As Tallulahs que não fui

Tallulah Bankhead em Faithless de Harry Beaumont. 1932

Costumo dizer que ter lido o Guerra e Paz aos treze anos me fez mal à cabecinha. Além do mais, a tradução devia ser má porque ainda não tinham chegado os Guerra. Lia, lia sem parar nem perceber metade, e atava os vestidos com uma fita que lhes desse um ar Império e toda eu era Natacha que até com sapatos de baile sonhava. Depois passou, nunca mais me apeteceu invadir Moscovo no Inverno e andei uns tempos entretida com a realidade. Um dia, não sei precisar quando nem onde porque isto já faz uma eternidade e meia, dei com esta fotografia da Tallulah Bankhed. Agarrei na revista, acho que era uma revista, e fui olhar-me no espelho. Olhei outra vez para revista e outra vez para mim no espelho. Pensei: mais uns anos, batôn e um veuzinho assim sobre o rosto e a coisa resolve-se. Está decidido. Decidido porque já tinha aflorado a hipótese de me transmudar em Catherine no ventoso Yorkshire. Acontece que, chegada à idade do batôn, um veuzinho assim sobre o rosto, só o usavam a minha mãe e as outras senhoras nos casamentos de maior aprumo e era quando era. Nada feito. A partir daí, fui sempre eu. Com batôn, claro.

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.
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16 respostas a As Tallulahs que não fui

  1. MJC diz:

    🙂 Delicioso o que ficou de ter lido Guerra e Paz aos 13 anos. 🙂 Por essa idade eu andava mais pelo Júlio Dinis e Camilo a chorar baba e ranho com o Amor de Perdição. Sem véu sempre, de chapéu nas suas amplas variações, o mais possível mesmo estando demodée e de baton o dia todo!

  2. Ivone Costa diz:

    Cada um um tem as suas adolescentices …

  3. Helena Sacadura Cabral diz:

    E eu, vê tu, pelo Dostoevsky, que o meu irmão mais velho me propunha que lesse. Tirando, claro, A Mãe, do Gorky, a que ele pretendia introduzir-me. Quando penso, hoje, nisso, dá-me uma imensa vontade de rir. Li-os bem um pouco mais tarde. E reli-os aos trinta. Na hora…

  4. Excelente notícia, a de poder ler a Ivone também aqui, neste belo espaço!

  5. Manuel S. Fonseca diz:

    Ivone, quase que aposto que essa edição dos 13 anos devia ainda ser a da editorial Inquérito, tradução de José Marinho. Em 3 volumes, impressos em 1957. Adoro essa edição que deve ter sido traduzida do francês e que é matulona, com um corpo de letra que até o Borges seria capaz de lê-la.

  6. Manuel, sabe? Eu tenho ideia de ser em volumes pequenos, mas posso estar a confundir com uma edição d’ Os Miseráveis que era da Editorial Crisos, do Porto, e que tenho por aí. Já procurei o GeP onde ele deveria estar, mas não encontro.

  7. Grande decisão Ivone, sermos nos próprios! E belas memórias, não são todos que lêem Tolstoy aos 13 anos…

  8. Laura diz:

    Hum… que blogue é este com um título tão falacioso? 🙂 É divertido.
    Aos 13, competentemente subvertida pelo meu querido irmão mais velho, lia eu, não Tolstoi (que chatice..) mas Cavafy, Maria Gabriela Llansol, Steinbeck, Harper Lee… Claro que tinha tradução simultânea (aliás, prévia’), devidamente tendenciosa 🙂

  9. mariabrojo diz:

    Teve sorte. Aos treze anos, foi-me sugerido ler Sartre e Camus no original. Após as leituras, houve o debate que era praxe da casa. Não me devo ter saído mal de todo. Porém, quase nada restou como era previsível. Repetiria as leituras na maturidade, já com batôn, claro!

  10. Maria, todas leituras têm de ser repetidas na maturidade. Com batôn, claro.

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