Já foste fado, Portugal

 

Por um lado

Já foste fado, Portugal.
Hoje és fardo.
És mochila de pedra,
Cruz que se carrega e nos faz todos Pedros
Que sem remorso te negamos
Vezes três as vezes que forem necessárias, Portugal.
És família das berças,
És primo inconveniente,
És embaraço permanente Portugal.
És mulher-a-dias com chinelo de piscina,
Tens olhinhos tortos, perninha curta
Mãozinha deformada e não se pode fazer nada Portugal.
Não há diminutivo que te encharme.
És calçada desdentada,
Caixa d’ar condicionado na fachada,
És carro no passeio,
Arquitectura de empreiteiro
És foleiro Portugal.

És maricas Portugal.
Por uma unha encravada, um tropeção, um mero abanão,
Para fingir que sentes ou para te convenceres que não mentes,
Por dá cá aquela palha
Por tudo e por nada,
Nem que seja só para ter a cara lavada,
Lá vai lágrima, Portugal.
Devias ser mais homenzinho
Porque o teu nome nem sequer é feminino,
Devias endireitar a coluna dar murros na mesa
Largar a caixa da graxa, o salamaleque, o vexa senhor doutor.
Ser firme, cerrar o dente, aguentar a dor, seguir em frente.
Mas não.
És pedinte Portugal!
De dedos sapudos e mãos suadas
E é com elas que vês o mundo às apalpadelas Portugal.
Acordeonista de passeio que afugenta o peão quando lhe chega a mão.
Às vezes lá tens sorte e ele larga uma moedinha
E o “plim” faz-te o dia.
Nobre povo Portugal?

És Maria, Portugal
Das que copia.
Fazer igual é a tua grande ambição Portugal.
És preconceito, falta de respeito,
Tens medo de arriscar de fazer diferente,
Tens pensamentos de porta de casa de banho,
És invejoso, dizes mal,
És espectador do mundo com devaneios de treinador, Portugal
Mas para ver o que se passa, da bancada,
Precisas de almofada no cu para ficar do tamanho dos outros.
Claro que os pezinhos ficam no ar a abanar.
Não te enxergas Portugal?
Não passa de um fedelho
Vestido de verde e vermelho
(Cores que não rimam nem combinam)
Armado ao pingarelho.
És anão, Portugal

És bexigoso Portugal.
Tens a cara esburacada e a pele toda marcada.
Não que tenhas culpa, foi doença que Deus te deu
Mas é impossível olhar para ti sem asco e pena
É impossível ouvir-te
É impossível seguir-te os raciocínios,
Admirar-te as ideias sem compaixão,
Sem relativização.
São buracos de pobreza
Marcas de tristeza.
Mesmo quando ris, Portugal,
É infância amargurada
Saúde desleixada
Pele maltratada.
Um nojo Portugal.

És húmido Portugal.
És frio que se entranha e que todos os Invernos nos lembra
Que de tropical tens apenas manias Portugal.
És bolor na parede, fungo verde, infecção pulmonar.
És fresta na janela, corrente de ar.
És lençol frio, bota molhada, gabardina encharcada
És constipação, espirro, arrepio, inflamação.
És tão desconfortável Portugal.
És cirrose, cancro no estômago, refluxo gástrico, azia,
És sal em demasia, gordura, AVC, alergia
E, pior que tudo, mania.
És doença terminal Portugal.

És só ideia Portugal.
Sem consequência ou implementação.
És teoria distante, prática sem táctica.
És crucificador de quem tenta
Inquisidor de quem faz
Carrasco de quem fez.
És criatura soez Portugal,
Vestida de arrogâncias, ares e importâncias
És estória, Portugal.
Memória de que uma vez,
(Há quanto tempo meu Deus)
Algo de grande se fez
E agora (meu Deus outra vez)
Nada.
És água estagnada, vida parada.
Nevoeiro?
Quem te dera, Portugal
Mas a névoa levantou e o que revelou,
Foi apenas lamaçal.
Acabaste Portugal?

