Aqui há dragões

São Jorge e o dragão, Paolo Uccello. National Gallery. Londres (c. 1470)

Olha-se assim de repente e até parece que a princesa leva o dragão pela trela, mas não, pois é ela quem atrelada vai. Sai-lhe da alta cintura medieva a corrente com que o bicho a conduz à caverna onde toma habitualmente o pequeno-almoço. Deram-lhes os habitantes da cidade, em troco de alguma misericórdia, cordeiros uns atrás do outros, mas fartou-se da tal dieta e passou a exigir um preito de rapazes e raparigas, tirados à sorte. Pois é, isto de Minotauros, há-os em todas as latitudes quando os humanos engendram histórias para explicar o que ainda não têm como de outro modo. Eis que cai o azar na filha do rei e a mocinha lá vai, hierática e pronta, a cauda do vestido palaciano a arrastar-se na poeira e os cabelos presos num alto toucado. Talvez chorasse e não mostrasse, isso não conta Jacobus de Voragine na sua Legenda Aurea (c.1260), uma colecção de hagiografias apócrifas onde anjos, arcanjos e demais santos se movem com ademanes de novela de cavalaria. Uma espécie de best-seller medieval, salvo seja o ancronismo desta designação no meio do séc. XIII. Foi aí que Uccello (1397-1475) leu a lenda que assim quis figurar, insistente na perspectiva e na profundidade do quadro. Voltando à princesa, preparava-se o dragão para lhe chamar um figo quando surge São Jorge, de angélica armadura reluzente e zás! com a espada alinhada pelo olho divino da tempestade que se forma nos céus, fura a mandíbula do animal e evita à princesa o defunto destino de se tornar infanta em pavana de Ravel.

Não é a primeira vez que Uccello visita este tema. Há outro quadro. Aliás, até há um terceiro mas não vem agora ao caso, não vá a Tia Escrever enfadar-se com esta fauna quimérica esbarrondada aqui pela sala. O outro quadro de que falo foi pintado uns dez anos antes. Enfim, já se sabe que estas datações são sempre circa qualquer coisa. Ei-lo:

São Jorge e o dragão, Paolo Uccello. Musée Jacquemart-André. Paris  (c.1460)

A obsessão que Uccello tem com a representação da perspectiva parece aqui meio ingénua nesta quase gótica leitura da história. Encapela-se o dragão contra o angélico cavaleiro que, sem esperar que se forme no céu a tempestade de Deus, arremete certeiro contra a goela  hiante do alado adversário. A princesa não traz trela, mas tem as mãos  postas o que não deixa de ser assisado em casos que tais.

Se me perguntarem qual dos dois, eu digo o de cima. Pela linha da cabeça do cavalo, pelo recorte das asas do dragão, pela cor. Ia alto o Quattrocento quando Uccello o pintou, mas olha-se para ele na parede da National Gallery e aprende-se depressa que isto de perigos  e de mortes, alteradas as formas e a circunstâncias, ou aperfeiçoadas as perspectivas, é pintura que dura enquanto durar o mundo. E que não há heróis se não houver dragões: mísera é a sorte, triste a condição, não estou a inventar nada.

É por isso que escrevo estas coisas de pouco assento com os cabelos presos por uma faca de abrir cartas e finjo-me de punhal. Se algum medo eu tenho é o de que acordem os monstros quando se me adormece a razão ou que, madrugada alta, ganhem vida por esse corredor fora as górgonas, os grifos, as gárgulas e outros iguais que dormem dentro das minhas desalinhadas pastas. Assim, quando São Jorge chegar, está tudo morto, o chá feito e eu composta. Só não me pinta Uccello.

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.
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23 respostas a Aqui há dragões

  1. Por mais de repente que se olhe e leia, é um texto de aramadura reluzente e longa lança que no fim se transforma em insidiosa faca que a grifos e gárgulas corta o pio. Boa maneira de nos convidar a beber um chá, Ivone. Mas que grande começo. Seja bem vinda.

  2. Ana Vidal diz:

    Clap. clap. Bela entrada! Ainda há-de pintar-te um Uccello muito especial, porque mereces. Beijo

  3. Ivone Costa diz:

    Oh, obrigada, Ana. Beijo.

  4. fernando canhão diz:

    I’m gonna die.
    I’m gonna die!
    Just hold on, Dragon boy!
    I’m gonna die!

    – I’m sorry!
    – Give me your tail.

    I can’t believe he killed me, sister! That sissy St George flash and sound, kind of fake Freddie Mercury mother fucker!
    Who’d have fuckin’ thought that?

