Zarpar

Zarpar com o vento, deixar que a paisagem se desenrole como um ecrâ falso de cor, sentir a velocidade na estrada longa deserta, o dia que tomba ao longe. Era tempo de ir, sem saber para onde, para sul, para o calor que se imaginava dourado, sobre folhas verdes suculentas de frutos, de paixão. Atravessar o deserto seco e infernal, de corpos escondidos sobre turbantes de cor, olhar os olhos de luz profunda na sombra da cara, e entender a noite preta sarapintada, a sinfonia dos grilos que se esticava até a aurora.

Largar para trás a poeira do tempo, emagrecer na limpeza do supérfluo, apenas o essencial que se guarda calorosamente, por entre malas desgastadas no banco de trás do carro alugado.

Houve paisagens que assustavam pela sua seriedade, a natureza como monumento, a vida que se esvai por entre gargantas de terra de fogo, e logo à frente vales verdejantes a lembrar jogos de criança, por entre ribeiras carregadas de corrente, molhando seixos arredondados pelo tempo infinito, polidos ao ponto de nos vermos tremidos no espelho da água. Eram terras de índios, vazias ainda do nevoeiro do homem.

De noite sentíamos o silêncio como um manto escuro. O ar frio e fresco no breu, inventado por Deus.

Depois tudo acabava, no retorno do cansaço dos corpos, na esperança do encontro de uma réstia de sentido na vida, que corre livre até ao fim dos tempos. A cidade recortada, lá no fundo, no meio do verde, em sombra, escondida do sol. E a vontade, sempre nova, de zarpar outra vez.

 

 

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
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7 respostas a Zarpar

  1. ai …
    ( suspiro)
    que pena tenho de enjoar

  2. G.Rocha diz:

    desculpas “esfarrapadas” Rita, há sempre um comprimidinho miraculoso 😛 e assim já se pode viajar de barco, veleiro, iate, avião, jacto 😛

  3. Rita V diz:

    Nem lhe disse B. que adoro esta música.

  4. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Pois é , as desculpas mesmo “esfarrapadas” , afinal Rita a música vale a viagem…

  5. Maria João Freitas diz:

    Bernardo, não sei para onde foi, mas fui, seguindo as suas inspiradas palavras como uma bússola.

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Maria João , vou ainda manter segredo, até porque posso ter inventado algo no entusiasmo da escrita que lembra aquilo que já passou…mas ainda bem que foi, sem mesmo saber para onde! Até breve…

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