Uma obra felizmente obscena

ele obriga-a a abrir amplamente as coxas

Há um romance em que, pelas leis de hospitalidade, o marido, rendendo-se à literal acepção do termo anfitrião, oferece aos convidados os favores da sua mulher. Tudo acontece em 94 páginas que oscilam entre teologia e pornografia.
Começava eu a gatinhar quando “Roberte-Nessa-Noite”, esse romance de 94 breves páginas, foi escrito por Pierre Klossowski. Entra naquela categoria de livros que pelo seu anacronismo intrínseco, e pela perda de prestígio da cultura francesa, “hoje ninguém se dá ao trabalho de ler” mas que insisto em recomendar a quem tiver a imprevidência de me dar ouvidos. Roberte, que suponho assim,

os dedos de Roberte soltam-se e soltam

conheci-a, tarde e más horas, anos 80, quando a outrora Senhora de encantos e louvores já teria idade de só tomar arrastado chá. Gostei dela. Quando gosto, gosto, e às vezes gosto tanto, que continua, cinco lustros depois, a fazer parte dos meus livros de culto. Igual ou ainda mais do que “A Idade de Homem”, de Michel Leiris, dxe que já por aqui falei, ou dos “Cantos de Maldoror”, de Lautréamont, a que en passant aludi e a que talvez volte com outra veemência.
A biografia de Klossowski concorre com o “amontoado de desejos carnais e espirituais” que atravessa “Roberte”, o romance em apreço. Parisiense, filho de pais de origem polaca e irmão do pintor Balthus, este Pedro francês teve como mentores o místico e iluminado Rainer Maria Rilke, putativo amante de sua mãe, e o imoralista André Gide, que frequentou é é tudo o que disso biograficamente para o caso interessa. Depois deles ou por causa deles, recolheu-se durante alguns anos no seio de um mosteiro dominicano, com a firme disposição de tomar ordens.
Em 1947, no pós-Guerra, a vocação sofre um vil abalo e Klossowski abandona a vida monástica, casando-se com Denise Marie Roberte Morin-Sinclair, jovem viúva do conflito que devastara as certezas da velha Europa. É ela a heroína de “Roberte-Nessa-Noite”, o primeiro romance de uma trilogia erótica, com o título genérico “As Leis da Hospitalidade”. A Roberte do romance, membro do Comité de Censura do Parlamento, é tão inspirada na sua mulher, quanto Octave, o protagonista, escritor de livros obscenos, será o alter-ego do próprio autor.
Singular no romance é a fraternidade entre o deboche sexual (“Com uma joelhada violenta entre as nádegas, ele obriga-a a abrir amplamente as coxas; os dedos de Roberte deixam soltar todas as volutas do seu utrumsit à cara do corcunda…”) e o debate teológico (“Querendo colocar a vida do espírito ao abrigo da morte espiritual, o nosso autor criou a dupla substância na qual o espírito se torna solidário de um lugar obscuro, esta carne, imagem do segredo que toda a vontade criada partilha com ele”).
Essência e existência, corpos e puros espíritos, heresias gnósticas e Santo Agostinho, a vida da carne e os caminhos de Deus cruzam-se em “Roberte” com experiências sexuais limite que aproximam Klossowski da leitura que ele mesmo fez do divino e perverso marquês, num outro livro seu, o ensaio “Sade, Meu Próximo”.
O romance de Klossowski é um romance de risco, de uma exposição pessoal que busca a transgressão e o escândalo, formas pelas quais o autor queria aceder à comunhão com o sagrado – romance, Roberte e anfitrião impossíveis de imaginar, ou degustar, sem a merveille de catolicíssima escolástica, tudo servido, entenda-se, pela sintaxe clássica e soberba de quem traduzira, do alemão, Nietzsche e Heidegger e, do latim, Suetónio ou Virgilio.
Para evitar a censura francesa, “Roberte” foi publicado em edição de luxo com ilustrações do próprio Klossowski (não gostou das que Balthus, o irmão e incompetente pintor, lhe propôs). Vendeu-se, o livro, por subscrição. Em Portugal, cinco séculos depois (estou a brincar), morto e enterrado o doutor Salazar, foi editado pela “Livros do Brasil”, com magnífica tradução de José Carlos Gonzalez.
Os livros que Klossowski deixou pouco mais valem do que o desespero de contestáveis genuflexões como esta. Mas ficou, com a sua assinatura, vasta obra pictórica, como é o caso desta que integra a colecção Berardo.

 

Gosto mais dos livros. E cito:
“Largue-me, senão grito!” “Se gritar lanço-a ao cascalho!” e levara a mão ao colarinho da minha blusa desabotoando-o brutalmente. “Aqui não! Aqui não! Estão a observar-nos!” Mas a minha blusa rasgara-se e a sua mão penetrava  no meu corpete: “Espiazinha!” segredou ele, metendo-me os dedos pelas axilas…

ps – Avisei, claro que avisei, que em viagem e até que Julho volte deixei programados velhos textos…

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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5 respostas a Uma obra felizmente obscena

  1. Até o novo romance envelhece, mas a pop não. Aqui fica pop em francês da nossa Wanda Vasconcelos, de Mangualde, que foi de Moçambique para Bruxelas. Escolhi um vídeo de disputas entre mulheres, pela óbvia alusão ao facto histórico mais importante da França e da Europa: a luta entre as mulheres de Hollande (não sei se foi só Twitter ou houve unhas e arranque de cabelos). Estatisticamente, os franceses têm-no maior, o membro viril, o que se deduz que o de Hollande estará acima da média para entusiasmar as suas femmes (“o tamanho não conta” é uma piedosa mentira que nos contam). bfds

    • manuel s. fonseca diz:

      Táxi, já tinha visto. No Ladie’s Man do Jerry Lewis, mas as baronas tinham mais tusa. Acho que o problema não é o tamanho, é o pessoal ser ou não capaz de se rir. O Jerry, sei lá se a tinha grande ou pequena, tinha-a era sorridente.

  2. Carlos diz:

    De Pierre Klos­sowski não conheço nada. Lembrei-me do Abade C de Georges Bataille.

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