Há erros de que nos orgulhamos para o resto da vida

As primeiras letras aprendi-as num colégio privado, turma pequenininha, colégio chamado Santa Maria da Vitória (ou seria Santa Maria Goretti?), perto da livraria Minerva, em São Paulo. O professor parecia-nos um terror, a que, inocentes em pânico, mas gramaticalmente articulados, chamávamos O Carrasco. A pompa do artigo definido descartava veleidades platónicas. Levava-nos a casa num carro velho e verde que passou depressa a uma nova carrinha Volkswagen de portas de correr. Um dia, entalei o dedo numa dessas corridas portas e, com medo de despertar a ciclópica ira de O Carrasco, aguentei sem tugir nem mugir até à paragem seguinte. Sim, tenho a certeza de que eram eram fictícios terrores de infância e o homem, afinal meu primeiro professor que nunca mais vi, devia ser muito melhor do que os meus 6 anos tristemente o julgavam.

Mas talvez tenha aprendido a ler antes do primeiro dia de escola, faz anos hoje porque, alguma conservatória saberá porquê, é fácil lembrar-me. Lembro-me que ao passar pelos jornais colados na parede duma casa em construção, para surpresa da minha mãe, li as letras e repeti alto “o burromestre de Berlim“. A minha mãe pasmou como só as mães pasmam, riu-se e corrigiu, “o burgomestre de Berlim“. Não vou jurar que tenha sido uma leitura premonitória, mas seja como for, errado que estivesse, foi um começo iconoclasta. Há erros de que nos orgulhamos para o resto da vida.

Na 4ª classe sim, a Dona Emília, da escola dos capuchinhos italianos da Missão de São Paulo, foi a alegre descoberta de que escrever podia ser uma coisa gozada e a gozar. Tudo isto é já redacção colonial, escrita em Angola, na cidade de Luanda, que há meio-século não tinha burro nem burgomestre.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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2 respostas a Há erros de que nos orgulhamos para o resto da vida

  1. trocadilho giro e aqui vai um sopro de vela mal disfarçado

  2. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Fiquei com a sensação de que, afinal, na vida, tudo é premonitório…

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