Condomínio Eurídice

um oceano com alzheimer, querido: plácido, sem ondas, ideal para se brincar de nadar ao modo do tanque na fazenda dos avós. pés ante pés de água esquecidos das terras que lamberam, das quilhas que os chagaram. e onde não foram bem-vindos, a sandália da onda enxotou da sola qualquer resquício, para que não se misturassem os sóbrios e os insanos sob as mesmas árvores à praia. mas agora, que a sombra e o corpo têm algo em comum – a temperança, o riso – evade-se do esquecimento à crista rubra da onda, sob a primeira réstia, um nome (qual mesmo? – ela indaga) enquanto o galo escava o dia com a aspereza de esporas.

*

Às vezes, ia até o pequeno apartamento dela sem nenhum propósito. Como se ela, em outro tempo, estivesse submersa, diluída naquele espaço. Deitava-se um pouco. Sentia o cheiro dos panos. Remexia nas gavetas: cartas, postais, fotos.

Era algo esporádico, de quandíssimo em vez; e deixava as coisas numa perfeição incondicionada: copos e pratos lavados, cortina semi-cerrada. Exatamente como quando se encontravam, em outro dia da semana, e a presença dela.

A noção de tudo estar no lugar sob a penumbra, bem vincado nos armários. O aroma de imaculada ordem. Limpeza. Mas também de algo indizível: uma espécie de cheiro de mulher ambiente. 

Certa tarde, após um almoço de negócio, largou-se para lá. E na poltrona, o nó da gravata lasso, revirava um livro com a caligrafia dela às margens, e uma flor aromática desidratada, em cheio, entre costuras. O disco na vitrola revirava trompetes. O trânsito a seguir ao largo, tenso, muito lá abaixo e branco. Embora às vezes reverberasse tênue, nos vidros da janela. 

Foi quando a fechadura deu o alarme. Ele estava na própria saleta, sem sapatos. Convulsionou-se e ergueu-se a meio. Ligeiramente tonto. Sabia, não podia ser a faxineira. Mas de lá não arredou: respiração entrecortada; olhar longo, de flagrante, rumo à porta. 

Porém não era ela, senão uma jovem loira, abundante – uns dois anos a diferença? – ligeiramente sobremaquiada. 

Tomaram café no balcãozinho da cozinha. Virados para os azulejos da parede. Uma nesga de cidade doze andares lá fora. 

A loira, casada, era amante do atual marido da inquilina. Eles eventualmente encontravam-se por lá, também. Do mesmo modo que eles outros. Quase no mesmo horário deles outros. Só que em outro dia da semana. E, claro, com outros pseudônimos no Facebook. Não deixava de ser conveniente, ponderaram. 

Enquanto enxugavam a louça, riam muito daquele inusitado arranjo. 

Propiciado, no caso dela, pela prontidão com que um torpedo no celular cancelara o rendez-vous aos quarenta e cinco do segundo. E, então, ela que já se encontrava no quarteirão, resolveu subir, pousar um pouco. Tomar um banho, um café. Em casos assim melhor não pensar forte.

Riram muito daquilo tudo. 

Depois foram para a vasta cama, que ocupava o quarto quase inteiro, e na penumbra urdiram surpreendentes núpcias. 

Eles, os outros. 

Ela apreciou bastante certa carícia. Apesar de não ter confessado que já a havia provado. Uma única vez? Não duas, é fato. Faz tempo. Em outra cidade. 

Talvez. Talvez tivesse contado em outros tempos. Na idade deles, quem tem mais disposição para contar? Detalhes. Podem ser tão pequenos, embora sejam bem ao contrário. E, contudo, parece melhor vivê-los avidamente: 

-E o que seria da gente: se não esquecesse, lembrava? – ela disse. E penteou, prendeu o cabelo, retocou o batom com uma rapidez surpreendente. Parecia suave, profissional. 

Levou de lembrança o pequeno chaveiro, com uma estrela gravitando no raio da meia-lua.

Sobre Ruy Vasconcelos

Nasci mais ou menos no Brasil. Vivi em alguns lugares distantes. Em trânsito. Em transe. Em tradução. Por aí, ocupado com palavras. Palavrinhas, palavronas. Conheci estes amigos portugueses um blogue atrás. E gostei do que li.
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7 respostas a Condomínio Eurídice

  1. Panurgo diz:

    Bonito. No fim de tanto esquecimento lembrei-me de uma frase que li ontem, do Trevisan: “é um enterro, mas não há morto.”

  2. Rita V diz:

    A Eurídice que eu conheço levou-lhe tudo, gostava de jogar … jogou o dela e principalmente o dele. Acabou tudo quando não havia mais nada para trocar.
    Ele quis voltar para a mulher, o filho morreu sem ele saber e era já tarde para começar.
    ‘As mãos de Eurídice’, Bloch, Pedro.
    🙂
    Belo texto primo, muitas saudadessss

  3. ~CC~ diz:

    Tão bom, tão bem escrito!
    Tem que ser mais vezes triste aqui…
    ~CC~

  4. Ana Rita Seabra diz:

    Lindo texto!

  5. Diogo Leote diz:

    ^Ruy, as saudades que eu já tinha de tanta musicalidade na escrita.

  6. Ruy Vasconcelos diz:

    primíssima rita e bravos amigos – cc, ana rita, diogo, panurgo – gratíssimo pela generosa leitura. não é que esses portugas sabem como contentar a gente! ah, saudades dessa terrinha imensa!

  7. Bernardo Vaz Pinto diz:

    A vida tem muito de coincidência, de acaso. Quem tudo programa, muito perde. Está ali um pouco de tudo…”parecia suave, profissional.”

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