Por outro lado

És til Portugal
Ditongo subtil e inimitável
Som que só sai fechando a boca
Paradoxo fonético que faz ficar no peito a paixão,
A emoção, a sensação
E todos os ladrares do coração.
E és tão português Portugal.
Piropeiro, galhofeiro, sorridente, gajo porreiro.
Bom tipo, bon vivant e bom divã.
És original Portugal.
Não és ficção porque és memória.
Não és wanna be porque tens história
Não és suficientemente bonito para romance
Nem suficientemente expedito para ensaio
Não és livro de instruções, nem de auto ajuda,
Nem mesmo livrinho de aeroporto com reflexões.
Não Portugal.
És praia, sargo, robalo.
És cheiro e sabor a mar
És sol que no Inverno não se apaga
És todas as estações do ano
És castanheiro, pinheiro,
És carvalho, cerejeira, sobreiro e figueira.
És perdiz pendurada e figos a secar no terreiro.
És jasmim, alecrim, esteva e alfazema.
És só poema Portugal.

E és a minha casa Portugal,
De tecto e paredes azul infinito.
És tão bonito Portugal.
És sensação que nunca chega à razão
E por isso ninguém diz
Mas todos gostamos de ti Portugal.
Amamos-te o cheiro, a luz
Amamos-te o calor e o sabor.
Amamos-te com a pele, com os olhos e com a língua.
Amamos-te como cães, gatos e ratos que vivem felizes neste quintal.
Amamos-te sem palavras Portugal.

In Almeida Poeta Sem Assunto, 2006

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu): “Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”
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10 respostas a Já foste fado, Portugal

  1. manuel s. fonseca diz:

    Não é um poema, é um romance. Ó que beleza de tristeza.

  2. Não sei se o Almeida Poeta sem assunto é outro que não você, Caro Pedro Bidarra, pelo que não sei se é a si ou a ele que me deverei dirigir. Não importa. Se aqui colocou o poema é porque se revê nele ou porque, pelo menos, lhe acha graça.

    Quero apenas referir dois aspectos. O primeiro é que, para além de ter graça e substância, ele revela bem a ciclotimia tão tipicamente portuguesa. Dá belos poemas, dá manifestações aparatosas ‘todos por isto’ e a seguir, se necessário for, ‘todos pelo contrário’, mas não dá uma linha de rumo consistente para o País.

    A outra, se me permite, é que não concordo nada que o verde e o vermelho não combinem. Então não? Ainda agora mudei as cores lá do meu blogue para as nossas belas cores e todos os dias, quando o abro, sinto que são cores que, conjugadas, têm uma força empolgante. Mas, às tantas, é porque gosto muito de Portugal e tenho dificuldade em dizer mal dele (embora possa dizer mal de quem dá cabo dele).

    De qualquer forma, acho que esta escolha para aqui é interessante, é difícil ficar-se indiferente.

    • Pedro Bidarra diz:

      Vamos lá então por partes. Quem é o Almeida não sei bem, nem sei bem quem sou eu quanto mais os outros, se me é permitido um cliché pessoano.
      É verdade esta relação ciclotímica com o país, que de qualquer modo não é só nossa; já ouvi e vi as mesmas ambivalências em muitos lados do mundo. Em Espanha, por exemplo também assim é, embora com mais violência, tanto nas fases maníacas como nas depressivas; é uma questão de escala. Se levarmos mais longe esta metáfora, o bipolarismo, então sabemos também que não há solução, apenas medicação. Uma medicação que adormece, que doma, que causa letargia. Assim parece nos dias que correm. Se calhar a nossa medicação é o azul que nos pacifíca… se calhar.
      Quando ao verde e ao vermelho, nos tons em que aparecem na bandeira, é verdade, combinam mal. Não são suficientemente contrastantes, têm a mesma quantidade de preto e por isso, ao longe distinguem-se mal. Há ali um problema gráfico que só fica resolvido quando, por exemplo, se junta amarelo ao verde como fez no seu blog, ou ao vermelho, alaranjando-o. É um problema técnico. Se tirar uma fotocópia da bandeira sai tudo cinzento, sem contraste. Devia haver contraste entre o sangue e a esperança, mas não há, o que é triste também.

  3. Bipolar diz:

    :(:

  4. Biolar diz:

    : ( :

    queria escrever

  5. Portugal tem dois lados… como a faixa de Moebius.

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