    Hey, just cancel
    that shit right now!
    You’re hurt. You’re hurt
    real fuckin’ bad, but you ain’t dying!

    All this blood’s scarin’
    the shit out of me, sister!
    I’m gonna die!
    I know it!

    Excuse me, I didn’t realize
    you had a degree in medicine.

    Are you a dragon doctor?
    Are you a dragon doctor?

    Answer me, please!
    Are you a dragon doctor?

    No, I’m not.
    I’m not.

    So you admit you don’t know
    what you’re talkin’ about.
    If you’re through givin’ me your
    amateur opinion, lie back on your scales and listen.

    I’m takin’ you back to the rendezvous,
    Cousin Mino’s gonna get you a dragon doctor…
    the dragon doctor’s gonna
    fix you up and…
    you’re gonna be okay.

    Now say it!
    You’re gonna be okay!

    Say it!
    You’re gonna be okay!

    Say the goddamn words!
    You’re gonna be okay!

    Oh, God!
    Say the goddamn fuckin’ words!

    Say it!
    Okay, sister.

    Correct! Correct!
    I’m okay.

  5. mariabrojo diz:

    “Aqui há dragões”, olá se há! Partilho o seu chá, encho a minha xícara. Desrespeitando convenções supersticiosas, brindo à excelência do texto e à Ivone Costa.

  6. Helena Sacadura Cabral diz:

    Minha bela Ivone que excelente texto. E que outra coisa se poderia esperar de ti?!
    Até hoje, ler-te é não só um prazer, como constitui, sempre, uma aprendizagem.
    Sobre nós e sobre os outros!

  7. A minha Valquíria num espaço superlativo…, que lindo!
    Boas viagens!
    Xi-coração azul

    • Ivone Costa diz:

      Obrigada, Margarida. Melhor do que toda a viagem é quem viaja para me visitar. Beijinho.

  8. jrd diz:

    Caríssima Ivone,
    Antes de tudo, muitos parabéns.

    Se escrever é triste, dá para perceber que este interessante blogue não vai contribuir para pagar a nossa dívida pública.

    O meu comentário será escrito num registo, cuja dimensão literária -menor- não se enquadra no conjunto dos que o precedem, nem tão pouco na qualidade dos textos aqui publicados.
    Mas, atendendo à circunstância de lhe ter dito que iria pass(e)ar por aqui, não me vou retirar sem deixar pegada *.
    Não sou versado em mitologia, não obstante o muito que aprendi ou relembrei nas habituais “rondas do dia”.
    Daí que prefira falar das vulgaridades míticas dos nossos dias, aquelas em que o S. Jorge, longe de ser o angélico cavaleiro que trespassa o monstro alado (?) é, pelo contrário, um demoníaco e incendiário, açulador de dragões, os quais ínsita sem rebuço a bolçar fogo pelas mandíbulas aceradas.
    Ah! Sobre princesas não me manifesto, porque as “estórias” da corte me passam ‘a latere‘, apesar de saber que andam por aí muitas “cortesãs” …

    * Para acabar com o arrazoado apenas lhe peço para apagar a pegada, se assim o entender, porque, como sabe; eu comovo-me por tudo e por nada, mas não melindro e estou sempre disponível para um chá virtual…
    jrd

    • Ivone Costa diz:

      Caríssimo, jrd, muito obrigada pela sua passagem. Avance aí com a xícara que, de pronto, lhe sirvo um chá fumegante.

  9. Cara Ivone Costa,
    Gostei de a ler neste blogue tão interessante. Requintadamente composta, como sempre, apesar dos monstros adormecidos. Que acordem e que os mate, parece-me bem, que um chá de compostura e tristeza é do melhor que há.

    • Muito obrigada. Quanto aos monstros, prefiro-os adormecidos. Se os mato, deixo de os ter e pode lá uma pessoa viver sem ameaçadoras e tristes quimeras …

  10. Pedro Bidarra diz:

    Obrigado Ivone por este prazer matinal de a ler

  11. Eu é que agradeço, Pedro, o prazer de ser lida.

  12. Maria João Freitas diz:

    Mas que belo primeiro texto, Ivone. Já o li, reli e voltei a ler. Põe-nos a imaginação a voar nas asas do dragão e não há São Jorge que nos apanhe.

  13. Ivone Costa diz:

    Obrigada, Maria João. Mas olhe que o São Jorge apanha sempre o dragão …

  14. Ivone Costa diz:

    Obrigada, Rita.

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