Um homem sensível

Ele e ela no carro, com o rio aos pés e o sol a despontar timidamente no horizonte. Antes, jantar à luz de velas, conversa a sugerir o indizível, aqui e ali olhares e sorrisos malandros a cruzarem-se, o vinho a torná-los melosos, e depois o whisky a despertar instintos, ele a fazer o sacrifício de uma meia-hora de dança como pretexto para o teste da química (ela passou com distinção), ele a jurar que lhe sentiu o calor da libido em zonas proibidas, chegaram a estar de mãos dadas, sim, e as bocas, ai as bocas foi mesmo por muito pouco, estiveram uns bons trinta segundos separadas por milímetros, a salivar promessas de uma noite de prazer.

Estivera lá quase, quase, mas ainda não acontecera. Talvez tivesse passado o timing até. Ou talvez ela fosse assim mesmo, uma mulher de promessas de coito sem garantias, como dizia o Kundera. Ah, e ele também lhe falara do Kundera, porque era certinho que falar desta ou daquela frase do Kundera era meio caminho andado para a conversa de cama. Mas nada ainda. Chegara o momento do teste definitivo. O destino seria ditado pela música que vinha a caminho. Bastava um clique no leitor para a voz de Antony se fazer ouvir. Ele sabia que nenhuma mulher resistiria, depois de uma noite daquelas, com o rio aos pés e o sol a dar já um ar da sua graça, à voz de Antony, a dizer o que lhe faltava a ela para ter a certeza que ele era homem para ela. Já imaginava o que se seguiria: “O quê? Tu conheces o Antony? Tu gostas de Antony? Eu adoro Antony!”, com o arrebatamento de quem se sentiu finalmente conquistada. A partir daí, ele saberia que passaria por um homem “sensível”, que era tudo o que lhe faltava a ela saber para lhe cair nos braços. E ela daria como certo que aquele Hope there´s someone tão premeditado, dito pela voz do além de Antony, era um sinal do destino, do além mesmo, de que esse someone que ela aguardava estava bem ali à frente dela.  

Ele não se importava de passar por homem “sensível”, até com um leve toque efeminado, para garantir o coito. E acabara mesmo a gostar, a venerar até o Antony. Pudera. Quantos coitos não lhe valera já aquela voz?

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
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2 respostas a Um homem sensível

  1. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Se o Antony soubesse……!!!

    • Diogo Leote diz:

      Bernardo, tenho a certeza que não se importaria. A sua música sabe tudo sobre sedução.

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