A reveladora de monstros

Quanto tempo terá demorado Diane Arbus a conquistar a confiança do anão mexicano? O que terá dito às gémeas idênticas, deixando uma com vontade de sorrir e a outra com um ar mais sério? Como terá convencido o travesti a posar na sua própria casa com rolos na cabeça? Qual terá sido a senha que segredou ao porteiro do submundo? E destes seres embalsamados em papel, em quantos bate ainda um coração? As fotografias de Diane Arbus lembram pequenas janelas cortadas com um x-acto na pele da realidade.

Mostram-nos estranhas personagens de olhos postos em nós, à espera que as libertemos do seu mais útil segredo. Logo nós, que nada temos para lhes dar, a não ser o consolo do nosso olhar. Já repararam como parecem ter combinado entre si fazer-nos perguntas? Pedem-nos: troca de verbo. Olhar por ver. Olhar até ver. Acredita na minha história. Se ao menos houvesse um botão para aumentar o volume do som.

As fotografia de Diane Arbus parecem visões de vidas levadas em segredo debaixo das pálpebras. Pedaços de luz que furam a verdade. Invenções vivas. E têm a perturbante capacidade de nos aproximar do estranho de tal forma, que quase lhe podemos tocar com a ponta dos dedos. Talvez Arbus projectasse a sua tristeza e estranheza nos seus modelos. Ou se sentisse atraída pela estranheza e tristeza dos outros como por um íman: travestis, artistas de circo, seres tatuados, deficientes mentais, nudistas, anões, prostitutas, gigantes. Figuras consideradas excêntricas. Fora do centro, portanto.

Seres com almas desarrumadas, que até aí viviam escondidos na borda dos vestidos rodados e felizes que Arbus fotografava para as revistas de moda. Até ao dia em que desviou o olhar para a franja da sociedade e começou o seu bestiário humano, feito de criaturas fantásticas que sobreviveram aos guardiões da normalidade. Beautiful freaks de sangue azul, com aristocracia adquirida por terem passado o teste da vida. A alta sociedade do mundo das sombras.

Diane Arbus lembra Belle de A Bela e o Monstro. Sabe de olhos fechados a beleza interior que os seus modelos escondem. E lembra também Alice no País das Maravilhas, seguindo de olhos bem abertos o fio da sua insaciável curiosidade, para descobrir seres que vivem noutra escala e trazem uma falha ou um excesso. Variantes da sua humanidade. Como se a sua câmara fosse uma máquina de revelar monstros.

Mesmo nos modelos ditos normais, um menino louro com uma granada de plástico na mão, um bebé a chorar, uma adolescente assustada ou um jovem casal no parque, a perturbação e a angústia espreitam. Todos eles trazem, como escreveu Sophia, “um monstro em si suspenso”.

Mas voltemos a Diane e às suas fotografias, que arranham o nosso olhar. Sempre que olhamos para elas, reanimamos a sua tristeza. A deles e a sua. Vítima dos seus próprios pesadelos, abriu as veias de 48 anos na banheira com uma lâmina semelhante àquela com que foi abrindo as pequenas janelas a um mundo em que parecia sentir-se em casa. Quem sabe, a água onde o seu corpo inerte se revelou ficou tingida de um aristocrático azul. Fotografar pode ser triste.

 

Sobre Maria João Freitas

Graças às palavras, às vezes sou Alice e faço perguntas sem parar. Outras, sou a namorada (platónica, esclareça-se) de Wittgenstein. Quase sempre, penso que tenho a sorte de viver da (e na) escrita. Porque escrever pode ser triste, mas é melhor que ser feliz.
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6 respostas a A reveladora de monstros

  1. Rita V diz:

    A Mª João obriga-nos a ‘fazer’ uma coisa de que falava o (mestre) Ansel Adams:
    «A photograph is usually looked at – seldom looked into.
    Ansel Adams»

  2. Ana Rita Seabra diz:

    Gostei muito do texto e fiquei a conhecer melhor a Diane Arbus.
    Fotografar “seres com almas desarrumadas” pode ser triste, e que triste esse final da artista.
    Obrigado Maria João

  3. pedro marta santos diz:

    Interessantíssima impressão sobre o mundo de Arbus, que percebeu como poucas que a fotografia é uma arte do interior.

  4. Pedro Bidarra diz:

    camara clara a fotografar o escuro

  5. manuel s. fonseca diz:

    Fotografar sistematicamente a inusitada anomalia gera uma outra, não sei se pequena, normalidade…

  6. Maria João Freitas diz:

    Rita,
    Bela citação. É verdade que as fotografias têm uma porta (por abrir) porque não querem ser espreitadas apenas pela janela.

    Ana Rita
    Obrigada pelas suas palavras.

    Pedro (Marta Santos)
    Que definição tão feliz para a fotografia, essa da “arte do interior”. Mesmo (ou sobretudo) para as fotografias tristes.

    Pedro (Bidarra)
    Câmara obscura a revelar a luz (que se esconde nas sombras).

    Manuel
    Tem toda a razão. Nós, humanos, somos peritos em banalizar o maravilhoso. Mesmo que esse maravilhoso sejam monstros.

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