Brigas

O meu avô, conta-me a minha mãe, negociou cavalos na Argentina e foi contrabandista (tabaco, quilos de tabaco em mulas e muita manha) na fronteira das Beiras com a espúria terra de Espanha.

Não sei porquê (sei: influência do tio marinheiro à la Conrad que enriqueceu no Oriente e escolheram para meu padrinho do primeiro dos sacramentos) não levei com o apelido dele no meu nome – ficou o S da minha avó materna. Tenho tanta pena. Manuel chamava-se este meu avô e de apelido, como eu  deveria também chamar-me, Brigas.

Do tanto que eu gosto que me tenham levado menino e menos do que moço para Angola, só tenho pena de que, pequenino, não tenha conhecido, para que me tivesse educado em cavalos e contrabando, este meu avô, de tanto tabaco e, dizem-me, bom vinho. Vi-lhe a sombra, a desistente sombra, à lareira, no Natal de 73. Falava pouco e sorria.

Haja Deus: não tenho mau vinho, cada vez falo menos e sorrio mais.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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9 respostas a Brigas

  1. fernando canhão diz:

    Já o meu avô materno abriu uma retrosaria, isto para ter alguma credibilidade antes de casar com a minha avó já previamente raptada para o efeito. Larga entretanto a retrosaria e pira-se para a Europa com um irmão e por muitos anos. O que eles fizeram não é irrelevante mas prefiro não o revelar. Acabou os seus dias em casa dos meus pais, e tinha por mim uma enorme simpatia. Odiava todos os outros lá de casa, empregada incluída. Deixou-me um anel e um relógio Zenith. O meu pai, luz dos meus olhos por motivos não é irrelevantes mas que prefiro não revelar, tinha uma vida muito cheia, sempre teve relógios da treta. Quando morreu o Sr. da Agencia Barata devolveu-me uma Cross com o logótipo do banco de Angola que por pouco ia para a Cova. Mas faltava uma coisa que me desse credibilidade como cidadão órfão. Numa venda de caridade, vai para 3 anos, e no meio de lixo descobri um relógio Cortbert de 1946, pelo qual paguei 5 euros. Acompanha-me desde então para todo lado, o que não é verdade, e apresento-o como ultima recordação do meu pai, passado em mão numa madrugada minutos antes de falecer. Fico sempre muito bem visto e por vezes invejado por gente sem sentimentos ou educação.

    • Fabulástico, não podia ter gostado mais, advirto-o: roubarei. Mas para uso literário – o que quer que isso seja.

      • manuel s. fonseca diz:

        Mesmo de ferias, a tao honrosa visita teria de agradecer e autorizar roubo e futuras utilizacoes, literarias ou afins. A Eugenia manda! Visite_nos sempre e traga o cao.

    • manuel s. fonseca diz:

      Fernando, já estou com inveja de si.

      • fernando canhão diz:

        Nonsense, Dr. Frankenstein não inveja a criatura. Se lhe contar a minha vida, iria certamente roubar para me dar.

  2. Margarida diz:

    Somos todos “inventores de passados”!

  3. Luciana diz:

    Rir-se, ainda mais se de si mesmo, é belo legado, memória ou invenção.

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