Dias de noites felizes

Tinha para aí 15 anos e, sabe Deus porquê, os meus pais deixavam-me sair com dois malucos, um comando, outro meio refractário à tropa, nas noites coloniais de Luanda. Eram noites de cerveja, bowling, música, de vez em quando um prego (porra, comer parecia mal e a mim deixavam-me só por eu ser miúdo), e uma conversa interminável, irónica, surreal, uma filosofia de palmeiras, um riso que saltava angústias como hoje se faz skip para não se mamar com publicidade na net. Em poucas palavras: “Foda-se, naqueles dias eram tão felizes as minhas noites.”

Sei que eram para aí 4 da manhã e já não havia o raio de um boteco, tasca, bar, um merceeiro que fosse a vender cerveja. Apontámos o azimute à Shell da estrada de Catete (eu acho que era uma Shell e era nova, mas ainda hei-de perguntar a um dos dois malucos) que àquelas wee wee hours filhas da puta de uma terça-feira era o único sítio em que uma mangueira enchia o depósito e outra despejava finos para saciar o cio das almas. Estava lá o Elias e eles conheciam o Elias. Foi o dia em que eu, o puto branco, pula, polaco, copo de leite, me senti orgulhosamente e muito preto. Elias diá Kimuezo era o mais angolano dos cantores. Mais do que os Kiezos, os Jovens do Prenda, os Negoleiros do Ritmos, os Gingas, fosse quem fosse, Elias era a voz quimbunda de Angola. Cantava como uma luva rouca, o reco-reco a rasgar um bocadinho a linha melódica.

Eu estava sentado a ouvi-lo falar e era como se o homem cantasse. Um belo sotaque de musseque, sorriso fino, a voz devagarinho de que a nocal ia fazendo um afluente da felicidade. Ao lado de Elias, quanto mais nocais ia bebendo, mais me parecia que falando ele cantava e eu ouvia “Ressureição”. Ainda hoje, esta canção de óbito, é minha canção da vida. De vida.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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8 respostas a Dias de noites felizes

  1. Esperança Pinheiro diz:

    Soube tão bem este ressuscitar de memórias de sons, de imagens, de momentos vividos.

    • manuel s. fonseca diz:

      Palpita-me que a Esperança não é bem deste tempo… Ainda bem que gostou.

  2. Benvinda Neves diz:

    A idade traz-nos “sanidade “e inibe-nos das loucuras da adolescência e dos vinte…
    Quem não as viveu não sabe o que perdeu.
    Se tivesse um “poder “ que me devolvesse a loucura e a insanidade mantendo-me o sabor, tenho a certeza que não hesitaria em usa-lo.

    • manuel s. fonseca diz:

      Benvinda, tem razão, o que é bom é que o passado se faça presente, não é? Voltar ao passado não interessa nada…

  3. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Manuel, acabo de voltar dessa terra onde a a memória é feita da poeira que venceu o tempo. A olhar a baía espelhada e lisa, sobre a terra quente, sinto que a história se perde agora na euforia dos dólares chineses e árabes, e já ninguém sabe cantar…mas a música do Elias traz uma esperança qualquer…

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