Uma sessão de hipnose para a História

Se a sessão fez ou não bem a Ian Curtis, depende da perspectiva. Sabe-se que Bernard Sumner, o amigo Barney de Ian, e homem da guitarra dos Joy Division, tentou libertá-lo dos fantasmas que o atormentavam. Dessa tentativa ficou pelo menos um registo, o registo singular de uma past regression therapy proposta por Barney a Ian, que o fez recuar a um tempo anterior ao seu nascimento. A partir do momento em que um documentário sobre a banda a divulgou, tornou-se na gravação áudio de uma sessão de hipnose mais célebre do mundo. De um certo ponto de vista, a coisa não terá resultado de todo, pois poucas semanas depois Ian decidiu por uma corda à volta do pescoço e partir para uma viagem sem regresso. Mas a verdade é que, nessas semanas que mediaram entre a sessão de hipnose e a morte de Ian, foi gravado o álbum Closer, a intemporal obra-prima dos Joy Division. Porque o génio nunca nasce do acaso, há razões para suspeitar da origem das forças transcendentais que levaram Curtis ao seu sublime epitáfio musical. Seja como for, aqui fica a gravação. Que façam bom proveito os coleccionadores de raridades dos Joy Division, como eu o sou, ou os adeptos das past regression therapies, que também os há por aqui.

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
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12 respostas a Uma sessão de hipnose para a História

  1. Em tempos idos, grande parte dos meus amigos tinha morrido na música da década de 60-70, levei-lhes o Closer para ouvirem, e o que eu ouvi: isso é barulho! isso é sempre a mesma coisa! grande bodega! corre a década de 80 e torna-se uma moda gostar dos Joy Division, (a morte vende), então aqueles sons para velhos hippies ou beátlicos passaram a ser divinos, não havia bicho careta que não fizesse cara de inteligente, de quem consome arte, meneando a cabeça aos Joy Division. E, depois de ser fashion, deixei de gostar. bfds

    • Diogo Leote diz:

      Caro Taxi, percebo bem o que diz. Comigo passou-se o mesmo com alguns fenómenos de culto localizado, depois de se alargarem às massas (só para citar um exemplo português, foi o caso dos Madre Deus). Mas com os Joy Division nunca, talvez por nunca terem verdadeiramente passado a fenómeno de massas, nem sequer depois da morte de Ian Curtis. E a verdade é que muita coisa que continuei a ouvir, dos anos 80 até ao presente, tem a marca dos Division.

  2. Rita V diz:

    querido Diogo, os Joy Division nunca me entusiasmaram … mas a hipnose sim. não se devem fazer regressões como se vai ali ao cinema.
    e depois … não se pode ajudar quem não quer ser ajudado.. .n’est-ce pas?
    http://joydivision.homestead.com/unseen.html

    • Diogo Leote diz:

      Rita, este post era também para ti, e não pelos Joy Division claro está. Claro que uma regressão não se faz assim mas, para mim e acredito para muitos outros que receberam a herança musical dos Joy Division (e eles foram especialmente importantes não tanto pelo que fizeram, que já foi bastante, mas pela influência que tiveram nos anos 80 e mesmo nas décadas vindouras), isto não deixa de ser um belo cromo para a colecção de curiosidades da banda.

  3. pedro marta santos diz:

    Os Joy marcaram quase tantas bandas como os Stones. E chamavam-se pelo nome mais irónico de sempre (têm canções que dão vontade de um gajo se atirar de uma janela).

  4. pedro marta santos diz:

    …Tal como o título do regimento militar em que originalmente se inspiraram. Dar tiros a sorrir…

    • Diogo Leote diz:

      Como sabes, Pedro, os Division começaram por Warsaw e só por haver já uma banda assim chamada foram forçados a mudar de nome. A escolha do nome Joy Division custou-lhes algumas críticas, pelas conotações nazis que nele viram (isto porque assim se chamava o espaço para onde eram recambiadas as prisioneiras judias com o objectivo de servirem sexualmente as tropas nazis). E foram, claro, a banda mais influente dos anos 80.

  5. manuel s. fonseca diz:

    Com raríssimas excepções, os anos 80 e 90 foram o meu intervalo na pop e rock. Ando a ter explicação contigo, aqui, caro Diogo. E se a Rita estiver de acordo, lá vou fazer a regressão.

    • Diogo Leote diz:

      Manuel, na música, como em tudo o mais, só sou adepto de regressões que sirvam para compreender melhor o presente e abrir pistas para o futuro. E no meu caso, a verdade é que continuo a ouvir os Joy Division em muitas das minhas selecções musicais do presente. Quanto às explicações, sabes bem que não sou a pessoa indicada, eu sou apenas um aprendiz de aprendiz.

  6. Maracujá diz:

    Caro Diogo, confesso que o que se seguiu foi um bocadinho melhor.
    Note-se que o facto do Ian se ter pendurado pelo pescoço, celebrizou-o. Passou a estar mais perto dos influentes! Foi talvez o melhor para ele, mas deixou um triângulo amoroso por desvendar, que seria no mínimo curioso de assistir, digno até de um post.
    Quanto á hipnose digo-lhe que concordo com a Rita ali em cima, não é como ir ao cinema. São situações muito específicas e restritas às quais esta técnica deve ser aplicada, e como tudo é importante fazê-lo com os melhores.
    Deixo-lhe aqui uma influência dos” Joy”, muito positiva neste caso!

    http://youtu.be/49yEeQtWScw

    • Diogo Leote diz:

      Maracujá, o que veio a seguir – e julgo que se refere aos New Order – não é melhor nem pior do que os Joy Division pela simples razão de que não é comparável. Aliás, só no primeiro álbum, o Movement (de onde saíu o excelente Ceremony que agora aqui deixa na versão dos Radiohead, assim como o magistral Dreams Never End), os New Order procuraram ainda seguir a herança de Ian Curtis. Depois, enveredaram por outros caminhos, como sabe. Eu não sou suspeito para o dizer, porque também gostei muito de New Order, mas a verdade é que nenhuma banda foi comparável aos Joy Division na influência que tiveram no melhor que se fez nos anos 80 (Cure, Echo and the Bunnymen e Smiths, entre outros). Aliás, a sua influência perdura até aos dias de hoje e um bom exemplo disso são os Radiohead a partir de Kid A e Amnesiac. Quanto ao post sobre os Division e o Ian Curtis já o fiz há algum tempo num outro blogue. Mas, já que fala dele, talvez seja uma boa oportunidade para o recuperar aqui.

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