Do you still want to be adored?

A questão é: do you still want to be adored? Ou melhor dizendo: ainda há quem se atreva a gritar a plenos pulmões I wanna be adored? Muito mais do que um tema musical, o I wanna be adored que os Stone Roses deram a conhecer ao mundo em 1989 era todo um manifesto, todo um programa de vida. Então, respirava-se uma atmosfera de puro hedonismo, em que cada um se entregava, sem limitações, à procura do caminho mais fácil e directo para o prazer. A Manchester desses tempos, muito apropriadamente rebaptizada de Madchester, alimentava o culto do individualismo, de um individualismo sem culpa exacerbado pela sociedade de consumo que prometia a felicidade ao virar da esquina. E eles, os Stone Roses, tal como os seus vizinhos da Factory Happy Mondays, funcionavam como catalisadores do estado de alma desses anos loucos através do hino I wanna be adored.

Está claro que tudo isto tinha de acabar mal. Ao segundo álbum, os Stone Roses de pés de barros desmoronaram-se por completo, deixando por confirmar os créditos do primeiro e brilhante álbum, que prometiam torná-los numa referência para os anos vindouros (o que não impediu o polémico Damien Hirst de sobre eles ter dito recentemente, com todo o exagero do mundo, que “foram mais importantes que Picasso”).

Muita drogaria depois, os Roses voltam ao activo, tendo a apresentação da banda ao vivo dado azo a uma histeria que nem o mais nostálgico adepto julgaria ser possível (250.000 bilhetes vendidos em pouco mais de uma hora é obra). E hoje, a partir das 23.10, ali pelo passeio marítimo de Algés, Portugal ficará a saber se ainda há quem queira gritar o grito de guerra da banda e do seu frontman Ian Brown. Vai uma apostinha que vão ser milhares, dezenas de milhares, a deixarem de lado, ainda que por breves minutos, o lema dos sacrifícios em prol do bem colectivo para se entregaram à ilusão da auto-estima que é I wanna be adored?

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
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6 respostas a Do you still want to be adored?

  1. manuel s. fonseca diz:

    A felicidade não só está ao virar de cada esquina, como também em cima de um palco.

  2. Diogo Leote diz:

    E palmas para o artista que, ainda que por breves minutos, consegue passar a ilusão de felicidade para a plateia.

  3. Maracujá diz:

    Confirmo as suas suspeitas, caro Diogo, na verdade éramos mesmo milhares, não muitos Portugueses, a gritar pela nossa abençoada auto-estima na passada sexta feira, no passeio marítimo de Algés. Garanto-lhe que o investimento feito apesar da pesada crise que atravessamos, valeu pelo prazer proporcionado pelos Stones, que vi pela primeira vez, e pelo espírito de salutar folia que se viveu naquele recinto.

    • Diogo Leote diz:

      Não estive lá (guardei-me para os Cure e Radiohead) mas já me chegaram relatos da noite. Por mais díspares que as opiniões tenham sido (e foram mesmo), numa coisa toda a gente esteve de acordo: o Ian Brown esteve mais desafinado do que nunca. Nada que destoasse, portanto, face ao clima de desafinação geral em que vivemos.

      • Maracujá diz:

        Foi a primeira vez! Se desafinaram!? Talvez um pouco, mas o espirito estava lá e isso bastou para aquecer a plateia, e sendo eu uma perfeita ignorante no que toca a musica, e isto fica aqui entre nós, não me importei nada, caro Diogo!
        Quanto aos The Cure ficará para sempre, aqui dentro de mim, uma mágoazinha por não ter lá estado a ouvir muitas das músicas que desenharam a minha adolescência, como esta, the special one…
        http://youtu.be/RS_ux2H473I

        • Diogo Leote diz:

          Os The Cure foram, desde a primeira hora do Seventeen Seconds, a minha banda preferida nos anos 80. Fui absolutamente devoto do Robert Smith e de tudo o que eles fizessem. E, ainda bem que, no sábado, não se limitaram a cantar os hinos pop (que são muitos e bons) como o Just Like Heaven. Ainda bem que revisitaram o passado todo e o seu lado mais negro e melancólico. Foi esse, aliás, muitos antes dos hinos pop, que fez o culto.

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