Cresce, Morre e Ressuscita

 

“Eu Não Sou a Tua Princesa” de Eva Ionesco

Há três motivos para fugirem deste filme como quem escapa da peste negra:

1 – Nele, circula em roda livre a diva da elite europeia monoteísta, “la grande dame” Isabelle Huppert, capaz de ser uma actriz de excepção quando devidamente controlada e a mais insuportável das cabotinas quando deixada em liberdade. Em “Eu Não Sou a Tua Princesa”, Huppert cria a sua versão psicótica de um cruzamento genético entre Marlene Dietrich e Lucrécia Borgia, e o resultado é mais do que penoso.

2 – A história é em parte autobiográfica, baseando-se na relação entre Eva Ionesco, a realizadora, e a mãe, Irina, que publicou em 1975 um livro de fotografias artísticas da filha em composições barrocas e poses provocantes, entre o erotismo e a pornografia infantil – Eva tinha menos de 10 anos, e a mãe perderia a sua custódia em 1977. Isso concede a Eva autoridade moral, mas essa autoridade desfaz-se numa composição “artística” tão extravagante e desmedida como as fotos encenadas.

3 – Sendo implacável no retrato da mãe –Hanah Giurgiu/ Huppert poderia ter saído de uma notícia do “Correio da Manhã” escrita por uma jornalista da “Vogue” – “Eu Não Sou a Tua Princesa” acaba por cair no mesmo voyeurismo do mundo privado que revela, aproximando o filme do erotismo infantil que procura expor.

Anamaria Vartolomei, a menina que interpreta Violetta, é dolorosamente brilhante na composição de uma criança que é atraída pela mãe como uma estrela por um buraco negro. Os quatro pontos da classificação deste filme vão para ela.

 

“O Moinho e a Cruz” de Lech Majewski

 “A Procissão e o Calvário” é uma das obras-primas do mestre flamengo renascentista Pieter Bruegel, mais conhecido por Bruegel, o Velho. Há cerca de cinco centenas de personagens no quadro original e este “O Moinho e a Cruz” retrata uma dúzia delas, tendo por base a monografia do mesmo nome sobre o quadro, assinada pelo crítico de arte Michael Francis Gibson. É uma origem singular para uma longa-metragem, mas o resultado ficaria melhor na sala de projecções de um museu. O polaco Lech Majewski funde cenários pintados com o “blue screen” digital e cria uma espécie de “instalação narrativa” (sendo que a palavra “narrativa” é aqui a menos relevante) onde as raízes da violência, a ocupação da Flandres pelos espanhóis e a génese do quadro (Rutger Hauer interpreta o próprio Bruegel) são alvos de um olhar minucioso. Pessoalmente, preferia um filme baseado em “Paisagem Com a Queda de Ícaro”, ou no extraordinário – e mortal – “Caçadores na Neve”. “O Moinho e a Cruz” não substitui uma visita ao vienense Kunsthistorisches Museum e, contendo algumas imagens fascinantes, é quase tão enfadonho como ver tinta a secar.

“A Árvore” de Julie Bertuccelli

Boa estreia da antiga assistente de realização de Kieslowski, Iosseliani, Bertrand Tavernier e Rithy Panh, “A Árvore” é um filme ambicioso. Baseado no romance de Judy Pascoe, “Our Father Who Art in the Tree” junta franceses e australianos na história de uma família do campo, constituída por George, o pai, Dawn, a mãe (a sempre extraordinária Charlotte Gainsbourg) e quatro filhos. Vivem numa casa frágil mas sustentada pelas raízes viçosas do amor mútuo e de uma enorme figueira. Mas George, de quarenta e poucos anos, morre de um ataque cardíaco e o equilíbrio colapsa. Simone, a filha de 12 anos (Morgana Davies, mais uma revelação infantil em 2012) fica convencida de que o espírito do pai se resguardou na árvore centenária. Julie Bertucelli aguenta bem a força da metáfora – a árvore e os seus ramos como espelhos da força e agrura familiares – e dá-nos um filme de espírito sensível, por vezes exagerado na carga telúrica (a tempestade que destrói a casa e desenraíza a figueira é a provação que reinventará os laços entre Dawn e os seus filhos) mas sempre atento aos pormenores do rosto quase infantil de Gainsbourg. Uma grande actriz? Esta.

“Corpo Celeste” de Alice Rohrwacker

Há pontos em comum entre “Corpo Celeste” e “A Árvore”. Um e outro são obras de estreia das suas realizadoras, versadas no trabalho documental. Ambos são particulares “coming of age”, relatos dessa maravilhosamente traumática passagem da infância para a adolescência de duas raparigas. Mas “Corpo Celeste” é especial, e os filmes especiais são sempre bem-vindos. Marta (Yle Vianello, uma não-profissional que parece ter sido forjada nos Alpes e educada ao ar livre) é uma miúda de 13 anos cuja família acaba de se mudar da Suíça para as profundezas do sul de Itália. É como passar da Terra para a lua, ou da razão simples à complexidade das emoções: Marta tem pela primeira vez o período, uma mancha de sangue numa cidade de cinzas industriais, desfaz-se da infância como quem atira o cadáver de um familiar ao rio e prepara-se para o ritual da confirmação na nova igreja. A religião apresenta-lhe a estranheza da fé, mas surge também como um resumo do desejo e da mesquinhez humanas (Santa, a professora da catequese, nutre sentimentos pouco apostólicos por Don Mario, o ambicioso padre da paróquia). Como uma vidente em crise, ela observa os céus tormentosos da Calabria e os esqueletos dos guindastes urbanos do alto de um terraço, e uma viagem com Don Mario irá revelar-lhe o tal novo mundo: a adolescência. A realizadora Alice Rohrwacher, auxiliada por Hélène Louvart (a directora de fotografia de “Pina” de Wenders) mostra um talento pouco usual na construção de atmosferas, entre o paganismo e os ideais do firmamento. O seu olhar torna-se o olhar de Marta, uma europeia em crise. Mas há esperança.

Publicado na revista “Sábado”

 

 

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
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7 respostas a Cresce, Morre e Ressuscita

  1. Luciana diz:

    Pedro,
    é sempre um prazer lê-lo, pelo que convoca de desconhecido e inusitado ao meu olhar. Sinto-me, sempre, em aprendizado. Já anotei tudo, tudinho, e ainda trato de difundir entre amigos.

  2. Rita V diz:

    Este seus textos são caramelos coloridos embrulhados que dá gosto desembrulhar

  3. pedro marta santos diz:

    Agradeço embevecido as vossas palavras, caras amigas.

  4. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Pedro, que saudades destas linhas que nos deliciam suavemente, libertando vontades de irmos a correr ao cinema, ou ficarmos refastelados em casa, fugindo a sete pés da peste que também assola a sala escura!

  5. Ana Rita Seabra diz:

    Temos “novos” grandes talentos a conhecer.
    Deixou-me curiosa 🙂

  6. pedro marta santos diz:

    Mighty glad to be of some help, my friends.

  7. Pedro Bidarra diz:

    Belas e bem escritas dicas. Lá romarei às respectivas salas

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