? Mas a verdade é que sempre me intrigou a existência de uma série de mapas, planos etc. com a posição dos exércitos, o cidade de Sebastopol e quejandas na minha querida Reigada. Qual o interesse que uma tão esquecida guerra poderia ter no espirito de um militar de circunstância (deu umas cacetadas nos Miguelistas e aos querenta reformou-se para empobrecer alegremente na agricultura … viveu até aos 90) como o meu trisavô beirão? Pois parece que foi um acontecimento que muito impressionou os homens de meados do sec. XIX, fruto, sobretudo, da primeira cobertura mediática moderna feita a uma guerra. Morreram quase um milhão de pessoas em batalhas que misturavam armas de 1914 com práticas e rituais do sec. XVIII. E depois tens a Carga da Brigada Ligeira e a a boa da Florence Nathingale. Ah, não esquecer também o grande Tosltoi que por lá andou e o seu Sebastopol. Tudo coisas para falarmos em breve ao vivo e a cores que as minhas férias estão a chegar!

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