O macaco de Swinburne

cenáculo literário (dos bons!)

A versão amena da literatura tenta oferecê-la como um repositório de grandes valores. E nem estou a falar, ou também estou, da praga de discursos e institutos que os contribuintes de todo o mundo pagam, tão esforçados a divulgar e promover uma ideia sanitária de Cultura.
É por isso que é saudável levantar por vezes o tapete e descobrir que há alguma animação e vida por trás da fachada do vetusto pagode. Lembro que Dostoievski, Scott Fitzgerald e Victor Hugo eram obstinados fetichistas do pé. Também é do conhecimento público que Joyce gostava de trazer no bolso uma peça não lavada da roupa interior de Nora, morbidamente atraído por “that little brown stain on the seat of your white drawers.”
Valerá a pena dizer que o poeta desvairado e portentoso que é A.C. Swinburne se divertia, devasso, com um macaco que vestia de mulher e que, quando a bestinha revelou ciúmes de aventuras mais humanas, o grelhou e serviu em jantar de amigos?
Se já se viu que os escritores não são flores que se cheirem, não se pense que a visão científica do sexo lhes conquista a menor simpatia. Hemingway acreditava firmemente que a cada um de nós tinha sido distribuído um número limitado de orgasmos. Atingido esse tecto, kaput! E Balzac jurava piamente que a prática sexual  chupava ou, para não ferir susceptibilidades, secava os fluidos criativos de um romancista. Foi visto e ouvido,  à porta de um bordel, a despedir-se da pulposa senhora com quem entretivera frenético comércio, com um sonoro: “Lá se foi outro romance!

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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6 respostas a O macaco de Swinburne

  1. Luciana diz:

    Tenho cá pra mim que ninguém há de ser realmente grande em literatura tendo “nojinho” da vida. Como sempre, divertiu-me imensamente e instruiu-me em pequenices e curiosidades instigantes.

    PS. Fiquei pensando que pra Balzac, de certa forma, escrever era bem triste…

    • manuel s. fonseca diz:

      Creio que estes “incidentes” são só uma ponta do iceberg… Deve haver mais episódios “balzaquianos”

  2. Pedro Bidarra diz:

    A escrita e a macacada são amigas de longa data, é o que se conclui

    • manuel s. fonseca diz:

      Olá Pedro, tens toda a razão: uma selva, andam escritores de galho em galho

  3. Panurgo diz:

    Pff… bom era que o Balzac, o Hemingway, o Fitzgerald, o Victor Hugo, etc. tivessem sido chupados a vida inteira em vez de… hum… a literatura para o resto da vida.

    • manuel s. fonseca diz:

      Panurgo, mande-nos lá o seu cânone com textinho que nós publicamos. Morremos de Triste curiosidade…

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