A mim também me deu o amok em Berlim

O Manuel viu o amok em Berlim em 1984. Eu, quando lá fui a primeira vez, dois anos depois da visão do Manuel, também me deu o dito. O próprio do amok atingiu-me, a mim e aos meus dois companheiros de viagem. Andávamos pelos 19/20 anos de idade e a imagem ficou-nos. Nós e o Muro. E, a separar-nos, o mais tenebroso e absoluto silêncio que alguma vez vivi. 

 “Where´s the wall ? The wall is everywhere!”, respondia, num misto de incredulidade e gozo, o transeunte que, envergonhadamente, acabáramos de questionar sobre a localização do Muro. Estávamos no verão de 1986, Gorbachov subira ao poder na União Soviética no ano anterior e, apesar dos sopros de mudança que de lá vinham, o Muro parecia estar para durar, como diria Honecker mais tarde, “mais 50 ou 100 anos”.

Curioso desígnio este de quem, com a maioridade e a carta de condução finalmente na mão, escolhe como primeiro destino da liberdade adquirida o local onde o Homem colocou um obstáculo – feito de pedra, cimento, arame farpado e armas – à liberdade.

Berlim era na altura um enclave, bem no coração da RDA, para onde acorriam aos milhares, nesse e noutros meses de Agosto, os alemães ocidentais que procuravam uma espécie de réplica europeia do american way of life. Procuravam-na nos estritos limites da parte ocidental da cidade, claro está. Aí abundavam os yeahs, folks e buddies, os uniformes e as divisas americanas, os nomes dos founding fathers e de outras personagens marcantes de terras de Uncle Sam nas placas de ruas e avenidas. E também marcas, lojas e consumismo a rodos, com muito néon a anunciá-los em cada esquina. E nem os casinos faltavam.

Mas, nessa noite, nós só queríamos saber do Muro. E rapidamente percebemos quão ingénua fora a nossa pergunta. Porque ele estava mesmo em toda a parte, apesar de todos, do lado de cá, parecerem ou fingirem ignorá-lo. E aí nos deixámos ficar, duas a três horas, bem à sua frente. A olhar para ele apenas, sem trocar uma palavra. Ou a tentar espreitar para o outro lado, à procura de um sinal de vida de um outro mundo que se dizia existir ali. Já sabíamos da “zona de ninguém”, daqueles que nela tinham deixado as suas vidas, mas, naquele tempo em que Wenders ainda não se lembrara de convocar os anjos para a cidade, ignorávamos como o silêncio e a escuridão poderiam ser tão opressivos e perturbadores. Enquanto do lado de cá a luz e o ruído se excediam, do lado de lá nada mais do que escuridão e silêncio. Nenhum manual de história ou tratado de sociologia seria tão impressivo, nem antes nem depois daquela noite, sobre os excessos ou ausências dos dois mundos que então avistávamos do alto de uma escadaria, vigiados por holofotes ameaçadores.

Depois do embate e das horas de silêncio, nada mais nos restava senão regressar. Regressar rapidamente para a nossa periferia. Fugir dali e dar graças aos nossos brandos costumes. 

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
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9 respostas a A mim também me deu o amok em Berlim

  1. Rita V diz:

    até frio senti com este teu texto
    😀

    • Diogo Leote diz:

      Rita, imagina o meu a olhar especado para o Muro. E, fora de mim, estavam uns bons trinta graus (lembro-me até de, nessa noite, ter dormido ao relento, a olhar para as estrelas, por falta de quarto em conta para dormir).

  2. Bernardo Vaz Pinto diz:

    O Amok afinal é frio e feito de betão….há obras que são, para o bem e para o mal, representações delas próprias, acho que o muro de Berlim era uma dessas….

    • Diogo Leote diz:

      E o curioso, Bernardo, é que marcam para sempre a cidade, mesmo que já lá não estejam.

  3. fernando canhão diz:

    • Diogo Leote diz:

      Impressionante relato, caro Fernando.

      • fernando canhão diz:

        Tenho 3 livros que me acompanham para todo o lado. O imitador de Thomas Bernhard, O Capitão Cap de Alphonse Allais e Fear and loathing in las Vegas, de Hunter S. Thompson. Basta pegar num deles para me situar no mundo. Quando se gastam, vou a uma mala preparada para o efeito e tiro um novo exemplar para substituir o que entretanto se gastou. As patetices dos alemães e outros russos da treta já pouco me incomodam, mas curiosamente fiquei em estado de grande incómodo quando visitei o ex presídio do Tarrafal. Não tem câmaras de gás nem a parafernália de locais equivalentes, é muito pior, parece um Portugal dos pequenitos coimbrão, com a calçada portuguesa a indicar a Sala de tratamentos, etc. e as celas com enormes letras a identificarem “angolanos”, “cabo verdianos”, etc. após ter deixado de ser utilizado para colocar portugueses da metrópole. O estado novo destruía as vidas sem a maldade ou assumida brutalidade de outros criminosos, funcionando como uma tuberculose ou outra doença. Acerca da praia do Tarrafal, adjacente ao presídio, tem um excelente restaurante e é muito procurado por membros do governo de Cabo Verde, devido, a como atrás disse, à qualidade da cozinha que é realmente excepcional.

  4. T. diz:

    Diogo, fui a Berlim 3 dias depois do muro cair, estava em Genebra no dia em que caiu e fui a correr mudar o avião , tinha 29 anos. Mas quando lá cheguei pus-me a olhar para aquilo e só conseguia olhar para o que ainda estava de pé – que era imenso – e hoje quando li o seu texto percebi que foi exactamente o que senti ainda que fosse com a alegria de ir e vir , toda a gente ia e vinha naquele dia.E íamos e vínhamos e perguntávamos em todas as línguas “como é que foi possível?” e voltávamos e ir e a voltar. Andei muitos anos para trás a ao ler o seu texto.

    • Diogo Leote diz:

      Teresa, se estivesse no centro da Europa nessa altura, não teria hesitado também em voltar a Berlim. E, se há coisa de que me arrependo na vida, é de não ter ido ao outro lado quando lá estive em 1986 (o visto, com mais ou menos dificuldade, conseguia-se apesar de tudo). Talvez tenha sido a emoção do embate do Muro que tolheu os nossos movimentos e nos fez querer logo regressar ao nosso refúgio seguro em Portugal.

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