Crónicas australianas 2

O AUSTRALIANO

Já tinha estado em sítios assim mas nunca em nenhum como a Austrália.
O Rio de Janeiro é assim, tal como Amesterdão, que foi a primeira cidade em que percebi a coisa. São sítios — às vezes o sítio não é um espaço, é um tempo, normalmente o Verão — onde se sente, uma vitalidade fora do normal e que impede uma pessoa de crescer; não fisicamente, pois isso é inevitável, mas mentalmente, na atitude e no comportamento. A primeira vez que pensei nisto, que há sítios com o poder de nos fazerem esquecer da idade, foi em Amesterdão. Os velhos, ou pelo menos muitos dos velhos que por lá vi, comportavam-se como se tinham comportado a vida toda, como se a juventude nunca os tivesse acabado. Na maneira de vestir, no corte de cabelo, ou na sua ausência, na vitalidade com que pedalavam as bicicletas, nas conversas que tinham nos bares que frequentavam, e nas músicas que ouviam, era evidente que estavam sob o efeito de uma anormal vitalidade para a idade.
Na Austrália esse poder está no seu máximo e os velhos que vejo por aqui, comportam-se como se a adolescência, esse lugar feliz, não tivesse acabado nunca. Vê-se na maneira como falam, como riem, como se vestem e, claro, como surfam.
É, talvez, este estranho poder que explica a obsessão do australiano pelo desporto, pela contínua boa disposição e pelos elevados níveis de testosterona que exibe – até a australiana parece, às vezes, ter mais de testosterona do que da outra hormona que deveria ter – e explica, também, a sua imensa propensão para socializar e fazer amigos: mates como se diz por lá. Trata-se, sem qualquer dúvida, de síndrome de Peter Pan.
Surfei em Catherine Hill Bay, na costa Este, e em Gracetown, na costa Oeste, em dois picos frequentados pela comunidade local. O que vi na água foram velhos, os seus netos, os seus filhos, todos a competir por cada onda, numa espécie de campeonato transgeracional sem tensão nem má disposição. Tão diferente da nossa costa, onde toda a gente parece velho, até o adolescente. Onde toda a gente se queixa até o surfista que não faz mais do que viver na praia.
Em Gracetown entrei na água, fui cumprimentado e bem vindo pela comunidade local com um sorridente hi mate. Ninguém, quando a coisa começou a sair-me bem e fiz três ondas de seguida, me fez mau olhado à penicheiro ou cara de mau à sagreiro. Antes pelo contrário. Ouvi um simpático good wave mate e fui logo dropinado por um muito velho Peter Pan, de sorriso rasgado numa diplomática espécie de “não-te-estiques-muito”. É a diferença entre o Peter Pan, que quer estar bem com a vida até morrer, e o velho do Restelo, que é o que está mal com a vida desde o nascer.
Em Yallingup, WA, fui abordado no parque de estacionamento por um australiano que me perguntou, com muito má cara, se era a primeira vez que eu surfava ali. Desconfiado, disse-lhe que sim. Ele então ofereceu-se para guiar-me até ao outside porque o sítio não era fácil. Afinal a má cara era defeito, não era feitio. É diferente aqui.
Claro que todas as moedas têm outra face e a desta jovialidade e adolescência perpétua é o serem desbocados e brutalmente honestos. Eles e elas dizem tudo, como os malucos.
– Are you Brazilians?
– No, we are Portuguese.
– Good. ‘cause we don’t like ‘em
– Why is that?
– They steal our women.
Ia a caminho da água com o Marcelo quando o nosso tagarelar lusitano levantou um sobrolho australiano, seguindo-se o diálogo acima reproduzido.
Que o australiano, o de extração anglo-saxônica, seja meio xenófobo, não admira. É uma característica da nossa espécie que aparece por todo o lado. Nós também não somos melhores. O que é admirável é que o australiano não tem filtro nem autocensura; o superego não funciona bem.
“Que raio!” pensei enquanto remava para o outside, “então o australiano não gosta do brasileiro, di-lo, e ainda o justifica com a admissão da sua má performance com as mulheres?”
Doutra vez perguntaram-me se era francês. Tendo respondido, “sou português”, logo veio o comentário: “That’s good. Better then French.”.
Pelos japoneses, por exemplo, nutre, o australiano, uma evidente irritação. Na água são dropinados com o maior desprezo e sem direito a pedido de desculpas, vi eu em Coolangatta. É como se não existissem. Deve ser uma arrelia histórica, coisa do passado e do Pacífico.
Claro que pode dar-se o caso de eu estar completamente enganado. Se calhar, os comentários que ouvi e as estórias que me contaram não têm relevância estatística, mas a verdade é que o país está cheio de estrangeiros e na praia, como não podia deixar de ser, está cheio de brasileiros o que incomoda visivelmente o australiano médio, ou talvez o abaixo da média, pois vê seu país invadido por gente que fala mal inglês, não é protestante e não precisa de tanto protector solar. No fim é uma espécie de cá se fazem, cá se pagam. Os japoneses tomaram conta do parque automóvel e os brasileiros da praia e das mulheres. Toma lá, pelos aborígenes.

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu): “Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”
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4 respostas a Crónicas australianas 2

  1. Panurgo diz:

    E as mulheres de lá? Vale a pena?

  2. Pedro Bidarra diz:

    Absolutamente, caro Panurgo. É emalar a trouxa e cavar, com dizia o bardo Afonso

  3. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Fiquei a pensar se será de ser um pais novo, mas a Holanda não o é…ou se é de estarem para lá do sol posto, como quem diz “estamos a cagar para vocês europeus”, o que explica a ligação mais tensa com os japs…seja o que for não conheço, as paisagens parecem ser deslumbrantes, sem esquecer que “they really have a funny accent mate…”

    • Pedro Bidarra diz:

      Não sei o porquê da coisa. Se é a geografia do lugar, o seu feng shui. Sei que há sítios onde se sente que tudo é possível. Em Los Angeles também é assim dizem-me amigps que lá vão muito. A última vez que lá fui, faz tempo, muita coisa foi possível. Se me lembra-se de tudo escrevia uma crónica … eh eh eh

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