Um pai ignorante

Não sei se reveja o Vida é Bela do Benigni ou o Ladrão de Bici­cle­tas do De Sica, se vá reler A Estrada do Cor­mac McCarthy ou, até, que desen­terre dos escom­bros o Father and Son do Cat Ste­vens, que não me lem­bro de ouvir vai para vinte e cinco anos. E por aqui me fico, pois aca­bei de des­co­brir que sou um com­pleto igno­rante em maté­ria de filmes/livros/música-sobre-relação-de-um-pai-com-um-filho. E logo eu, um maníaco de lis­tas, com esta man­cha indigna no currículo.

Resta-me supli­car a ajuda dos meus co-bloggers e dos cul­tos e expe­ri­en­tes lei­to­res nesta minha ten­ta­tiva lame­chas de encon­trar no mundo da arte e da fic­ção outros olhos, outros ouvi­dos, para ver e ouvir o que um pai tem para con­tar a um filho. Só quero per­ce­ber bem aquilo que faz um filho embasbacar-se com a figura paterna. Estou aberto a todas as suges­tões. Ou quase todas, para o caso de me reco­men­da­rem due­tos do Tony e do Mic­kael Car­reira ou me que­re­rem obri­gar a des­co­brir pare­cen­ças entre o Sean ou o Julian e o pro­ge­ni­tor Lennon.

Entre­tanto, enquanto não chega o vosso pie­doso apoio, entrego-me ao des­tino. E o des­tino leva-me a reen­con­trar my best film ever done about a father and a son, o Per­fect World do Clint Eastwood. E o filme seria tam­bém per­feito se não assen­tasse num deli­be­rado equí­voco meu. É que o Kevin Cost­ner (que até aí só gos­tara de ver num cai­xão a fazer do morto Alex dos Ami­gos de Alex) não é pai coisa nenhuma da cri­ança que com ele vai rap­tada. Mas, ape­sar da rela­ção entre ambos ser, ou come­çar por ser, ape­nas do foro cri­mi­nal, era tudo o que de mais como­vente eu podia ima­gi­nar pudesse exis­tir entre um pai e um filho. Pouco impor­tava que não fos­sem pai e filho. Para um igno­rante como eu do que era ser pai, isso não pas­sava de um detalhe.

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
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14 Respostas a Um pai ignorante

  1. manuel s. fonseca diz:

    Diogo, tudo lido vejo que já tens um pro­grama de cate­go­ria para edu­ca­ção do infante. Se a expe­ri­ên­cia vale alguma coisa, lembro-me de em deses­pero can­tar à minha filha aquela coisa do caci­lheiro (sou mari­nheiro, neste velho caci­lheiro, la, la, la, la) e da coisa, com as ondas, fun­ci­o­nar como um natu­ral seda­tivo. Falar outras lín­guas com car­re­gado sota­que tam­bém dá bons resul­ta­dos: assus­tada com o inglish com que eu a ator­men­tava, a minha filha fala hoje um lím­pido inglês.
    Nos fil­mes, não te esque­ças de lhe dar a ver o How Green Was My Val­ley, nobi­lís­sima visão da figura paterna nar­rada por filho benjamim.

    • Diogo Leote diz:

      E como é que me fui esque­cer do How Green Was My Val­ley, que até tenho em casa para ver quando qui­ser? Vou já revê-lo este fim-de-semana, é o que é. Depois de te ler, até já me sinto um boca­di­nho menos ignorante.

  2. Pedro Pinto Fernandes diz:

    Diogo, o engra­çado é que não pre­ci­sas de fazer nada para que o dia­logo, mesmo surdo que seja, sem pala­vras ou ges­tos surja entre um pai que ama o seu filho e um filho que ama o seu pai. Como eu o entendo o amor entre pai e filho é incon­di­ci­o­nal, basta esta­res, basta um olhar para o diá­logo sur­gir, é que a união entre um pai e um filho vem do cora­ção e não da razão por isso é inex­pli­cá­vel, existe, pura e sim­ples­mente. Não há padrões, tex­tos ou pala­vras, não há modos ou méto­dos, existe…simplesmente.

    • Diogo Leote diz:

      Em duas pala­vras, tudo se resume a intui­ção e sen­si­bi­li­dade. Mui­tos fil­mes vou eu ver com o meu filho, mui­tas músi­cas vou par­ti­lhar com ele. Um abraço.

  3. rita vaz pinto diz:

    O teu filho sente que estás embas­ba­cado, e fica para sem­pre embas­ba­cado pela figura paterna. Depois? Músi­cas, pala­vras, his­tó­rias e muita poesia.

  4. maria lucena diz:

    Diogo. Vê o Pinó­quio da Disney.

  5. Rita V diz:

    Até aos 4 anos não sei dar gran­des con­se­lhos que não te tenhas já lem­brado, :-) mas não te esque­ças, depois dessa idade de lhe colo­car um ins­tru­mento nas mãos. Assim quando ele qui­ser voar é só abrir as asitas.

    • Diogo Leote diz:

      Rita, podes ter a cer­teza que, se pudesse vol­tar aos meus 4 anos, era um ins­tru­mento musi­cal que iria pedir ao Pai Natal. Pois é, daqui a 4 anos, espero estar em con­di­ções de fazer de Pai Natal.

  6. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Um pai igno­rante não existe, bem pior é um pai ausente, arro­gante, egoísta etc,etc, mas pela lista que falas parece-me que o teu filho é sor­tudo, o que faz de ti um pai sor­tudo também…concordo com todas as suges­tões, vais ter que ir vendo passo a passo…e se alguém dis­ser que tem um mapa , não acre­di­tes! vai ser sem­pre nave­gar à vista!!!

    • Diogo Leote diz:

      Ber­nardo, não me importo nada de ser igno­rante na maté­ria. É ou não é bom che­gar a esta idade e ainda sen­tir­mos ter tanto para descobrir?

  7. O Eco de Umberto diz:

    Grande grande filme. Só mesmo um pai como deve ser se lem­bra­ria dele. E que ter­mina com um belís­simo tema a fin­gir zydeco que há quem ache das melho­res can­ções para cine ever.

  8. Diogo Leote diz:

    Caro Eco, agora é que me fizeste sen­tir um gran­des­sís­simo igno­rante. Tive de ir à Wiki­pé­dia esprei­tar o sig­ni­fi­cado de zydeco. É uma espé­cie de Cajun, certo? Belo som para cine, sim senhor.

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