O Rapaz dos Sinos

O Rapaz dos Sinos by riVta

Do lado de fora do vidro a tinta do graffiti escorregava. Lia-se ‘redoF et-iaV’, enquanto o assunto da reunião se perdia na densidade do ‘pladur’. A frase, escrita à pressa, pingava e redesenhava-se em formas abstractas que pediam significado.
– Não há dinheiro – dizia o Director. – Os lugares têm que ficar à disposição.
As sombras moviam-se depressa. O rapaz do spray, estava agora encurralado entre o segurança do ‘Building’ e a garagem da porta fechada. Ao pescoço uma série de latas de tinta, presas com cordéis como uma corrente de pequenos/grandes sinos multicolor. A confusão era restrita aos movimentos de libertação do rapaz que o segurança agarrava só com um braço. O instinto foi mais forte. Desprendeu-se com um safanão e escapou-se em câmara lenta atravessando o pátio frente à sala, numa sinfonia metálica de notas curtas com as latas a embaraçarem-se à volta das pernas, tronco, peito e a baterem no chão.

Ainda me deitou a língua de fora.
Por instantes, … apeteceu-me fugir com ele.

Sobre Rita Roquette de Vasconcellos

Apertava com molas da roupa, papel grosso ao quadro da bicicleta encarnada. Ouvia-se troc-troc-troc e imaginava-me a guiar uma mobylette a pedais enquanto as molas a passar nos aros não saltassem. Era feliz a subir às árvores, a brincar aos índios e cowboys e a ler os 5 e os 7 da Enid Blyton. Cresci a preferir desenhar a construir palavras porque... escrever é triste.
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13 respostas a O Rapaz dos Sinos

  1. Nina diz:

    Atinge-se mais facilmente a cumplicidade com um deitar a língua de fora do que com palavras pensadas, ou antes, um gesto vale mil palavras.

  2. Benvinda Neves diz:

    Às vezes também me apetecia grafitar um grande “redoF et-iaV”, em algumas “janelas de preconceito”que a vida ergue como paredes.
    Mas sou uma “prisioneira” que nunca se conseguiu libertar totalmente de uma espartana educação e limito-me a grafita-lo em pensamento, vangloriando-me por ter pelo menos a coragem de às vezes pôr a língua de fora.
    Como me disse alguém com amizade “estou perto da idade em que já quase me é permitido dizer tudo”, acho que vou pensar em me apetrechar com umas “latas de spray”, porque em dias como o de hoje apetecia-me passear-me pelo mundo numa sinfonia metálica.
    Será que tenho coragem?

  3. G.Rocha diz:

    Bora fugir todas?!?!?!? pelo caminho fazemos caretas com quem nos cruzarmos…. hummm não fugir é para os “fracos” 😛 mas por a língua de fora é para os fortes 😛 😛 por isso 😛 😛

    adorei a sinfonia metálica…. consigo até escutá-la… é linda!
    o texto do grafiti é que sinceramente 😛 , nem parece da menina 😛 😛 (as coisas de que se lembra para animar os seus textos) 🙂 :O

  4. Zé Maria diz:

    a liberdade… e o preço que se paga por ela…
    Bom texto

  5. ~CC~ diz:

    Que pena não ter ido! Queria ver os desenhos e ler as histórias…
    ~CC~

  6. manuel s. fonseca diz:

    Fugir é sempre um bom apetite. Deixa-nos logo de língua de fora. Well done, Rita.

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