Os Radiohead também se ensinam?

Quantos de nós não temos vontade, aqui e ali, de nos armarmos em grandes educadores do povo? Pois é, se alguma razão tive nos últimos 15 anos para essa vontade se manifestar, todas as culpas da inclinação devem ser imputadas aos Radiohead. Por causa deles, fui capaz de me transformar num tirano. De deixar de lado todas as regras de tolerância e de respeito pela maioria que me ensinaram desde pequeno. De ser condescendente, sobranceiro, até arrogante, para quem ainda não se dera conta de toda a genialidade da banda de Thom Yorke.

Quando os vi na semana passada actuar em Lisboa para 50.000 pessoas, fui tentado à mais básica das conclusões: que, afinal, as massas se deixam educar. Levam tempo mas acabam por se deixar educar. Mas a verdade é que tenho dificuldade em acreditar numa genuína conversão a uma banda que não faz o mínimo de concessões, nem em disco nem em palco, ao grande público. Não, não podem ser os mesmos 50.000 que, há um ano atrás, no mesmo sítio, vibraram com os horrorosos Coldplay, a banda mais foleira do universo para aqueles que, como eu, têm tentações totalitárias de educação do povo.

Tem de haver outra explicação. Qual é, não faço ideia. Só sei que os Radiohead são, definitivamente, um case-study. Tanto o são que estão quase, quase, a obrigarem-me a ir pregar para outra freguesia, a fazerem-me despir o traje de grande educador do povo que, de cada vez que os ouvia tocar, se infiltrava no meu corpo.  

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.

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14 respostas a Os Radiohead também se ensinam?

  1. Pelo sim, pelo não, não os oiço. Quando a qualidade é muita, o povo desconfia.

    Mensagem popular:

  2. Rita V diz:

    eu gostava mesmo era de te ver escrever este post às 9.00h da manhã
    ah ah ah
    é que às 2.27 já não se consegue apreciar os Coldplay
    Lol

    • Diogo Leote diz:

      Rita, nenhuma hora é boa para apreciar os foleiríssimos Coldplay. Só os consigo imaginar como banda sonora lamechas de telenovela. Formariam uma boa dupla com o Miguel Ângelo, uma espécie de equivalente português do Chris Martin.

      • Rita V diz:

        Estás a fazer lembrar-me o meu pai, teria hoje 95 anos, no dia em que me ofereceu o meu primeiro LP . Moody Blues, Days of Future Passed – 1967. o primeiro LP que entrou lá em casa. Na altura ouvia-se Elvis Presley, Glen Miller, etc… Foi uma boa mudança.

  3. Panurgo diz:

    Agora só tocam as canções novas, uma pena. Gosto muito, mas é como o Kafka – só na Primavera, ou apaixonado. De outro modo, é puxar uma corda e uma cadeira.

    (ele tem aquela canção, True Love Waits, que, caramba…)

    • Diogo Leote diz:

      Caro Panurgo, aí está o carácter e a genialidade da banda: não tocarem em palco aquilo que muitos querem ouvir e, mesmo assim, conseguirem ser excepcionais. Quanto ao True Love Waits, curiosamente, nunca foi editado em estúdio. Aparece apenas no I Might be Wrong, disco ao vivo da banda (e como b0nus track de umas das reedições do Kid A).

  4. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Caro Diogo, na música como em muito da vida não me fio no público, prefiro navegar por instinto, e às vezes encalhar…

    • Diogo Leote diz:

      Bernardo, tu que és um melómano que também navegas pelo jazz, ainda vais acabar rendido aos Radiohead, banda que, para além de buscar inspiração no jazz em alguns dos caminhos mais experimentalistas em que tem andado na última década, é, ela própria, inspiração de grandes homens do jazz como Brad Meldhau.

  5. Maracujá diz:

    Ainda que assim seja, morreria eu para ouvir esta (que é talvez aquela que apenas muito poucos não conhecem) ao vivo, sussurrada lenta e levemente ao meu ouvido, como uma suave e perfumada brisa primaveril que atravessa a janela entreaberta de um soalheiro quarto provençal inundado pela luxúria, no último andar de um prédio virado a Monceau…

    • Diogo Leote diz:

      Maracujá, dificilmente poderá ouvir os Radiohead cantarem o Creep ao vivo. Eles deixaram de o tocar há muitos, muitos anos. Em 2002, quando os vi no Coliseu, já não o tocaram. Eles não gostam de fazer favores às massas. E, provavelmente, já não se identificam com a música. Mas é uma grande canção, lá isso é.

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