Amok

Foi em Berlim. Fui lá, primeira vez, em 1984. Jovem crítico. Entrevistar jovem cineasta. Poucos dias, de visita guiada, e era um mundo que respirava um ar – experimental, artístico, sexual – que não existia nesse Portugal que se ia roçando pela Europa. Mas havia outra coisa: um Muro, havia sempre um Muro a atravessar-se. Berlim era uma ilha sofisticadíssima e apertadíssima, com um Muro à volta.
Não admira que tenha descoberto o amok. Acontecia, em geral, ao fim de semana. Um tipo, um qualquer tipo, passava-se e desatava, raivoso, a conduzir como um louco por cima dos passeios, contra os sinais e com gente (pareciam pessoas e eram pessoas) a voar para dentro de protectoras portas. Pensei que era lenda. Até ver, à frente destes olhos que algum dia um jacaré há-de comer. Malhas que o Muro tece. Era, tinha de ser, insuportável tanta insularidade murada.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

9 respostas a Amok

  1. Ana Rita Seabra diz:

    First we take Manhattan, then we take Berlin – parece que oiço o Cohen singing

  2. Rita V diz:

    O seu texto levou-me a encostar o nariz ao (ex) muro

  3. Diogo Leote diz:

    Manuel, fiquei curioso: onde foste desencantar esta versão (ou será mesmo o original, que o Cohen fez versão?). Este Bukowski será alguma coisa ao Charles? E a tua história de Berlim, que já conhecia por ti, fez-me lembrar a minha, que contei no ETGM e que talvez recupere aqui.

    • manuel s. fonseca diz:

      Olá bem regressado Diogo, sabes que foi uma coisa de youtube. Também não conhecia. Não é muito bom, mas é gozado….

  4. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Não deve ser fácil viver entre muros, que o digam os berlinenses e os imperadores chineses…é bem melhor termos o mar como limite…

Os comentários estão fechados.