Cromos para a troca

Bem sei que se pode invocar o Cânone e citar só irrecusáveis monstros como Shakespeare, ou a toda-poderosa divindidade de Tolstoi ou Sófocles. Mas hoje apetece-me ir buscar a íntima, às vezes ligeira, às vezes divertida, colecção de cromos. Ponho em cima da mesa os que tenho para a troca. Os cromos de que gosto sem querer saber de hierarquias. Os cromos são o resultado de leituras livres, descomprometidas, em tardes ou noites que sairam muito bem e muito boas.

Em esquisito, gosto do Conrad e por ele mato e morro. Gosto, com febre e arrepios, do Roth quando faz dos velhos (impotentes e incontinentes, até) heróis. E não gosto do John dos Passos. Gosto dos “Sinais de Fogo” do Sena. Gosto perdida e incompreensivelmente do Faulkner, embora saiba muito bem porque tanto gosto das “Palmeiras Bravas”. Ah, da “Lolita”, gosto, claro que gosto, como quase toda a gente gosta. E não gosto do John dos Passos. Gosto do exasperado e obscuro Céline e, venturoso e aventuroso, do Cendrars. Se dissesse Borges, Eça, Camilo ou Pessoa já era o cânone a falar, por mais que sejam minhas as razões de gostar eu tanto deles.

Gosto, digam lá o que disserem do Miller. Gosto, por muito inóspito que aquilo tudo seja, do Houellebecq. Instituí, para meu exclusivo conforto, a categoria de “honestíssimo escritor”. Steinbeck e Somerset Maugham (o “Fio da Navalha”, o “Fio da Navalha”!!!) são os dois melhores exemplos. Vargas Llosa é, nos que ainda se aguentam em cima de duas pernas, outro. E, nestas alturas, que se lixe Goethe.

Já ficam com uma ideia do que me passa pela cabeça e pela cansada vista. Se por descuido ou distracção se fiarem em mim, vejam, das “Vinhas”, o filme do Ford que é “melhor” do que o livro e leiam o “East of Eden” do Steinbeck que é melhor do que o lindo filme que o Kazan fez com o James Dean. Isto é o que me apraz dizer, numa noite de férias, depois de um recatado Syrah da Dona Ermelinda. E se querem mesmo divertir-se leiam “Tortilla Flat”, a que a Livros do Brasil deu em português o funny título de “Milagre de São Francisco”. É boémio. Digo eu,  para lhe dar um qualificativo que literariamente se aguente.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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5 respostas a Cromos para a troca

  1. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Pois não li “Tortilla Flat”!! A prateleira dos “livros que não li mas que anseio por ler” vai aumentando, e ocupa cada vez mais espaço. A Califórnia de Steinbeck irá ficar-me na memoria para sempre, assim como ” Travels with Charlie”, um grande livro de “viagens”…bela colecção de cromos…

  2. Nina diz:

    No fim de ler este seu texto e, devido à hora, li-o como quem bebe cinco shots de uma assentada. Caí zonza mas feliz! O senhor pegou-me pelo braço e sem que eu tenha dito não vou por aí, arrastou-me literalmente por quase todos os autores e respectivas obras que li nas minhas aulas de literatura inglesa e norte americana. Como sinto bem tudo o que escreveu!

  3. manuel s. fonseca diz:

    So para pedir que não levem a mal, mas estou de férias… não parecendo, mas estou mesmo… Obrigado pelos comentários

    • fernando canhão diz:

      Dê-lhe forte no Syrah, e se por acaso o tem por perto releia o “Bairro da Lata” de Steinbeck. Foi nele que descobri que se fazem batidos de cerveja com leite. Intragáveis. Para começar a manhã, “O ente querido” de Evelyn Waugh no dia em que faria anos Amelia Earhart será a minha sugestão.

  4. Ana Rita Seabra diz:

    Estando ou não de férias tem sempre uns posts que nos dá sempre um grande prazer em lê-los!
    Vou gastar uns tostões com uns livritos que fala aqui e continuação de boas férias 🙂

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