Obstinação

            o vento, o cavalo, o homem

O vento será provavelmente o grande protagonista do filme, numa sonoridade sempre presente, em dueto constante e paralelo com a banda sonora (da autoria de Mihály Vig que há muito trabalha com Bela Tarr, o realizador). Mas também e sobretudo nas imagens das folhas no ar, na poeira branca que seca a garganta e rodopia no ar, nas árvores despidas cujos ramos se vergam à força indomável, persistente, do vento; nos cabelos desgrenhados e secos.

E é muito mais do que protagonista, símbolo duma vontade indómita, metafísica e transcendente; realidade metafórica dos males que o homem vai imaginando, quando se encontra sozinho perante o enigma da existência.

Mas se o vento tem esse protagonismo, o tema do filme, o último realizado pelo Húngaro Bela Tarr, intitulado “O Cavalo de Turim”, é bem mais abrangente. Pai e filha resistem dia após dia a uma existência que roça a pura sobrevivência. A apocalíptica tempestade de vento, que preenche todos os dias retratados no filme, excepto o último, é apenas mais um teste à absoluta obstinação de pai e filha, porque sabemos que mesmo antes dos dias de vento, já a vida era dura, estóica.

O filme constrói, em maravilhosas imagens de preto e branco, um quotidiano onde cada acção se repete como se de algo sagrado se tratasse: a filha que todas as manhãs ajuda o pai a vestir-se, que prepara e serve as parcas refeições, a ida ao poço para buscar água, o pai que se levanta e sai para pegar na carroça e sair para o campo.

O primeiro plano não deixa que nos enganemos: esta vida é dura, duríssima, no limite do tolerável. Perante a voz angustiada do vento, uma carroça avança dificilmente, homem e cavalo tornados bestas, pressentem a vida a tornar-se cara, a fugir-lhes perante o cansaço que sentem, e que nós sentimos nos planos da face do pai, olhos semicerrados ao vento, ou na pele manchada do cavalo irrequieto.

A câmara percorre a cena, do geral para o particular, da frente para trás e de trás para a frente, de cima para baixo e de baixo para cima. Fica dado o mote.

O resto do filme é um “tour de force” com planos fixos, longos, uma câmara que se move devagar, cansada como aqueles que filma. Dá-nos tempo de olhar os pormenores secundários, o copo baço de vidro, os veios da Madeira na mesa, os fechos de ferro enferrujado. E o vento, contínuo, constante, alternando com uma banda sonora repetitiva, a aumentar um pouco uma angústia que se sente presente, e que se vai tornar mais opressiva com a passagem dos dias.

A filmagem é soberba, a fotografia majestosa, os detalhes belíssimos, o diálogo escasso.

E a vida acontece, dia após dia, nos espaços minúsculos deixados pela rotina, onde resta a obstinação, a persistência do homem que acredita sempre que vai conseguir chegar mais longe, viver mais um dia. Mesmo quando tudo o resto parece querer desistir, o cavalo que se recusa a andar, a água que desaparece do poço, a lamparina que já não se reacende.

Uma das últimas e raras frases do pai para a filha é para dizer: “amanhã voltaremos a tentar”.

E fiquei a pensar que bela lição esta: a de tentar, obstinadamente, dia após dia, ir mais longe, fazer melhor.

 

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
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11 respostas a Obstinação

  1. rita vaz pinto diz:

    Há coisas fantásticas. Acabei de ir comprar bilhetes e vou logo às 18h ver este filme!
    Está-me a apetecer imenso e agora que li este teu texto ainda me apetece mais.

  2. Panurgo diz:

    Um esplendor. Tenho de o rever quando chegar o Outono. A mesma dupla fez aquele outro, werckmeister harmonies, para o qual se há-de arranjar um adjectivo capaz um dia destes.

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Caro Panurgo, só vi (no you tube!!!) extractos do filme, que deixa um sabor a pouco na boca: Parece extraordinário! Quanto à invenção de um adjectivo parece-me tarefa interessante!!!

  3. manuel s. fonseca diz:

    Não vi,Bernardo, mas tenho inveja. Vou dizer o que todos devem estar a pensar, antes que alguém diga: “o vento” do Sjostrom…

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Há algumas referências, e o “Vento” é sem dúvida uma das mais fortes, também me fez lembrar Bresson, e (sempre!!) Tarkovsky. Mas vale mesmo a pena, uma obra maior.

  4. Rui Carvalho diz:

    Que bela trilogia!

  5. Toy PS diz:

    Sábia análise do Bernardo, que nos leva a perceber ainda melhor esta obra de arte. Não esqueçamos que Bela Tarr avisou que nunca mais faria um filme, pelo que, na minha opinião, esta verdadeira maravilha a p/b , é o canto do cisne de um percurso inigualável. Tudo é soberbo, desde o plano sequência inicial, à música forte e repetitiva, à fotografia (assombrosa), aos protagonistas, com realçe para o vento, para o amigo que os visita, passando, porque não, pelo cavalo.
    Considero, até agora, o melhor filme que vi este ano.
    Obrigado Bela por tão belas imagens.

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