Crónicas australianas 3

QUANDO FUGIR, FUJO PARA AQUI

A Austrália é um continente rodeado de swell por todo o lado. A única dificuldade é escolher o sítio porque o swell, esse, está lá sempre à nossa espera, grande, forte e bem formado. E há tanto sítio por onde escolher. A água quente de Byron Bay, sítio de lojinhas e restaurantes, uma espécie de Ibiza com ondas. Ou Coolangata, a Hollywood do surf, com Snapper e D-bah e uma vida que lembra o Rio de Janeiro, com menos favela e assaltos mas, não há bela sem senão, menos samba — dizia-nos um brasileiro que a Austrália é o Brasil que deu certo… Ou a Tasmânia para o surfista menos dado aos prazeres da civilização, como o banho diário, e mais dado à comunhão com a natureza crua, os seus cheiros e cobras que matam em meia hora se entretanto não chegarmos ao hospital mais próximo para tomar o antídoto – o que é o mais provavél. Em qualquer dos casos o mar está lá sempre a funcionar. Eu, se hoje tivesse que fugir de Portugal, por me recusar a pagar mais impostos a um Estado que até agora só soube esbanjar todos os que, ao longo da vida, paguei, fugia para Margaret River, na West Australia.
A melhor maneira de descrever aquela faixa costeira é dizendo que se trata de uma mistura de Costa Vicentina – com penhascos, arribas, encostas cheias de vegetação e praias de areia – com o Douro. É um sítio mágico, onde tudo é limpo e ordenado, sem casas foleiras, nem sevilhanos a deixar papel higiénico pelas dunas, porque mesmo a praia mais remota tem uma casa de banho que funciona. As pessoas são simpáticas, calmas (com excepção de uma ou outra altercação de pronto resolvida com a autoridade de uma caçadeira). Há bons restaurantes, casas de chá com scones e adegas onde se pode provar e comprar bom vinho. Muito bom vinho, inclusive castas portuguesas. Há pequenas baías com povoações pequenas onde a mercearia serve também de restaurante e bomba de gasolina. O clima é fresco e a água morna. Mas o melhor é mesmo o mar.
Não sei se a plataforma continental naquela zona é mais curta que o normal, sei que o swell do Índico chega poderoso e parte na laje em esquerdas e direitas perfeitas que parecem nunca acabar. As praias são de areia, grandes, desertas e decoradas com cruzes no cimo das dunas, em memória dos surfistas atacados por tubarões. Digo-vos que naquele mar limpo e azul profundo, remar para uma onda, olhar para a duna e ver uma cruz que sabemos ser em memória de um surfista que esteve onde estamos, é uma experiência espiritual, que nos faz acreditar na existência de algo muito maior que nós: o tubarão branco.

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu):
“Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”

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7 respostas a Crónicas australianas 3

  1. G.Rocha diz:

    Pedro, estava quase, quase a partir em direção a Austrália …. mas…. tubarões ?!?!? respeito….mas nem por sombras me aproximo …. pronto lá fica a Austrália para outra vida 🙂

    • Pedro Bidarra diz:

      Há sites por ai com as estatísticas de ataques de tubarão pelo mundo. São muito menos que as mortes na estrada. E se for dar só um mergulhinho não parece haver problema. Vá

  2. Rita V diz:

    Estava a pensar como é que podia ir à boleia sem te pesar muito. Levas-me no sidecar? Não bebo, não fumo, falo pouco, que tal?
    Ah! E tenho carta de moto.
    😀

  3. Ana Rita Seabra diz:

    Bora bora fugir…só é pena haver cobras e tubarões! Tenho pavor

  4. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Não há bela sem senão…gosto da ideia de fugir dos impostos, também podíamos mandar para lá alguns políticos, sem explicar o que eram as cruzinhas….

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