Há uma perna de Astaire entre as pernas de Cyd

Dancing in the Dark redime todos os pecado do mundo. O pecado da fealdade, o pecado da vergonha, o pecado da rejeição. Lembrei-me de alguns versos de um poema de Jorge de Sena:

A pouco e pouco tocam-se os joelhos
por acaso fingidos fugidios
até que um mais se encosta e se demora
e em pressões de leve alfabeto aflito
ansiosamente inquire: sim ou não?”

Jogos de sombra chama-se o poema, os exactos jogos que Cyd e Fred jogam na mais pasmosa sequência de um dos mais pasmosos filmes de Vincente Minnelli. Ela, nesse Bandwagon, tão vestida, branquíssima blusa a que desapertaríamos mais um botão, a saia plissada branca a cobrir-lhe as pernas deslizantes. Tão vestida que só apetece dancá-la, dançá-la tanto, tão apalpante dança que no fim, menina e donzel (outra vez Sena), já não saiba se dança a menina o donzel ou el doncel la niña.

Perdão, era de travellings que estávamos a falar, não era? Ora vejam.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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6 respostas a Há uma perna de Astaire entre as pernas de Cyd

  1. Rita V diz:

    mandei toda ‘a gente’ embora, dimei a luz e ampliei o ecran, lá fora as luzes da cidade, um whisky,
    o remote na mão e o som sem muitos graves, tocaram à porta: – Não estou gritei!
    carreguei no play e fui dançar

  2. Luciana diz:

    Um musical, penso eu, é a possibilidade de uma Pasárgada pessoal e intransferível. É a tentativa última de comunicação, Cyd fazia rimas com o corpo.

    E gostei muito dos joelhos fingidos.

  3. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Era de travellings que estava a falar, era sim senhor. E que travelling este!!! Vou copiar a Rita, servir um whisky, a janela meia aberta para deixar correr uma frescura….e como não sei dançar, vou ver e ler outra vez…

  4. Ela tinha legs do ass all the way to the floor:

    • Panurgo diz:

      O Táxi desculpe, mas com a Carmen é melhor. Tudo com a Carmen é melhor…

      • Por cá também queriam dançar:

        (a Florbela esteve no festival de Woodstock e por lá nua andou com uma grinalda na cabeça, desse tempo, para o Portugal cinzento de hoje, foi preciso pouco esforço, pois os padres sempre foram os intelectuais do país, – um padre fala, esquerda e direita, juntam as mãos ao céu para ouvir melhor)

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