O corpo de uma mulher é demasiado grande

Era uma vez um marinheiro que teve um sonho. Mas atenção: não era um marinheiro qualquer. Era um marinheiro suíço (é curioso haver marinheiros numa terra onde não há mar), a quem Bruno Ganz emprestou a vida e o sonho. Alguns anos antes de ser anjo em Berlim, onde sonhava ser humano, foi marinheiro em Lisboa, cansado da dimensão temporal inventada pelos homens. Nesta história chama-se Paul, vem do país dos relógios e a sua vontade secreta é abolir o tempo. Logo no início do filme de Alain Tanner, encontra Dans la ville blanche (Lisboa) a mulher e o relógio com que vai criar a sua bolsa de ilusão: Rosa (Teresa Madruga), a empregada do hotel serve ao balcão num bar onde o relógio de parede funciona ao contrário. A explicação dela conquista-o de imediato: o relógio anda como deve ser; é o mundo que anda ao contrário. Paul torna-se desertor da fábrica flutuante que é um barco. Foge da barulhenta sala das máquinas onde trabalha oito horas por dia, sem noção do tempo ou do lugar. E explica a Rosa por que motivo os marinheiros são todos loucos: Quando se está no mar, a cabine é pequena, mas lá fora o mar não acaba. Os marinheiros nunca sabem em que dia estão.

A cidade branca é o refúgio para este marinheiro que quer ser livre e por isso nem sequer pode estar de férias, porque “as férias são a organização da nossa liberdade”. Paul não quer fazer nada: apenas dormir, andar, sonhar, flutuando à superfície da realidade. Embalado pelo álcool, pela luz e pelo amor, perde-se nos braços e curvas da cidade como no corpo de Rosa. Há um momento em que filma a calçada lisboeta como se fosse a pele da cidade. Tem duas línguas para o amor: fala francês com Rosa e escreve em alemão à sua mulher na Suíça. Um marinheiro está sempre à espera de receber cartas e a sua morada é Posta-restante Lisboa. Envia-lhe cartas e filmes da sua câmara Super 8, descrevendo a brancura da cidade, da solidão e do silêncio. Vê e filma Lisboa com o espanto de um estrangeiro apaixonado. Mostra-lhe as ruas, as ruelas onde a roupa branca seca ao sol, o peixe a grelhar, os azulejos do quarto onde dormem a solidão que espreita entre as cortinas e Rosa.

A maior parte do tempo, parece que Tanner filma o sonho do marinheiro suíço com uma cidade branca. Quando Rosa lhe pergunta quem é ele, afinal, Paul recorda que o seu comandante dizia que ele era um axolotl, a larva de uma salamandra que habita os lagos do México (e também nome de um conto de Júlio Cortázar.) Um ser que aspira à imobilidade plena de indiferença, como se quisesse abolir o tempo e o espaço.

Depois de Rosa partir, antecipando-se a Paul (as mulheres sabem que um marinheiro está sempre de passagem), Paul regressa a casa de comboio, como se estivesse a abandonar o sonho e a viajar em direcção à realidade. Na estação, envia palavras telegráficas em alemão: Volto de novo à superfície. stop. Rosa partiu, não sei para onde. stop. o único país de que gosto verdadeiramente é o mar. stop. amo-vos. stop. amo-te. stop. beijo-te ternamente. stop. o corpo de uma mulher é demasiado grande. stop. portanto será a guerra entre nós. stop. a recordação e o esquecimento têm a mesma origem. stop. as mulheres também são demasiado belas. stop. os comboios não partem à tabela. stop. não sei mais do que antes. stop. Mas talvez Paul esteja a mentir. Algures no filme, ele confessa-se ” um mentiroso que tenta dizer a verdade”. Talvez tenha descoberto que o mar se assemelha demasiado ao corpo de uma mulher.

 

Sobre Maria João Freitas

Graças às palavras, às vezes sou Alice e faço perguntas sem parar. Outras, sou a namorada (platónica, esclareça-se) de Wittgenstein. Quase sempre, penso que tenho a sorte de viver da (e na) escrita. Porque escrever pode ser triste, mas é melhor que ser feliz.
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6 respostas a O corpo de uma mulher é demasiado grande

  1. Benvinda Neves diz:

    As mulheres não sabem só que os marinheiros estão sempre de passagem, as mulheres também sabem que “há uma alma de marinheiro dentro de cada homem”.
    Tão grande é o corpo de uma mulher que é tão fácil nele guardar os sentimentos e vontades do mundo, esquecendo-se onde guardou os seus.

    • Maria João Freitas diz:

      Benvinda,
      E se houver um corpo de ilha em cada mulhar? Talvez assim se explique o fascínio dos marinheiros por elas. Há uns anos, comecei a fazer um dicionário não-etimológico meio disparatado, onde “maravilha” era sinónimo de no “mar vi a ilha”.

  2. ainda não vi, estava à espera de ver, verei em breve

    • Maria João Freitas diz:

      Rita,
      Tenho a certeza de que A cidade branca está à espera de ser percorrida pelo seu olhar.

  3. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Lembro-me de ver o filme, longe de terras lusitanas, e ficar com ainda mais saudades. As vezes é preciso estar longe para apreciar o que temos perto…gostei muito da personagem encarnada pelo Bruno Ganz, e se calhar é isso mesmo: os homens são marinheiros e as mulheres assemelham-se ao mar, enorme e desconhecido.

    • Maria João Freitas diz:

      Bernardo,
      É bom sentir saudades de uma cidade, sobretudo da que julgamos nossa. E isso só é realmente possível na distância. E concordo consigo, o Bruno Paul Ganz está irresistível, embora o meu ranking de marinheiros seja liderado, há anos a fio, pelo Corto (Maltese).

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